Tudo sobre a SP-Arte

© Galeria Luciana Caravello

SP-ARTE 2016
PRIMEIRO DIA – QUARTA-FEIRA DIA, 06/04/2016

Já antes da abertura do portões, o clima no Pavilhão da Bienal era animado. Os turbilhão da crise política e econômica ficou de fora e, lá dentro, todos que trabalhavam na montagem dos 120 estandes de arte e 23 de design se maravilhavam com a qualidade da arte dos vizinhos. O público começou a chegar também animado e, quando as portas se abriram para o coquetel, todos já entenderam que, este ano, a SP-Arte traria novamente sua mágica para o circuito, depois de um 2015 mais sóbrio.

Como sempre, os corredores estavam cheios da costumeira mistura de alternativos e ricaços, colecionadores e passeadores, amantes da arte aproveitando a melhor exposição de arte da cidade e buscando sua ultima aquisição. Ao contrário do ano passado, muitos galeristas eram vistos ao lado de clientes olhando listas de preço, sempre um bom sinal. As expectativas não eram muito boas, especialmente as das galerias internacionais, muitas das quais ficaram balançadas pelas noticias negativas sobre o Brasil na mídia internacional e cogitaram não confirmar presença. Mas todas vieram, trouxeram boas peças e se mostravam satisfeitas com o movimento do primeiro dia. Ainda assim, apesar da recente baixa do dolar, os preços internacionais assustaram um pouco alguns colecionadores, dando vantagem às brasileiras, que abandonaram suas tabelas em dolar e estavam passando todos os preços em reais.

ARTE MODERNA

Entre os destaques da seção de arte moderna, o estande da Pinakotheke juntou a portuguesa Vieira da Silva e o brasileiro Bandeira, em um paralelo já pensado por muitos mas nunca exposto. Ronie Mesquita dedicou seu estande inteiramente a Raymundo Collares, com raríssimos gibis e desenhos que lembram seu já conhecido talento para conseguir obras de bom gosto. Carybé era o tema do estande de Paulo Darzé, uma panorama completo com obras de períodos e traços poucos conhecidos do público.

ARTE CONTEMPORÂNEA

No andar conteporâneo, uma “parabólica” de Anish Kapoor chamou atenção no estande da Lisson. Vários passantes encostavam o nariz nos trabalhos com cédulas de dinheiro de Rodrigo Torres no estande da SIM Galeria, para ver os detalhes intricados dos recortes. A Athena Contemporânea, com pouco tempo de casa e de feira, supreendeu com a qualidade dos jovens artistas representados, com destaque para André Griffo e Lais Myrrha. Anita Schwartz montou um canto com o novo trabalho de Wanda Pimentel, uma edição de pinturas dos anos 1960 em caixas-objeto, mais um projeto primoroso da Aprazível de Leonel Kaz.

Lembranças da crise estavam em algumas obras: Na Fortes Vilaça, Los Carpinteros traziam uma enorme escultura em madeira com os dizeres: “El Pueblo se Equivoca”. Na parede, a outra parte da instalação: formas para biscoito que estampavam as palavras do momento – corrupção, bolsa-família, populismo – e na mesa, um prato com os biscoitos para o lanche dos visitantes. Quem diria que o circuito de arte se alimentaria do produto do erro do povo? Só mesmo na SP-Arte…

No estande contemporâneo da Paulo Darzé, a obra “Patrocínios”, de Leda Catunda, reunia logomarcas de várias empresas envolvidas nos escândalos recentes. O galerista fazia piada: “esta com certeza é a obra mais atual da feira!”

O tempo todo, eventos pipocavam nos estandes: brunch no do Itaú Private, happy-hour no da Minalba, champagne no da Perrier-Jouet. Uma performance aqui, outra ali garantiram diversão non-stop e um clima agitado, com a sensação de que algo interessante estava acontencendo a todo momento.

O primeiro dia da feira celebrou um futuro melhor e deixou grandes expectativas para uma SP-Arte histórica. Nosso obrigado à diretora Fernanda Feitosa e seu irmão Felipe por um evento profissional e de qualidade. Vida Longa à SP-Arte!

