Meio século de arrebatamento e prazer

Está na hora de clamar em alto e bom som – agora que a inauguração da exposição celebra meio século –, o valor da carioquíssima Opinião 65 no Museu de Arte Moderna do Rio. Se em 22 o Brasil rompia seus grilhões com a Europa (ou ensaiava isto com telas de Tarsila, florações de Mário de Andrade e poética de Manuel Bandeira), em 65, o Brasil rompia consigo mesmo e entrava na via mundial dos proclamas pelas liberdades – as de Martin Luther King, as dos Beatles , as de Woodstock. Liberdade de corpo e espírito, de movimento e ritmo, de fusão das artes e da vida como já se ensaiava na música de Zé Ketti em “Opinião” – show que emprestou o título à mostra — em que a voz frágil de Nara Leão cantava: Podem meu bater/ Podem me prender/ Podem até deixar-me sem comer/ Que eu não mudo de opinião.”

Opinião 65 tornou conhecidos Antonio Dias, Vergara, Gerchman e Roberto Magalhães. Pois é exatamente com Roberto que a Galeria Marcia Barrozo do Amaral homenageia , na ARTRio, o espírito de liberdade de Opinião 65 apresentando uma obra-instalação original: “SEM PÉ NEM CABEÇA”.

SEM PÉ NEM CABEÇA é um conjunto de trabalhos artísticos que vem num estojo de acrílico de 70 x 50 cm com 8 cm de profundidade. Cada estojo contém um original de Roberto Magalhães em guache, grafite, ecoline ou aquarela compreendendo 50 anos de carreira: são 50 originais escolhidos numa seleção rigorosa de importância histórica e qualidade.

Há duas gavetas no estojo, uma delas contém um livro com a reprodução de todos os originais em grande formato, em papel de algodão de 300 gramas: um trabalho rigorosamente artesanal. A outra gaveta contém um rolo místico com a escrita enigmática de Roberto, também já pronto para ir à parede.

Como cada estojo tem combinações de cores inteiramente diferente dos demais, a Galeria decidiu apresentar uma instalação “modrianesca” na ARTRio com o conjunto estes 50 originais.

A realização é de UQ Editions, com design de Lucia Bertazzo.

Como escreve Leonel Kaz no livro: “Roberto Magalhães talvez seja o mais latino de nossos artistas brasileiros, incorporando símbolos, dissolvidos no tempo, de nossa ancestralidade ibérica. Seus desenhos se encontram em tempo-nenhum, apenas fios, traçados, lianas, cipós, um emaranhado de traços e pigmentos de cor que se originam na cabeça do artista. É bem ali, em seu imaginário aparentemente sem sentido e em sua memoria afetiva, que habita toda esta coletividade de monstros, seres ou coisas.”

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