Quando a arte incomoda mais do que aquilo a que ela alude

O filósofo francês Jacques Rancière afirma que não há diferença entre denunciar a potência de uma imagem ou negá-la, pois os dois atos expressam a mesma ansiedade diante de sua potência, assim como o reconhecimento da mesma. Ao tratar também de iconoclastia, a filósofa Marie José-Mondzain compreende que todo poder tem suas imagens e recusa ao contra-poder ter sua visibilidade e, portanto, interrompe a busca icônica do outro. Tendo em vista isso, compreendemos que se recusa a imagem do outro por saber o poder que ela possui. Foi o que vimos com a iconoclastia bizantina, quando imperador, consciente do poder das imagens, manteve para si sua exclusividade, privando a igreja de seu uso. Vimos o mesmo no Egito Antigo, quando o faraó Tutmés III ordenou que destruíssem as estátuas de sua antecessora Hatchepsut, como maneira de legitimar seu poder. E num passado menos distante, após os ataques de 11 de setembro de 2001, quando o presidente norte-americano anunciou um jejum das imagens: cenas de mortes, combates e violência foram censuradas, pois o atentado haveria sido prefigurado – ou mesmo inspirado – nos ecrãs hollywoodianos. Dessa maneira, a imagem, tratada como sujeito, é acusada de abusar da própria potência.

Quando o poder recusa ao contra-poder ter sua visibilidade, mantém-se o status quo, eliminando a possibilidade do dissenso, que é comum tanto à política quanto à arte no período que Rancière chama de “regime estético” – que advém com a modernidade. O que a política e a arte têm em comum é justamente o fato de ambas trabalharem no regime da visibilidade e provocarem o dissenso. A política confere visibilidade a certos grupos e a visibilidade é algo comum ao campo da estética. Quando questionamos quem pode falar e para quem se fala, poderíamos também questionar quem pode criar imagens e para quem elas se dirigem.

Quando o governador do Rio de Janeiro ordena o fechamento da exposição Literatura Exposta, na Casa França-Brasil, de maneira a impedir a realização de uma performance do coletivo És Uma Maluca – A voz do ralo é a voz de Deus – que faz alusão à tortura de mulheres durante a ditadura militar, o mesmo confirma a força que aquele ato performático possui. Nega-se a possibilidade dessa performance ocupar um lugar de visibilidade – uma instituição artística – de maneira a tentar impossibilitar uma forma de dissenso.

Em sua página do Facebook, a ativista Margareth Bravo manifestou-se sobre o caso compartilhando a frase “É proibido trabalho artístico sobre a tortura, mas não é proibido promover a tortura”. Bravo se refere a representantes políticos que manifestaram publicamente, em rede nacional, seu apoio a torturadores, mas em nenhum momento foram censurados ou punidos. Então por que a arte incomoda mais do que aquilo a que ela alude?

Vemos isso acontecer a todo momento. Por exemplo, quando Guga Ferraz colou em ruas do Rio de Janeiro seu autorretrato dormindo no chão, como um mendigo, as imagens causaram incômodo e foram rasgadas, embora os locais onde as imagens foram instaladas possuam grande concentração de pessoas em situação de rua. Mas ao afirmar a existência de pessoas marginalizadas e invisibilizadas, é preferível rasgar a imagem a assumir que ela condiz com a realidade.

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Guga Ferraz, Dormindo, 2007

A imagem é entendida pelo historiador da arte alemão Hans Belting como a presença de uma ausência – aquilo que torna uma ausência visível, ao transformá-la em uma nova forma de presença. A arte, trabalhando nesse regime da visibilidade, é negada e interditada uma vez que não se pode aniquilar aquilo que ela representa. É mais fácil rasgar uma imagem ou impedir a realização de uma performance do que tratar dos problemas reais aos quais ela alude, como também é uma maneira de eliminar o dissenso e manter o status quo.

A negação, que denuncia a potência da arte enquanto a censura, acaba por fazer com que a atenção se volte para aquilo. Basta lembrar das intervenções de Christo e Jeanne-Claude, quando “embalaram” prédios públicos ou ilhas que sofriam com poluição. Com essa estratégia de ocultamento, a dupla chama atenção para aspectos da paisagem que passam despercebidos, ou seja, o ocultamento é utilizado para revelar, pois na medida em que aqueles elementos da paisagem são “embrulhados”, nos damos conta de sua presença.

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Christo & Jeanne-Claude, Reichtag Embrulhado, Berlim, 1971-95

 

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Christo & Jeanne-Claude, Surrounded Islands, Miami, 1980-83

Afetados pela mesma lógica, o coletivo És Uma Maluca realizou sua performance na rua, em frente à Casa França-Brasil, como ato de resistência. A interdição, em vez de silenciar a manifestação artística, amplificou sua potência, chamou atenção para ela, uma vez que um grande público se formou na rua onde seria realizada a ação proibida – provavelmente em quantidade muito maior do que a que estaria presente na instituição, caso não sofresse interdição do governador – e ao mesmo tempo eram feitas transmissões ao vivo via smartphone e compartilhadas em mídias sociais inúmeras imagens produzidas pelo público presente.

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És Uma Maluca, A voz do ralo é a voz de Deus, 2019

A arte incomoda e é interditada por ser reconhecido seu papel na partilha do sensível, da qual nos fala Rancière, produzindo “maneiras de fazer que intervêm na distribuição geral das maneiras de fazer e nas suas relações com maneiras de ser e formas de visibilidade”.  Em outras palavras, arte contribui com o dissenso, com a quebra do status quo. Ela questiona certezas partilhadas por uma comunidade cujo corpo social é fragmentado e, justamente por reconhecer essa fissura, a arte, como a política, torna visível o que não é, o que está à margem, o que fica de fora de um espaço previamente definido como “comum”. O dissenso se dá quando ações de sujeitos que não eram dadas como interlocuções passam a aparecer e ser percebidas. Atuando contra estratégias homogeneizadoras e consensuais, que tentam destituir conflitos inerentes à cidade e à vida cotidiana – criando imagens de espaços apolíticos – a arte opõe um mundo comum a um outro, explicitando esses dissensos que incomodam a quem quer manter o status quo. A arte pode atuar numa “guerrilha do sensível”, como propõe Paola Berenstein Jacques, como forma de resistência e coexistência de diferenças, como mantedora ou criadora de tensões, enquanto os dispositivos de poder tentam estabelecer consensos silenciando outras narrativas e formas de existência.

Publicado originalmente no blog Nuvem – Arte e Crítica.

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