Um tributo a José Bernnô

A Galeria Estação abre sua nova exposição nesta quinta dia 19 de maio como um tributo ao artista José Bernnô, falecido em 2009.

Com curadoria de Marco Gianotti, a mostra conta com 11 pinturas de superfícies cromáticas intensas, que registram a forte personalidade de um artista cuja formação deu-se em sua oficina mecânica, no Bairro do Limão, na capital paulista.

Ainda que Bernnô tenha frequentado a Faculdade de Belas Artes, em São Paulo, foi a sua experiência de pintor automotivo que o levou ao artista que veio a se tornar. Sua primeira exposição individual aconteceu tardiamente, em 2008, quando tinha 59 anos, com o incentivo de Paulo Pasta, Rodrigo Naves e Marco Giannotti, já estabelecidos artistas plásticos. Depois do expediente, a sua oficina transformava-se em ateliê e ele seguia produzindo suas telas madrugada afora. Bernnô soube aliar suas inquietações contemporâneas ao espírito comunitário, ao participar das atividades do seu bairro.Chegou a realizar as alegorias para a escola de samba Mocidade Alegre.

Segundo Gianotti, o pintor do Limão nos faz lembrar o pintor do Cambuci, Volpi. “O artistanunca procurou uma pintura refinada e, em seu trabalho, linha, cor e matéria bruta parecem estar um pouco fora da ordem, com cores que desempenham papel ativo noespaço pictórico, criando um simbolismo hermético, distante da representação da natureza”, destaca.

Bernnô realizava seus experimentos cromáticos em pedaços coloridos de pano ou de papel o que o levou a adotar um processo criativo muito parecido com a colagem.“Em um momento importante de sua formação ele chegou a pintar em caixas desmontadas de papelão. Nesse caso, os recortes se agrupam fortuitamente e criam uma sensação de unidade maior do que a soma das partes. “Campos cromáticos assumem um aspecto de figura quase por acaso, de modo que passamos a imaginar uma geometria que volta a se encontrar com o espaço do mundo”, lembra Gianotti. Por esse motivonão se encontra nem linhas retas nem quadrados perfeitos em sua pintura. As hastes verticais que aparecem de vez em quando lembram os postes corroídos pelo tempo e que estão prestes a cair após um temporal. “As marcas do horizonte não nos levam ao mundo sublime, são como as simples marcas feitas com esmalte em uma oficina mecânica para evitar a sujeira”, explica o curador.

Gianotti ainda aponta que suas pinturas resistem à palavra, em uma contrução rústica que, mais uma vez, nos remete a Volpi. “Se um quadro nos faz pensar nas paredes sutilmente caiadas, o outro nos leva para a superfície ríspida do concreto armado. Joviais, vibrantes, alegres e às vezes taciturnas, o fato é que as pinturas de Bernnô destoam pela singularidade. Não vemos pintura semelhante ser feita em São Paulo. Nem figurativas nem totalmente abstratas, nem datadas nem fora do tempo.”

José Norberto de Mattos (José Bernnô) – 1949-2009

Pintor, mecânico e músico, Bernnô nasceu no bairro do Limão, zona norte de São Paulo onde se formou técnico em mecânica pelo Senai e atuou também com desenhista de projetos mecânicos. Com cerca de 20 anos de idade foi trabalhar em uma concessionária de automóveis participante de corridas esportivas, especializa-se na funilaria e pintura desses veículos.

Estudou desenho arquitetônico e trabalhou como projetista. Foi neste momento que começou a produzir pinturas figurativas e montou sua primeira oficina mecânica aproximadamente em 1979, a Onix Import, que se especializou em funilaria, pintura e personalização de veículos. Ingressou na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, onde se formou em 1987. A partir de 2001, freqüentou cursos livres com os pintores Paulo Pasta e Marco Gianotti. Em 2005, Bernnô participou do 30º Salão de Arte de Ribeirão Pretoonde recebeu o prêmio de aquisição.

Seu ateliê era na própria oficina e alguns artistas, ao requerer serviços para o conserto de seu carro, tomavam contato com as pinturas ali expostas. Desse encontro resulta sua primeira exposição individual no Estúdio Buck (2008), em São Paulo, com curadoria de Cauê Alves. No mesmo ano, o crítico Rodrigo Naves o cineasta Pedro Gorski inicia a produção do documentário Bernnô, concluído em 2010.

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