Relembrando outros momentos conturbados da política

Os 50 anos da exposição “Opinião 65” serão comemorados com duas exposições: no MAM Rio, a partir de 04 de setembro; e na Pinakotheke Cultural, a partir de 17 de setembro.

No MAM Rio, a exposição está focada nos artistas brasileiros que participaram da mostra original e há, ainda, material de arquivo, como críticas, iconografia, filmes e entrevistas. Na Pinakotheke Cultural, a mostra “Opinião 65: 50 anos depois”, com curadoria de Max Perlingeiro, tem representados todos os trinta artistas participantes da montagem original, e das setenta obras expostas, todas foram produzidas na época, e várias integraram a mostra no MAM. Entre os artistas estão Hélio Oiticica, Wesley Duke Lee, Roberto Magalhães e Carlos Vergara.

A exposição emprestou o nome de um show de música ocorrido algumas semanas antes, onde Maria Bethânia e outros artistas se manifestaram contra o golpe militar. Nas artes, o momento era de ruptura com o abstrato e o moderno, que dominavam a criação até então, mas também com a alienação da arte frente ao momento crítico que o país vivia.

A mostra rendeu alguns momentos históricos, como a apresentação pela primeira vez dos Parangolés de Helio Oiticica. O artista trouxe a Escola de Samba da Mangueira para desfilar com sua nova criação e criou tanto estardalhaço que foi expulso do prédio, levando todo mundo para sambar sob a marquise do museu. Obras como Vencedor (1964), de Antonio Dias, um cabide de pé com construção em madeira pintada e capacete militar; e a aquarela Estados Desunidos do Brasil (1965), de Roberto Magalhães; e várias outras também ilustram a posição da arte frente ao golpe. Vale notar que, na época, eram todos jovens destemidos de vinte e poucos anos, com muita coragem e pouco a perder. Isto gerava um clima desbravador e vibrante, uma sensação de que algo importante estava acontecendo, pressentido por todos que foram à abertura.

Em um momento de crise política e econômica e desesperança em relação ao futuro, a mostra vem a calhar. Alimentamos a lembrança de que o Brasil já passou por momentos piores e que, em meio a tantas catástrofes, é preciso valorizar a liberdade e a capacidade inédita, ainda que limitada, que o país vem mostrando para punir os culpados.

EXPOGRAFIA
Buscando se assemelhar ao máximo à montagem original, Max Perlingeiro fez uma longa e detalhada pesquisa durante um ano, recorrendo aos amigos Antonio Dias, Roberto Magalhães e Carlos Vergara, e a uma edição de outubro de 1965 da revista “Manchete”, que trazia fotos da mostra no MAM, para mapear as obras. As famílias dos artistas participantes aderiram de imediato ao projeto, e um fator decisivo foi localizar a lendária colecionadora e crítica de arte Ceres Franco, residente em Paris desde 1951, que organizou em 1965 a exposição idealizada pelo marchand Jean Boghici (1928- 2015). Ambos são homenageados na mostra. Residente em Carcassonne, e com uma coleção de 1.500 obras em um espaço público em Montelieu, França, Ceres Franco escreveu à mão um depoimento emocionado, que estará no livro que acompanhará a exposição, tanto em fac-símile como transcrito.

“Opinião 65: 50 anos depois” não obedecerá a uma ordem cronológica. “Como na montagem original, será tudo junto e misturado”, avisa Max Perlingeiro. “Era uma mostra ultrassaturada, com um fator muito forte: estavam todos contra o regime militar”, observa. As obras pertencem a coleções públicas e privadas, como a de João Sattamini, Gilberto Chateaubriand/MAM Rio, Jean Boghici, entre outras

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