Picasso, Carl Einstein e Negerplastik, 100 anos depois no Brasil

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No campo da arte, ainda hoje, a noção de forma levanta discussões passionais tanto entre defensores como detratores. Sobretudo, se consideramos o cubismo como instância na qual desaparece o conceito tradicional de objeto de arte para dar lugar ao conceito de forma. Suas principais noções plásticas decorreram, por um lado, da busca de um valor construtivo ou estrutural e, por outro, de uma relação das elementos plásticos entre si em prol de um conjunto unificado. Foi esse ordenamento livre, realizado com valores plásticos e sustentado pela visão, que liberou a visão da subordinação ao objeto e afastou o cubismo da imitação e da aparência, abrindo a possibilidade de criação autônoma. Cubismo que foi o ponto de partida e a justificativa da análise de Carl Einstein (1) em Negerplastik (2).

Originalmente publicado em 1915, em plena Guerra Mundial, Negerplastik é uma análise da arte da África livre de preconceito e etnocentrismo que discute questões da tradição germânica da história da arte em diálogo com o cubismo e a escultura da África. Com uma compreensão da história como uma reconstrução consciente, a posteriori, que permite a cada presente criar seu passado e uma temporalidade descontínua que desafia fronteiras territoriais e artísticas, o autor compara as soluções da pintura cubista e da escultura africana para o problema da representação do espaço. Além de denunciar a confusão existente entre as categorias de “pictórico” e “escultórico” na arte ocidental, Einstein declara a derrota da escultura européia ao recorrer a meios impressionistas e pictóricos para transmitir emoções psicológicas. Ele critica a dinâmica dos processos psicológicos individuais, a análise das obras segundo o seu efeito dramático sobre o observador, opõe forma realista a realismo da forma, diferencia ainda massa de volume e distância de profundidade.
Ainda que hoje pareça clara a relação de parentesco entre cubismo e escultura negra, gostaríamos de destacar a relevância das máscaras africanas. Às vezes com clara referência ao rosto humano, elas se caracterizam por ser constituídas por partes rígidas montadas e retrabalhadas até se transformarem numa montagem de formas geométricas e complementadas por colmilhos, chifres, miçangas etc. Do ponto de vista plástico, uma superfície plana se anexa a outra superfície plana horizontal ou ligeiramente curvada que funciona como testa; cilindros e outros volumes pintados representam os olhos, o nariz e a boca; alguns elementos como a ráfia representam o cabelo. Como resultado, essas máscaras respeitam a forma fechada, mas não a forma “real”, evocam sem depender das particularidades de nenhuma das partes. Além da dimensão plástica, na qual constatamos elementos plásticos, grafismos e cores, também existe uma visada simbólica. Nela, mitos e ritos se entrelaçam com motivos decorativos e objetos, condensando características estéticas, técnicas de fabricação, uso ao qual estavam destinadas e resultados esperados, assim como os mitos da sua origem, de sua aparência e condições de uso. Dito de outro modo, nas máscaras coexistem um pensamento plástico e um pensamento intelectual que se dirige a uma compreensão total do universo; uma apreensão do mundo que articula linguagem com pensamento mítico.

Os pintores cubistas tiraram delas uma lição fundamental: a alternância entre elementos côncavos e convexos, recurso que reformularam como revezamento entre planos transparentes e opacos, gerando a representação de um elemento pelo seu contrário. Perceberam a combinação e transformação de signos e de grupos de signos na escultura africana e captaram que a figuração dos objetos mediante signos produziam diversos sentidos. Tais signos constituem uma linguagem que não denota apenas objetos, mas também concepções que surgem da atividade mental autônoma; a interpenetração entre linguagem e mito resulta numa concentração que descarta referências e significados e se dirige à presença e eficácia. Com este horizonte, mais do que simplesmente uma pintura resultante da influência da arte negra, o cubismo seria uma revolução estética deflagrada pela aparição de objetos de um tipo de cultura não fundada na questão literária ou na relação tradicional entre texto e imagem mas na mitologia, em especial a religiosa, e na relação entre mito, matéria e imagem, por artistas que assimilaram o modo de estruturação plástica das esculturas africanas.

