O melhor e o pior da ArtRio 2016

Mais uma vez, a ArtRio abriu as portas para colecionadores e amantes da arte no Pier Mauá. Este ano, o caminho para a feira ganhou um enorme upgrade: a região está recebendo fortes investimentos da prefeitura e deve se tornar um novo ponto turístico da cidade. A obra foi apressada para abrir o Boulevard Olímpico a tempo dos jogos e inclui uma agradável promenada para pedestres ao longo dos armazéns, que trouxe segurança e um clima de passeio para a região. Com isto, a feira passou a ser atendida pelo novo VLT, um simpático trem passando pelo centro até o aeroporto Santos Dumont, com conexão para o Metrô. Se colecionadores reclamavam da dificuldade de ir de carro à feira, agora não podem mais culpar a direção da feira: não é mais possível ir de carro, a não ser que você estacione em um dos estacionamentos da região e complete o trajeto a pé. Ao menos a caminhada agora é agradável e segura.

ABERTURA

A abertura na 4a feira foi agitada. Às 11h, quando os portões abriram para os supervips, algumas galerias ainda faziam os últimos ajustes na montagem. Em função das Paralimpíadas, parte dos armazéns só foi entregue para instalação 4 dias antes da abertura, gerando uma enorme correria e certa insatisfação por parte de alguns expositores, que reclamaram por mais agilidade e melhor atendimento às suas demandas.

Mas nada disto se percebia pelos visitantes. O que se via era uma exposição linda, com grandes obras de arte em um ambiente agradável. Entre os famosos presentes, Zélia Duncan (sempre presente nas melhores exposições), Regina Casé e Cissa Guimarães. Antônio Calloni, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Malvino Salvador, Flávia Alessandra, Otaviano Costa e Fernanda Lima passaram pela feira nos dias seguintes.

DESTAQUES

No pavilhão da arte moderna, como sempre o estande da Pinakotheke chamou atenção, com sua costumeira oferta de obras raras em uma montagem de impecável bom gosto. “Temos algumas boas promessas” comentou otimista Max Perlingeiro, sobre algumas reservas de obras em seu estande. A galeria O Colecionador – que tinha como hostess oficial uma linda tela de Jean Michel Basquiat – não ficou atrás e montou outro pequeno museu, já na Simões de Assis Galeria, Palatnik e Gonçalo Ivo foram os artistas que mais despertaram interesse dos visitantes. A Galeria Estação, a mais importante entre as de arte popular, finalmente participou da feira. Giselle Gumiero comentou a venda de duas xilogravuras do artista Santídio Pereira, artista de apenas 19 anos que teve sua primeira individual na galeria em 2016. Também foram vendidas duas obras do artista popular Lorenzato com temas de praias, raros de se encontrar nas pinturas do artista. Ao contrário do que costuma acontecer, este ano as vendas foram mais lentas nos estandes de arte moderna, onde as obras tem maior valor.

Entre os contemporâneos, o movimento nos estandes era intenso. A Gentil Carioca causou surpresa e alguma molhaceira com um chuveiro para banho de descarrego de Opavivará e na Galeria Nara Roesler uma gigante e brilhante forma em aço inox – a “cabeça” de Not Vital – chamou atenção. Entre os destaques estavam as obras do minimalista Roland Gebhardt, companheiro de Donald Judd e Frank Stella que passa por um revival no mercado, no Gabinete de Arte K2O. Karla Osório que dirige o Gabinete comentou “O saldo da feira foi maravilhoso e muito positivo pra gente” já fechando o espaço expositivo com sorriso estampado no rosto no domingo, último dia do evento. Na Zipper Galeria, colecionadores se aglomeravam ao redor de um retrato infantil de Adriana Duque e da árvore de corda de Janaína Mello Landim, artistas que já causaram frisson na SP-Arte este ano. Na SIM Galeria, obras de Juan Parada (que está em residência na China) e Rodrigo Andrade foram vendidas para coleções importantes.

