REFLEXÕES SOBRE “BAIXA A BOLA”

O homem é o lobo do futebol. Hobbes uma vez declarou que, da mesma forma que o mal tempo não é simplesmente a chuva, mas também a tendência de chuva, o estado de guerra não é simplesmente a guerra de fato, mas também a sua possibilidade. Assim, os latidos se unem à violência, traçando as coordenadas de um mapa em que nada pode escapar de seus ruídos e fúrias. A violência é, portanto, violência e latência, sendo resultado e ameaça ao mesmo tempo. A mass media sabe bem disso, encarregada de produzir a ambiguidade de um discurso sobre a violência, que de um lado afirma querer submeter um corpo estranho ao social, mas de outro apaga essa informação, contribuindo com sua obsessiva circulação (informar significa dar forma). Os mecanismos empregados são velhos conhecidos: ao mesmo tempo em que a superprodução assume o poder de trivializar as violências emitidas, os meios de comunicação as situam em planos idênticos, por mais diferentes que sejam (e o são), dando a entender que a difusa categoria conceitual que defende que “tudo é violência” se apoderou da verdade. Oferecer um continuum entre infinitas janelas simultâneas, trabalhar com o imediatismo exigido pela colérica atualidade e fabricar a ilusão de que vivemos em um mundo transparente, está entre as suas diversas estratégias vitais. Nesta superacumulação de informação, sobra luminosidade e falta direção, ou seja, nela não há sentido. Desde Freud sabemos que o ser humano não é transparente nem para si próprio: um labirinto – sugeria Borges – é também uma linha reta, incessante.

Nos limites do delírio. “A humanidade não progride lentamente, de combate em combate, em direção à uma reciprocidade universal, em que as regras substituirão para sempre a guerra, mas instala cada uma das formas de violência em um sistema de regras e caminha de dominação em dominação.” Não falta razão a esse pensamento de Michel Foucault. Porque hoje em dia, quando há remédio para tudo, em que tudo é controlado, a violência é objeto específico de neutralização, graduação, localização e relocalização. Parece ser necessário dominá-la, ao invés de excluí-la;parece ser inevitável contorná-la, ao invés de aprisioná-la.
Há poucos laboratórios mais apropriados para corroborar tais hipóteses do que o provado laboratório de futebol, onde entram em combustão as forças íntegras da personalidade. “Nos limites do delírio e na ardente massa fundida” – como menciona Martínez Estrada – a religião e a nacionalidade, o sangue e a política, as represálias e os desejos frustrados, os amores e o ódio instalam, no interior do tecido social em que se movem, um tumor de violência encapsulado, sempre a ponto de explodir. No entanto, o futebol é um milagroso purgante de comportamentos perigosos e humores mal resolvidos, um eficaz solvente de forças antissociais que, como a brisa da manhã é convertida em tornado ao entardecer, poderia repentinamente mudar de rumo e tomar a cidade de surpresa e o Estado por um golpe.

A festa do fracasso da Razão. Com o clamor do Não Ao Racismo, a Velha Europa arranca suas máscaras. Sinalizando Tolerância Zero ao Doping, o Antigo Regime protesta contra tudo que se move nessa direção. Com a frase platiniesca de que “As manipulações constituem o problema mais grave do futebol”, o Comitê dos Comitês instaura uma comissão de ética desportiva com os 42 times da primeira e segunda divisões espanholas, para analisar o caso do goleiro belga que arruinou sua carreira por manipular uma partida. Denúncias aqui, comissões de investigação ali; suspensões vitalícias aqui, braceletes ilustrativos acolá; vídeos pedagógicos de estrelas do futebol no YouTube mais adiante, mensagem do papa Francisco contra a discriminação na cerimônia de abertura do Mundial bem mais adiante. Porém, assim como o discurso do fracasso da prisão, como técnica reformadora dos indivíduos faz parte, segundo Foucault, do funcionamento da prisão em si, o discurso de denúncia contínua e queixas irritadas faz parte do funcionamento do futebol em si. Em ambos os casos, é preciso redigir (já) publicamente uma ata de fracasso; em ambos os casos, o que (já não) surpreende é o aprofundamento das políticas mais repressivas, hipócritas e criminalizadoras.

Lavagem Mundial. Milhares de pessoas projetam seu sentimento de pertencimento nas cores da camisa ou no símbolo do clube real, atlético ou desportivo, no soberano representante do bairro, do povoado ou da cidade em questão. Municípios e Estados decretam leis, delimitam fronteiras e dividem populações para que se alinhem com este ou aquele time de futebol. Encarregados de suportar o peso de um modelo organizacional tão ancestral como um clã, cuja condição positiva é a tensão permanente e a descarga de ódio contra os demais clãs, em mais de um sentido, simpatizantes e clubes traçam o perfil do caminho simbólico, do território imaginário e da concreta realidade da comunidade em que se inserem. (Magnífico exercício sociológico de uma conhecida marca de artigos esportivos, que instalou um anúncio publicitário na Gran Vía de Madri, na ocasião da final da Champions League, que dizia: “A cidade está em jogo. Arrisque tudo”.)

A cada quatro anos, um simples estandarte bairrista é trocado pela bandeira sagrada da Nação – com maiúscula – permitindo que todos os torcedores pela Suécia de 1958, sem que seja preciso ir mais longe que isso, superem seu “complexo de ovelha desgarrada” – como dizia recentemente oex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva – graças à vitória em uma competição esportiva internacional. Assim, os amigos do futebol proclamam o direito inalienável dos povos de reafirmar sua confiança e viver a alegria através do futebol, já que o esporte real seria um modo como qualquer outro de orgulhosa autoafirmação coletiva e uma saudável ferramenta para solucionar as desgraças cotidianas das maiorias silenciosas.

Sem se importar com custos, nem superfaturamentos, o Grande Comitê Organizador do Torneio dos Torneios (FIFA, País Organizador, jornais e agências de propaganda oficiais, todos eles membros executivos do Grande Comitê), promove energicamente este fenômeno de felicidade, esta evidência de prosperidade, esta explosão de confiança e segurança popular. Porque a celebração de um Mundial de Futebol pressupõe uma macro-operação estética de lavagem ideológica e bastante real, que converte os petro e narcodólares em dólares, o país emergente em potência emergida, a ditadura em branda ditadura. Passa-se a borracha em tudo, segredo bancário, apropriação indevida de sua modalidade de distração: sim, como sugeriu Theodor Adorno, “depois de Auschwitz, é impossível escrever poesia”; depois do Mundial que consolidou e deu asas à ditadura de Videla, Massera e seus seguidores na Argentina em 1978, não deveria mais ser possível organizar mundiais.

 

Leia a matéria sobre a exposição “…BAIXA A BOLA” aqui. 

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