Queermuseu, vinda, veto e volta

Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva", obra de Fernando Baril

“Queermuseu”, a exposição mais polêmica dos últimos anos, estava prevista para vir a cidade do Rio de Janeiro, no Museu de Arte do Rio (MAR), provocando reações entusiásticas e negativas ao mesmo tempo.

Em poucos dias, uma reviravolta.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), prometeu no último domingo que não iria permitir a chegada da exposição à cidade, e cumpriu. O Museu de Arte do Rio (MAR), que procurava um acordo com o curador da mostra, censurada em Porto Alegre após uma onda de ataques conservadores, encerrou as negociações para trazer a exposição aos cariocas.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, questiona cinco pessoas se querem uma “exposição de pedofilia e zoofilia”. Todas, obviamente, respondem negativamente. Em tom de deboche, Crivella disse: “Saiu no jornal que vai ser no MAR. Só se for no fundo do mar”. Após o anúncio, segundo o jornal O Globo, o prefeito encomendou à secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, que estudasse como impedir a exposição. “A população do Rio de Janeiro não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia”, disse Crivella em declarações recolhidas pelo jornal. Questionado como a Prefeitura teria poder de vetar a mostra, ele respondeu: “O povo do Rio de Janeiro tem”.

“Diante do exposto, lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de “Queermuseu”, disse uma nota publicada pelo museu.

Ainda segundo o jornal O Globo, um dia depois do MAR desistir de montar a exposição “Queermuseu”, posição definida na reunião do Conselho Municipal do Museu de Arte do Rio (Conmar) após a oposição do prefeito, a mostra interrompida no Santander Cultural, em Porto Alegre, pode ter nova chance de vir para o Rio. Um movimento de artistas articula o financiamento da remontagem da coletiva em um dos equipamentos culturais cariocas — Fabio Szwarcwald, diretor-presidente do Parque Lage, manifestou interesse em receber a mostra na Escola de Artes Visuais, posição reforçada ontem pelo secretário estadual de Cultura, André Lazaroni. Uma reunião foi agendada hoje pela produtora Paula Lavigne, a fim de estudar propostas para arrecadar fundos para trazer a mostra ao Rio e para uma campanha de conscientização contra a difamação de manifestações artísticas e de seus autores.

— Para montar a exposição no Rio precisaríamos de algo em torno de R$ 300 mil, é uma quantia possível com a doação de obras de alguns artistas. É totalmente viável montar a exposição em outro museu ou centro cultural, já que o prefeito proibiu sua realização no MAR. Poderia ser no Parque Lage ou no Galpão Bela Maré, por exemplo — aponta Paula. — As diretrizes que precisamos definir são em relação a uma campanha para informar a população sobre o valor destas obras de arte, que estão sendo criminosamente deturpadas por razões políticas.

Para a produtora, o momento é de reação da classe artística contra um movimento conservador, encabeçado pela classe política.

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