Restrospectiva de Ascânio MMM na Casa Triângulo

Retrospectiva de Ascânio MMM na Casa Triângulo em São Paulo com curadoria de Paulo Miyada percorre a trajetória do artista.

Ascânio MMM é um remanescente das vanguardas concretas e neocretas, em sua primeira e segunda geração. Partindo de uma lógica matemática, sua obra é cartacterizada pelas formas em suspenão e materiais em equilibrio, que formam um sofisticado jogo de escalas e espacialidades, expandidos graças aos fundamentos da arquiteura e da matemática.

De abordagem retrospectiva, a exposição “Ascânio MMM: As Medidas dos Corpos” traz a São Paulo um seleção de obras de diversos períodos e materiais com o objetivo de demonstrar a complexidade da trajetória do artista desde a década de 1960 até a atualidade, explorando o caráter corpóreo de sua produção escultórica.

Verdadeiros fenômenos concretos, suas esculturas e relevos possuem correspondentes no território da lógica abstrata. Ascânio pratica o cálculo de progressões aritméticas e geométricas, planeja deslocamentos angulares, lida com trigonometrias e encontra linhas tangentes. Praticamente todas as suas obras desde meados da década de 1960 podem ser reconstituídas como fórmulas matemáticas enxutas e cristalinas, criando sinfonias espaciais sempre atreladas à poética dos corpos e da reciprocidade entre a obra e o espectador.

Já na área externa da galeria, o público se depara com uma versão renovada da obra “Piramidal 12.4 (1991-94), instalada originalmente em Fão, Portugal, cidade natal do artista. A obra de 5,20 metros de altura e pouco mais de 400 quilos, tem sua forma a verticalidade acentuada respondendo à altura da fachada da galeria. Uma obra que é ao mesmo tempo marco e passagem, monólito e janela, corpo e espaço, dialogando com a cidade.

Ao adentrar na exposição, o público é recebido pelos relevos paradigmáticos “Triângulo Projetado” (1968) e “Múltiplo 24” (1976), compostos por ripas de madeira dispostas segundo padrões rítmicos calculáveis.

As associações com a composição musical de sua produção atestam o quão longe vai a poesia do cálculo de Ascânio, que alcança exuberância na sugestão de movimento espacial ficando a um passo de sublimar sua lógica.

Nas esculturas brancas, verticais e espiraladas de Ascânio MMM, como “Escultura 2” (1976) e “Escultura 2.6” (1978-1997), o empilhamento de ripas gradativamente torcidas em ângulos calculados em torno de eixos verticais leva o espectador ao limite da surpresa, da sensorialidade e da sensualidade.

Nas intrigantes “Caixas” (1968-9), exibidas logo à entrada da exposição, o público é convidado a integirar com recipientes modulares vazados em que uma mesma geometria se repete em escalas sucessivamente reduzidas, intercaladas uma dentro da outra. Ao manusear as caixas, o artista encontrou ritmos e dinamismos visuais que consolidou em peças como “Triângulos 1” (1968-2009), que cristaliza um dos arranjos possíveis da “Caixa 3” (1969).

A eminência sugerida pelo movimento pode ser percebida em “Formação 20” (1979), obra de topologia supostamente simples, mas se observada de diferentes ângulos a imagem se transforma conforme espectador se desloca. “Gramixinga 1” (1986), também incluída na exposição, subverte o sentido usual de justaposição das ripas, posicionadas lateralmente em ângulo próximo ao vertical, permitindo que ela ganhe as proporções de um pilar e sustente o próprio peso sobre o solo.

Nas esculturas feitas em madeira aparente, a lógica modular se mantém, embora sejam apoiadas em concepções alternativas. Em “Fitangular Ipê 1” (1985), por exemplo, o contraste entre linhas mais e menos claras torna mais explícitos os cortes e angulações decorrentes, que transformam o paralelismo horizontal em uma oscilação de diagonais dinâmicas.

O sentido construtivo da trajetória de Ascânio se confirma nas peças em alumínio. Com sua ótima relação entre massa e resistência, o perfil de alumínio permite às esculturas alcançarem escala monumental, além de possuírem especial durabilidade.

As famílias dos “Flexos” e “Qualas” que Ascânio desenvolve desde 2003 são peças associadas por pedaços de arame torcidos, ou por pequenas argolas. Em ambos os casos, os requadros quadrados se somam em superfícies sinuosas e curvas, mas enquanto nos “Flexos” o movimento aparece congelado nas Qualas a gravidade e o espectador (obra manuseáveal) atua continuamente moldando a forma em inúmeros arranjos possíveis que atuam tanto no plano visual quanto tátil.

A panorâmica se finaliza com a transição de sua mais recente produção, a família dos “Quasos” (desde 2014), em que a ligação entre os módulos é feita por parafusos de cumprimentos diferentes, gerando complexas superfícies topológicas em um jogo de negociação do peso das peças com a gravidade. Veja-se, nesta exposição, a peça de transição Qualas 1 (2004), a delicada Qualas 13 (2010), a massiva Qualas 11 (2008) e a inédita Quasus 14 (2016).

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