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Por Agnaldo Farias
A criação, nas últimas duas décadas, de museus e centros culturais desses que viram cartões-postais e marcos urbanos não é fato que deva ser tranquilamente festejado como indicativo de um grande progresso do nosso meio cultural, em que pese as aparências em contrário. A maioria dessas instituições não conta com curadores na acepção precisa do termo, isto é, profissionais que, de olho no compromisso com a formação do público, quando à frente de museus, montam coleções e conservam as obras que as compõem, estudam-nas e exibem-nas de modo a potencializar suas qualidades. No caso das outras instituições sem acervo, o trabalho resume-se aos dois últimos tópicos, o que não é pouco. Como o regente de uma orquestra, o curador é quem define uma programação coerente, alinhavada por critérios de qualidade, de tal modo que o resultado geral é muito mais que a soma das partes. Mas no Brasil a última moda é achar que esse perfil é dispensável, que é mais fácil lidar com profissionais autônomos, frequentemente escolhidos pela capacidade em propor temas bombásticos, de grande apelo popular, mais ao gosto dos diretores de marketing, os profissionais responsáveis pelos aportes de recursos nascidos de isenção fiscal, ou seja, de DINHEIRO PÚBLICO, e que nos últimos anos vêm se convertendo, em última análise, nos responsáveis pelos caminhos da cultura no paÃs.
Mas há de se convir que ficou fácil malhar, e com carradas de razão, a figura do curador. No nosso paÃs, o curador muitas vezes tem assumido o perfil de um simples agitador cultural, propositor de projetos de uma superficialidade constrangedora, patente nos textos elementares que os acompanham. E também há o curador pedante, que se pretende mais autor que os artistas e obras selecionados, tornando-os ilustrações de suas teses, de resto quase nunca tão brilhantes quanto supõem.
Mas entre os dois há muita, mas muita gente séria, interlocutores dos artistas, respeitados como legÃtimos cúmplices no processo de veiculação do trabalho. E, considerando que as exposições, mais que os livros de arte e a recentÃssima internet, têm sido, desde os primórdios da arte moderna, a mÃdia por excelência de apresentação da arte, o papel daquele que seleciona as obras, organiza-as no espaço e constrói uma narrativa a partir delas é crucial. Várias foram as exposições decisivas para a apresentação de determinadas obras, tendências e movimentos artÃsticos, como também o foram para a consolidação de reputações, reposicionamento de outras e, por consequência, estremecimento e mesmo demolição de terceiras. A exposição é o lugar onde a obra se apresenta ao público em geral, do leigo ao especializado; é quando a obra entra em contato com crÃticos e jornalistas, marchands e diretores de museu; é quando, enfim, se efetiva a economia polÃtica da arte.
Esses argumentos fazem lembrar que o trabalho do curador foi precedido pelo de outros: das comissões de seleção dos salões ao conservador de museus, passando por marchands e chegando até artistas e crÃticos de arte. Os exemplos são inúmeros e, a bem dizer, continuam válidos, uma vez que há muita gente que, não sendo exclusivamente curador, se ocupa eventualmente dessa tarefa. Pois nada disso diminui a necessidade de especialização do circuito de arte, decorrente do aumento da sua complexidade. Quem não percebe isso, como as instituições que não contam com esses profissionais, não obstante sua responsabilidade com o público, é ignorante ou hipócrita. Nos dois casos, um procedimento amadorÃstico inaceitável.![]()

Observatório - Coluna de Agnaldo Farias