SEGUNDO DIA: QUINTA-FEIRA, 07/04/2016

Como sempre, em todas as feiras, o primeiro dia de abertura ao público é mais lento, dando tempo aos expositores para substituir as obras vendidas e fazer um balanço. A maior parte se mostrou satisfeita com as vendas, mas alguns não estavam tão positivos. Finda a euforia, papos de Dilma e impeachment eram ouvidos em alguns estandes, mas as dicussões eram levadas pelos visitante – os expositores pareciam querem encerrar logo o assunto. A diretora da Dasartes, Liege Jung, circulava pela feira propondo outro caminho: A arte olha para o futuro e o futuro será melhor!

No início da tarde, a artista Elfie Nitze se arrastava pela feira carregando em seus obros um véu feito de cordas e cabaças em sua performance. A cada momento, parava e lavava o rosto com água contida em uma cabaça quebrada, enquanto todos tiravam fotos. Mais tarde, Renan Marcondes realizou sua lentíssima coreografia calçando sapatos de mulher com saltos impossíveis.

Chamou atenção o estande da Ybakatu, com obras só de artistas de Curitiba, e uma escultura de Jorge Fonseca com livros de madeira prendendo uma cadeira na Sergio Gonçalves. Nos estandes da O Colecionador, um menino retirante de Portinari arrancou lágrimas de uma passante estrangeira, que, mesmo sem conhecer bem a obra de Portinari, declarou que trouxe à tona a crise da imigração em seu continente. Na Almeida e Dale, duas obras parecidas de Milton Dacosta, uma custando quase o dobro da outra, causavam um pouco de confusão em quem não entende as sutilezas do mercado. Boatos especulavam sobre a venda de um painel de Beatriz Milhazes por R$16 milhões, na Dan Galeria. Seria verdade? Ouviu-se pelos cantos que se trata de um obra de uma série de quatro, representando as estações do ano, todas pertendendo a um único colecionador privado, que estava testando o mercado.

PRÊMIO BOLSA ICCO

As 17h foram anunciados os vencedores do Prêmio ICCo, que ganharão residências fora do Brasil: Marcelo Moschetta, com obras nos estandes das galeria Vermelho e SIM – na SIM, uma incrível montagem com árvores quase invisíveis em papel carbono – , e Bruno Baptistelli da Galeria Pillar, com obras que incluiam um díptico onde as palavras PRETO, e NEGRO também desapareciam na tinta negra, mostrando uma pendência do prêmio para o sutil.

ANDREA REHDER E MARCOS AMARO

Ao poucos, o público foi chegando e no início da noite os corredores e estandes já tinham bom movimento. No estande da Andrea Rehder Arte Contemporânea, um happening reuniu as amigas da galeristas, todas maravilhadas com a qualidade das obras expostas. Ali estava o artista Marcos Amaro, cuja fundação é sede da exposição inaugural da Galeria. Logo Marcos partiu para a livraria Blooks, onde lançou seu album de desenhos, uma edição em grande formato de algumas de suas obras em tiragem limitada. O primeiro foi comprado por Leonel Kaz, da editora Aprazível, conhecida por edições de livros de artista e objetos de arte como os de Wanda Pimentel e Roberto Magalhães. Outros amigos fizeram fila para prestigiar.

CAMPANHA AMIGOS DASARTES

A Dasartes lançou sua campanha “Amigos Dasartes”, convidando nossos leitores a se afiliar a contribuir em nossa missão de democratização da arte. Foi um sucesso e teríamos batido nossa primeira meta não fosse algumas quedas no Wi-Fi. Obrigada a todos os novos amigos, que estão arregaçando as mangas por um Brasil mais culto e cheio de arte!. Saiba mais e afilie-se em https://recorrente.benfeitoria.com/dasartesdigital.

TERCEIRO DIA: SEXTA-FEIRA, 08/04/2016

A sexta começou tranquila, mas logo nas primeiras horas o público começou a chegar em peso. O costumeiro movimento de carregadores com obras nos corredores e estandes repondo obras era um bom sinal.

Um amigo confirmou a venda da Beatriz Milhazes por R$16 milhões a um dos sócios da Ambev, que não quis nomear, e um bordado excepcional de Leonilson foi vendido por R$1,5 milhão na Almeida e Dale, que o repôs com uma obra de Basquiat. Rumores diziam que a representante da coleção Ella Cisneros se encantou com a obra de Jorge Fonseca na galeria Sergio Gonçalves e o múltiplo de Gaia no Escritório Rosa Barbosa exibia sua última unidade.Rosa Barbosa, aliás, lamentava um tropeço de uma visitante no dia anterior, que tinha quebrado ao meio a delicada estrutura de madeira de uma das esculturas de chão do artista. Por sorte, o próprio Gaia pode fazer o reparo, que ficou imperceptível. O artista Pablo Atchugarry estava presente no estande da galeria Piero Atchugarry, de quem é pai, atraindo curiosos e fãs de suas esculturas de delicadas ondas.