Quem riu a toa mesmo foram as galerias jovens do último pavilhão. Orlando Lemos, da Galeria Orlando Lemos já no segundo dia corria para repor o estande vazio. O galerista apostou nos trabalhos do artista Evandro Soares que trabalha uma técnica mista de desenho em nanquim com arame galvanizado. Na Galeria Movimento, só no primeiro dia foram vendidas 5 telas do grafiteiro TOZ e reservada um total de 10 obras. Esta é a primeira vez que a galeria participa da feira.

A GRANDE POLÊMICA: FALSIFICAÇÕES

Como todas as grande polêmicas, a deste ano começou com murmúrios. Já nas primeiras horas da feira, um conhecido e circulado galerista carioca comentou que havia uma galeria cheia de obras falsas, sem querer nomear qual. Perguntando a outras figurinhas carimbadas do mercado, a história foi tomando corpo: a Graphos, conhecida galeria carioca que já representou Vik Muniz e outras estrelas, teria obras falsas no estande. No final do primeiro dia, expositores se uniram e apresentaram uma reclamação formal à feira.

O alarme foi dado por uma tela de Raymundo Colares, artista da Nova Figuração que foi capa da Dasartes. As cores vibrantes da pintura, que deveria ter 5 décadas de desbotamento, chamou atenção. Um galerista chegou a comentar que estava com cheiro de tinta. O boato abriu a porta para que outras obras do estande fossem minuciosamente escrutinadas pelos marchands e mais vereditos desfavoráveis começaram a correr a feira. No segundo dia, algumas obras já tinham sido retiradas. Como não haviam sido vendidas, o caso fica por isto mesmo, mas já se antecipa uma corrida dos clientes da galeria a avaliadores para testar a autenticidade de obras lá compradas nos últimos tempos.

BALANÇO E MAIS UM DESAFIO

Em geral, expositores se mostraram satisfeitos com as vendas, acima das expectativas para o momento. Esta foi uma edição de “vai ou racha” para a ArtRio: apesar de ter conquistado seu lugar cativo entre o grande público, expositores vinham exigindo uma maior presença de colecionadores e museus, e em meio a uma crise financeira sem precedentes, a direção da feira teve que correr atrás. Se por mérito da feira ou por melhora das circunstâncias não se sabe, mas as vendas e promessas deixaram a maior parte dos galerias satisfeitos e mais dispostos a voltar no ano que vem. Os negócios penderam mais para o lado de obras de melhor valor, com muitas vendas entre galerias jovens e menos movimento em arte moderna.

Agora o desafio é outro: dentro dos planos da Prefeitura para fortalecer a região portuária como circuito turístico – ao estilo do ocorrido com o Porto Madero de Bueno Aires – está a criação de restaurantes e lojas nos Armazéns. Alguns sussurros ouvidos pela feira diziam que este seria o último ano da ArtRio no Pier Mauá. É sabido que o Rio de Janeiro carece de grandes centros de eventos e muito se especulou sobre qual espaço a feira ocupará em 2017. Aqui pausamos para lamentar a falência de Eike Batista e seus planos para um centro de convenções na Marina da Glória: com todas as ressalvas a suas maracutaias financeiras e megalomania, Eike era um amante do Rio e suas ideias adicionaram muito à cidade. É pena que esta tenha sido abandonada em favor de mais um centrinho comercial.

Para o público, a feira menor foi um ponto positivo: mais fácil e agradável de circular, mas ainda com dificuldade para comer e beber. A saída de galerias como White Cube e Gagosian deixou em falta a presença de artistas celebridades, mas não faltaram obras de arte marcantes para todos os gostos.

Em geral, há melhoras a serem feitas, mas a ArtRio completou a prova do desafio 2016 e conseguiu trazer boas vendas e mais uma bela e animada feira, deixando público e expositores satisfeitos. Torcemos pela ArtRio 2017! Estaremos lá.

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