Negerplastik, um pequeno grande livro, condensa a discussão intensa e acirrada do começo do século XX e admite, ainda hoje, uma leitura a partir de vários aspectos. Publicado no Brasil, em 2011 – cem anos depois de Picasso e Braque incluírem tipografias em seus quadros, transgredindo as fronteiras entre palavra e imagem – , Negerplastik apresenta uma excelente oportunidade para repensar e rediscutir o problema da forma e da imagem, bem como a diferença entre ambas. Além de destacar a relevância da arte e da cultura africanas para o cubismo, o livro coloca em questão o modo simplista como consideramos essas produções materiais e insere a discussão em um contexto maior e mais complexo.
Por último, as duas exposições sobre a obra de Picasso, uma no Brasil (“Picasso e a modernidade espanhola”, CCBB) e outra em Nova York (“Picasso Sculpture”, MoMA), ambas em 2015, além de atualizarem Negerplastik, trazem à luz outras exposições que, na Alemanha, exibiram obras de Picasso junto com esculturas africanas (3); na mesma época, uma exposição com obras de Picasso, Braque e outros artistas europeus teve o catálogo apresentado por Carl Einstein, no qual ele destaca a sinceridade espacial da escultura negra. Máscaras e esculturas africanas deflagraram produções artísticas e um pensamento teórico com os quais seguimos lidando. Negerplastik, o livro de Einstein, lançou o desafio de pensar uma história da arte autônoma, livre de qualquer teleologia, dialética e caracterização geográfica. A obra de Picasso nos mostra como o artista buscou resolver problemas da figuração do volume na pintura através da escultura, e vice-versa; prova disso seriam as telas do cubismo analítico. Seja pela atualização de mitos de uma Europa primitiva, seja pelo modo como o artista veicula funções psíquicas e ópticas, ou ainda, pelo modo persistente em que busca uma figuração espacial alternativa para a simulação do baixo-relevo, Picasso dialoga com o rigor da construção cezanniana, com o realismo despido de conotações psicológicas de Rousseau Le Douanier, com os mestres do Trecento; mas também com a figuração por meio de signos inventados da escultura africana. A arte de Picasso e o texto de Einstein dizem respeito à visão em seu duplo sentido – substantivo e verbo – e constituem um vigoroso contraponto a trabalhos e textos de pronto consumo que acompanham a passividade do regime visual dominante no mundo atual. Há cem anos, duas exposições e um livro colocaram lado a lado cubismo e arte africana. Que as exposições “Picasso e a modernidade espanhola” e “Picasso Sculpture” sejam uma oportunidade para assimilar a atualidade e ousadia de Negerplastik ao interrogar as categorias da história da arte europeia a partir das soluções africanas, questionar seriamente a educação eurocêntrica nas escolas e continuar a luta contra o racismo e o mito da democracia racial no Brasil.

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(1) Intelectual, ativista político, poeta, historiador, crítico de arte, editor e tradutor, representante e intérprete das vanguardas artísticas, literárias e políticas do começo do século XX, Carl Einstein (1885-1940) frequentou os ateliers dos pintores cubistas e manteve uma amizade por mais de 30 anos com Daniel-Henry Kahnweiler. Participou em publicações como Der Demokrat, Die Opale, Die wiessen Blätter, Die Aktion, Das Kunstblatt; foi co-fundador da revista Documents (1929) junto com George Bataille e Michel Leiris, e colaborador de Transition, de Eugene Jolas. Combateu na Primeira Guerra, foi orador no funeral de Rosa Luxemburgo em 1919, se exilou em Paris em 1928 e se juntou à Coluna Durruti em 1936, a fim de defender a liberdade.

(2)EINSTEIN, Carl. Negerplastik (Escultura Negra). Florianópolis: Editora UFSC, 2011. 302 páginas, 111 imagens.

(3) A mostra “Picasso – Negerplastik” teve lugar em Berlim (Neue Galerie, dezembro 1913) e em Dresden (Galerie Emil Richter, janeiro 1914). Ambas contaram com a mediação de Daniel-Henry Kahnweiler, com quem Einstein manteve amizade desde suas primeiras viagens a Paris. A lista das obras nos catálogos sugere que não se trataria da mesma exposição, embora a de Dresden inclua as obras expostas em Berlim. A imagem da capa, uma figura Baule da antiga coleção de Brummer, também aparece em Negerplastik (1915). A estatueta na capa do catálogo corresponde às figuras 54, 55 e 56 de Negerplastik (1915), 2011, pp. 169, 171 e 173.

(4) A exposição na Neue Galerie (outubro/novembro 1913), incluía trabalhos da fase pré-cubista de Picasso, obras de Braque e outros artistas europeus.

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Elena O’Neill graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Facultad de Arquitetura, Universidad de la República (Uruguai, 1998), concluiu o mestrado em História da Arte no PPGArtes/Uerj (2008) e o doutorado em História Social da Cultura, na linha História da Arte, na PUC-Rio, com a tese “Carl Einstein: por uma outra leitura da forma” (2013). Co-organizadora do seminário Bataille, Einstein, Leiris e a revista Documents, realizado na Fundação Casa Rui Barbosa (Rio de Janeiro, 2013). Atualmente em pós-doutorado no Instituto de Artes da Uerj.

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