Logo ao lado, Karla Osório do Gabinete K2O era só sorrisos: vendeu 26 obras no primeiro dia de feira e no segundo mais duas grandes obras do chinês Wan Qinsong, uma delas para a ousada e internacional coleção de Regina Pinho do ICCo. Encontramos no estande nosso artista da seção Garimpo da última edição, Marco Ribeiro, que gentilmente presenteou a Dasartes com uma obra de sua autoria.

JOIAS E HISTÓRIAS

A Amsterdam Sauer comemorou os 50 anos do anel Constellation com um estande teatral, imitando o apartamento de um casal carioca dos anos 60 cujo presente de noivado fora o primeiro Constellation produzido pela joalheria. As paredes estavam lotadas de obras de Burle Marx, Palatnik e até alguns contemporâneos, como Vik Muniz. Completava o charme o mobiliário de época e fotos do casal, além de, é claro, joias deslumbrantes. Algumas mulheres pareciam mais interessadas em gastar neste estande do que em qualquer outro da feira.

BOAS VENDAS PARA OBRAS DE VALOR MENOR E ALGUMAS ESPECIAIS

A percepção de muitos expositores era de que obras de maior valor estavam sendo vendidas com mais dificuldade, mas bons negócios eram feitos com obras menores e os resultados finais eram melhores que o esperado, dando um clima positivo nos estandes e estampando muitos sorrisos. As galerias que trabalham com grandes artistas estrangeiros foram as mais prejudicadas com a alta do dolar, já que tinham menos poder de negociação em seus valores.

Próximo à saída, enormes telas embrulhadas aguardavam no estande da Galeria Ipanema para serem levados à casa de um colecionador, que queria experimentar antes de comprar. Uma delas era uma pintura de Julio Le Parc.

As 21h, horário de fechamento, os corredores e estandes ainda estavam cheios e os guardas tiveram que barrar a subida das escadas para forçar os visitantes a deixar os pavilhões. Tudo em clima de festa.

PÓS-EVENTO

Um dos principais eventos pós-feira da sexta foi o lançamento da web-série de Simon Watson, “Simon Say: Art Stars to Know”, que estará disponível em seu site www.simonwatsonarts.com a partir de maio. Nos vídeos curtos, de até 5 minutos, Simon fala sobre a obra de um artista brasileiro, apresentando-o ao mercado internacional, pelo qual ele circula já há mais de trinta anos. O primeiro vídeo tem Opavivará como tema e o coletivo encheu a festa com seus amigos, trazendo um bem-vindo clima jovem e descontraído ao evento.

FIM-DE-SEMANA

No sábado, como esperado, o grande público já começou a lotar o Pavilhão da Bienal assim que os portões se abriram. Com a feira e todos os estandes lotados, o clima era de animação. A partir das 17h, auge da lotação, transitar pelos corredores era um exercício de paciência e calor, mas ninguém parecia se importar, animados pela bela arte exposta e refrescados pelas deliciosas garrafas de Minalba Premium distribuidas gratuitamente sem economia. Mais uma vez, guardas tiveram que ser chamados para direcionar os visitantes à saida e esvaziar o pavilhão, com o utlimo visitante deixando o local quase duas horas depois da hora do fechamento.

No domingo não foi muito diferente. Este é o dia que sempre registra o público mais eclético, desde amantes da arte acostumados a frequentar museus até desavisados que passavam por alí e resoveram entrar. Uma conversa entreouvida no estande da O Colecionador virou piada entre alguns galeristas: frente a uma pintura de Portinari, a mesma que arrancara lágrimas de uma turista no primeiro dia, um casal perguntou ao atendente: “Muito bonita. Foi você que pintou?”

Encerrando mais cedo, o clima era positivo entre os que lentamente desmontavam seus estandes. Mais uma vez, a SP-Arte tinha feito sua mágica e adoçado a vida dos mais de 50 mil visitantes que transitaram por ali em seus cinco dias de funcionamento, curando o abatimento político do país com arte.

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