Exposição individual de Gabriela Maciel na galeria INOX e no espaço TAL

Está tudo em ordem.

Você entra no chamado “cubo” branco da galeria. Todos os objetos são brancos, quase assépticos. Aparentemente, são utensílios do cotidiano, mesa, garrafa, copo, travesseiros, lençóis, uma luminária quebrada, possivelmente um vaso e outros não tão facilmente nomeáveis. Entretanto, estão cobertos por tecidos – ou são os próprios – na cor branca. Um tanto fantasmagórico. Parece que as peças estão sendo protegidas, quem sabe por causa de uma mudança ou de uma obra. Mas o local não está em obras e tampouco trata-se de uma casa, é uma galeria de arte. Alguma coisa está fora da ordem.

É preciso revelar: não há nada por baixo dos panos. O que você vê é o que há. Os tecidos foram plasmados pelos objetos que recobriam, que lhes deram formas e que, posteriormente, foram retirados. Não há coisa alguma encoberta. Todos os tecidos, incluindo os pregados na parede com metal (sem pigmento), estão cobertos com tinta branca, como lonas pintadas. Então, talvez os trabalhos ali não sejam esculturas, mas, sim, pinturas. É tela pintada, branco sobre branco, que cobre os objetos fantasmas. Exceto pelo lençol e pelo edredão, que são o que são, mas que também serviram de suporte para a tinta branca. Todas essas obras, que são esculturas, são pinturas, são o que vemos, pois não há coisa alguma escondida para se ver além. Os travesseiros, de aparência tão natural, são fronhas vazias, cujos botões do capitonê são parafusos e porcas, porém, ali, o metal não está à mostra, por estar coberto pela tinta branca. Em algumas das pinturas, há um craquelê, indicando a passagem do tempo, levando-nos a indagar desde quanto tudo aquilo está nessa situação. Alguma coisa está fora da ordem.

Uma remodelação está em curso. É uma fase nova na trajetória de Gabriela Maciel. Mas não podemos ser o que não somos, por mais que mudemos, conservamos nossa essência. Gabriela sempre trabalhou com tecidos de proteção, fossem materiais ou tessituras virtuais. Redes, capas, casulos, ninhos, armaduras, crostas, envólucros (sejam de tecido ou de plástico), velaturas (digitais ou não). A artista também já pintou tridimensionalmente, com as miçangas e com os tecidos que ela desenha, depois recorta e pendura. As esculturas-pinturas já faziam parte de seu repertório de meios de produção antes das pinturas escultóricas desta exposição. Desde sempre, em sua produção, a artista lida com a questão da transformação, material, virtual, interpessoal. A evolução da obra de um artista é fruto do desenvolvimento individual. Seu amadurecimento e o de sua produção se dão à força, requerem muito esforço. É um processo longo e nada fácil. Não tão simples quanto a metamorfose da lagarta em borboleta, pois este já é programado pela natureza. Mudanças na ordem não costumam ser suaves. Gabriela é como uma guerreira que, além do escudo, usa também a espada. Às vezes, a luta é solitária, como o fazer artístico.

Alguma coisa está fora da ordem. Tentamos entender o mundo e seu funcionamento, compreender de que maneira estamos inseridos nele, como tudo funciona, e há a busca por algum tipo de harmonia, um sentido. Que mundo é esse que adentramos na exposição? Vivemos o que vemos, o que percebemos. O mundo muda o tempo todo, e vamos juntos para não sermos atropelados. E há muitos mundos sutis, invisíveis aos nossos olhos e aos outros sentidos. Há aqueles que o coração não sente, aqueles encobertos e que, uma vez revelados, mostram-se quimeras. O que está encoberto, o que descobrimos a muito custo, e o que vendemos a descoberto.

Por baixo dos tecidos em exposição existe um vazio. O vazio da suspensão da existência, pois, às vezes, é preciso que nos retiremos deixando a cena armada. Uma tela branca que não está em branco. O ambiente ali é extensão do corpo do fazer artístico, do corpo da artista que se apresenta como uma fantasmagoria. Nós andamos, na exposição, pelo espaço da mente de Gabriela Maciel. É a artista quem está ali, suspensa.

A nostalgia do título da exposição, “O meu mundo era mais mundo quando também era o seu”, não se refere a outrem que não à própria Gabriela. É uma saudade que, por vezes, sentimos de uma maneira de ser e de fazer que já não mais nos pertence, mas ainda não deixamos partir. O tempo é um continuum sem fim que atravessamos e nos atravessa. O hoje, amanhã, é ontem. Os trabalhos na galeria são memórias nas telas em branco, que pintamos com nossas histórias. A “pele” branca é tela, é objeto, é fronteira, é visível dando forma ao invisível. Repito, o que você vê é o que há. Contudo, é sempre possível olhar e enxergar algo mais. Podemos perceber que não há disjunção ntre os mundos. O mundo de Gabriela, o mundo da arte, o nosso e esse mundo de um outro são um só.

Está tudo em ordem.

André Sheik, maio de 2014.

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