O esplendor e a miséria da prostituição sob o olhar artístico moderno

© Musée d'Orsay / Reprodução

Da Olympia de Manet ao Bebedor de Absinto de Degas, com aventuras de Toulouse-Lautrec e Munch em bordéis, passando até mesmo por Picasso, Splendeurs et misères (Esplendores e misérias) é a primeira grande mostra de arte cujo tema é a prostituição.

A exposição ocupa o Musée d’Orsay, na França, até janeiro de 2016 e explora a fascinação de artistas franceses e estrangeiros sobre as pessoas e lugares relacionados à prostituição e o lugar ocupado por esse tema no desenvolvimento da arte moderna, bem como o uso de recursos pictóricos para expressar realidades e fantasias implícitas.

A mostra tem seu foco no período entre 1850 e 1910 e mostra um outro lado da Belle Époque de Paris, fugindo dos estereótipos do Impressionismo. Com pinturas, fotografias, esculturas e outros materiais, a exposição é dividida em 5 partes: Ambiguidade, Bordéis, A prostituição na ordem moral e social, A aristocracia do vício e Prostituição e modernidade.

O tema abordado pela exposição não deixou de gerar polêmicas na França. O crítico de arte Harry Bellet, do jornal Le Monde, disse que “o Musée d’Orsay está se tornando um cinema na década de 1970. Eles costumavam passar difíceis filmes em uma semana e pornografia na outra para maquiar suas perdas”.

Já no site Independent, o crítico Philippe Dagen escreveu: “Todo mundo sabe que os orçamentos culturais têm diminuído constantemente, mas é realmente necessário mostrar mulheres nuas em poses lascivas e homens nus expondo seus órgãos genitais?”.

Diferente do que pensam críticas mais conservadoras, a mostra está longe de ser apenas um mero meio de entretenimento. Além do caráter artístico, há uma abordagem histórica e social de um fenômeno que foi muito relevante nessa transição entre séculos.

Com a troca da vida no campo pela cidade, a população em Paris quase dobrou entre 1850 e 1870, causando mudanças na estrutura social e nos códigos de comportamento. A prostituição, que já era legal, se popularizou e se democratizou. As prostitutas se fundiam com a multidão das ruas de modo que ser tornaram indistinguíveis. Roupas, gestos e o fato de andar sozinha não eram o suficiente para dizer se uma mulher era ou não prostituta. Esses fatores fizeram com que a prostituição estivesse ligada à ideia de modernidade, excitando ainda mais os artistas. O aspecto sexual é inegável, mas não eram suas únicas motivações. A ambiguidade e as identidades fluidas os fascinaram e contribuíram para a subjetividade e para o ar de mistério em seus quadros.

Alguns artistas retratavam o esplendor da prostituição de luxo, outros a miséria de mulheres que viam esse como o único meio de sobrevivência. Mas é praticamente impossível pensar na obra de Toulouse-Lautrec sem que venha à mente retratos de prostitutas, ou imaginar Picasso sem Les demoiselles d’Avignon. Fosse por motivações políticas, fantasias pessoais ou mera curiosidade, o tema foi capturado por praticamente todos os grandes artistas daquela época. Uma mostra com essas proporções é uma maneira de buscar compreender um fenômeno relevante para a história e para o desenvolvimento da arte moderna.

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