Pequenas anotações na Encruzilhada

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A encruzilhada / O hiato / A observação

Embora tenha sido publicado na mídia que a Escola de Artes Visuais do Parque Lage não tinha anteriormente um projeto curatorial real, creio que é importante endossar que, provavelmente por alguma falha na comunicação entre os eixos (espera-se), isto é uma absoluta inverdade. Na revista Arte! Brasileiros de março e abril, é dito que anteriormente, era possível fazer uma exposição no espaço com R$ 200 mil reais sem critério algum.

Confesso que quando li tal afirmativa, me senti profundamente ofendido. Além de fazer parte da escola por mais de sete anos, também integrei a Comissão de seleção de projetos anterior que contou com a participação de diversos nomes como por exemplo Guilherme Bueno e Luisa Duarte. Ou seja, exposições anteriores como as de Carlos Vergara, João Modé, Brígida Baltar foram selecionadas por uma equipe de curadores e à partir disto, desenvolveram seus projetos. Sendo assim, tal matéria não só desconsidera os profissionais da Comissão, como também os próprios artistas, provocando um total misunderstanding absolutamente sem desculpas que tento esclarecer aqui.

De qualquer forma, nesta nova gestão, que certamente também tem muitas qualidades, foi implantado o Programa Curador Visitante. Esta exposição de Bernardo Mosqueira é parte deste projeto que tem por objetivo tentar estreitar as relações entre os curadores e os alunos, além de realizar encontros prévios que discutirão os próprios trabalhos e outras questões pertinentes.

A Encruzilhada de Bernardo Mosqueira é enorme, da mesma forma que a quantidade de artistas convidados. A relação entre os eixos parece bastante lúcida: 70 artistas, 8 estudantes que por alguma razão estão marcados no folder da exposição por um triângulo para que possamos identifica-los. A pergunta que surge é: Para que? Qual seria o real interesse de que pudéssemos identificar os nomes de estudantes que foram selecionados para participar da exposição que reúne outros tantos nomes como Waltércio Caldas e Cildo Meireles? Em uma outra instância de subsolo talvez fosse interessante pensar em que medida tais alunos (marcados – vide Zaratustra) não carregam algo de simbólico que é interessante para exposição enquanto tal. Un-artistas?

À despeito disso, o mesmo folder da exposição traz um diálogo entre Lisette Lagnado (Diretora da EAV) e Bernardo Mosqueira, onde as influências da curadoria são citadas: Spinoza, Nietzsche, Marcuse, Negri e etc… Só estes já comporiam um Bienal. De qualquer forma, os nomes que surgem de maneira impressionista não são revelados como prática curatorial em momento algum na continuação da entrevista, na própria exposição e nem mesmo no texto de parede que é de maneira, muito resumida, uma Carta à Exú; que talvez, realmente tenha enorme interesse por arte contemporânea e eventualmente tenha optado por abandonar a quantidade infinita de botequins da Rua Jardim Botânico para ler a tal carta em sua dedicatória. De qualquer forma, fica a pergunta onde estão os outros teóricos citados ou melhor, por qual razão citá-los? Da mesma forma que os alunos com os triângulos, talvez fosse interessante pensar em que medida tais nomes (#moranafilosofia) não carregam algo de simbólico que é interessante para exposição enquanto tal.

“ Mas não me bate Doutor
Porque eu sou de batalha
Eu acho que o senhor tá cometendo uma falha
Se dançamos funk é porque somos funkeiros
Da favela carioca”
Cidinho e Doca

O gozo cura a dor

Sabemos que todo o vício de busca por um outro cultural ao longo da História da Arte esteve baseado numa necessidade absoluta de perseguição de algo que fraturasse a inércia e a morosidade da construção poética quando suportada pelo sistema e por suas formas de concepção e recepção. A negritude, o candomblé, o samba e o funk, além de auxiliarem na utópica busca de construção de uma identidade, também traduzem um gozo que ocorreria a partir da sua vivacidade e demolição de fronteiras. Obviamente, não é lúcido discutir a legitimidade de sua experiência enquanto cultura, mas fica aqui a pergunta em suspenso sobre a sua forma de utilização em alguns casos.

Gabriel Menotti, em um belo artigo sobre a curadoria ao longo da história, discute o que Sir Nicholas Serota, diretor da Tate Galery defende como sendo o dilema dos museus de arte moderna: o binômio interpretação e experiência. A interpretação teria como objetivo dissecar a obra exposta, tentando evidenciar linhas de força que a atravessam, além de localizá-la dentro de um narrativa história, técnica ou sociopolítica. A experiência por outro lado, seria um processo de exposição que buscaria a eliminação de toda e qualquer interferência. O papel da curadoria neste caso, seria de promover um espaço neutro e livre de distrações. Se a primeira abordagem estaria presente nos processos curatoriais desde meados do século XIX, a segunda emergiria com a ideia de modernismo, por volta da década de 1930.

Haveria ainda, uma terceira via, uma terceira margem, que talvez pudesse estar mais presente em pequenos espaços culturais, onde a pressão institucional seria menor. Este novo paradigma, seria o da contaminação, onde seriam promovidos diferentes modos e níveis de interpretação por meio de uma sutil justaposição de experiências.
Embora o texto neste momento faça referência à prática curatorial dentro dos museus de arte moderna, parece que esta prática de contaminação é algo consideravelmente desejado em alguns exemplo de exposição recentes. Desde à paradigmática Magiciens de la terre, passando por algumas Bienais (Bienal do Vazio – 2008) e exposições coletivas, a ideia de produção de uma névoa de significado que enlace o conjunto de trabalhos e desemboque em uma encruzilhada política que surgiria a partir do enfrentamento dos trabalhos distintos, é algo que pode gerar questões inusitadas a partir do diálogo, da vizinhança e do descompasso poético. Certamente, o risco é o de sempre: que o resultado não consiga ser justo o suficiente para propor ao espectador a responsabilidade de construir suas associações, recaindo então em um didatismo às avessas, como se tentasse a todo custo comprovar uma hipótese levantada pelo curador.

Este é o caso desta Encruzilhada. A questão do Exú se torna determinante e muitos trabalhos parecem ilustrar (de maneira torpe) o desejo do curador. Se a encruzilhada é o espaço onde as energias se concentram e se dissipam para correr pelos quatro cantos do mundo em busca das oportunidades ou do traidor que merece uma lição, não é possível compreendê-la como um encontro estrito de compassos que se fundamentariam apenas pela justificativa candomblecista, pelo grafismo anedótico da cruz (ato falho interessantíssimo), ou pelas pressupostas brisas libertárias que viriam de um outro lugar.

*Este texto faz parte de um texto maior, que você encontra na íntegra neste link: Texto na Íntegra

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