Entrevista: Maxwell Alexandre

Sem título (policiais), 2017

Na Dasartes 74, para a sessão Garimpo, apresentamos a obra do artista Maxwell Alexandre. Com um trabalho eminente social e crítico, o jovem artista nos conta suas primeiras experiências com pinturas em tela e sobre a importância delas em sua produção.

Veja aqui a matéria na revista e abaixo a entrevista completa por nossa colaboradora Aline Leal.

1) Você pode escolher um trabalho para ilustrar esta matéria e falar um pouco sobre ele: em que momento ele foi realizado, quais são os materiais que o compõem, como ele se encaixa e se relaciona com o restante de sua produção?

Esses seis trabalhos fazem parte de minhas primeiras telas armadas em chassi. Elas foram comissionadas e os formatos (130 x 200) foram designados por um curador, para uma exposição específica. Ir para a tela tradicional me parecia um movimento banal e que aconteceria naturalmente, mas as demandas do mercado pediam por pinturas em telas, então assumi esse enunciado como uma oportunidade de acelerar essa migração. Mas eu ainda precisava pôr à prova algumas informações que já fazem parte da tradição da pintura. E uma delas era trabalhar sobre a tela crua, como já havia feito em 2016, na série “Laje só existe com gente”. Continuei usando os mesmos materiais rudimentares, como tijolo, graxa, betume, látex e henê. Nitidamente, meus esforços eram sugados pela, nova, lona crua, que era mais rígida. A fluidez encontrada no papel e até mesmo em outros materiais que pintei antes, como metal e madeira, não parecia possível na tela. O aspecto do trabalho era mais denso em virtude dessas escolhas e o resultado final, é claro, não foram os mesmos apresentados no papel.

Dessa forma, as telas não foram selecionadas. Esse fato fez com que esses trabalhos ganhassem uma relevância dentro de minha própria narrativa, pois, para além de ser um marco da transição para tela, são os trabalhos testemunhas desse embate com as primeiras demandas do mercado que vão me lembrar de minhas duas condições enquanto artista, antes um ermitão com enunciados próprios, e agora, também um profissional que precisa saber lidar com os holofotes da audiência das grandes exposições, e principalmente dos agentes do campo da arte: curadores, críticos, galeristas e colecionadores.

Eu não me preparei para começar a pintar, eu apenas comecei e fui ficando pronto. Essa é a postura que mantenho em todas as minhas práticas. Portanto, minha produção é uma manifestação consciente de uma fase. Assim, como em minhas cartografias da série “Afirmações de Terreno”, todo o meu fazer é uma anotação, constante e ininterrupta. São resultados arqueológicos em tempo real de minha vida.

Presente, 2017

2) Quais são suas principais referências em termos de arte e quais são as influências fora do campo da arte que reverberam em seu trabalho?

“A Noiva” – Igreja do Reino da Arte – é minha principal influência quando se trata de artes. Dentre os membros, profetas e apóstolos da Igreja, destaco Raoni Azevedo e Edu de Barros por me afetarem mais, pois nossa relação começou antes da Igreja, ainda quando éramos membros do Gregário – coletivo de arte. Todo o tempo de convivência e de troca fez com que construíssemos uma mente quase única, o que pode ter um saldo negativo, confesso. No entanto, acontece de eu não precisar dizer muito, as coisas são subentendidas entre nós e, quando minha mente cansa, sinto como se ainda tivesse mais duas cabeças decidindo. Esses caras são atentos demais, então acabo enxergando essa relação como atalhos para acelerar, sobretudo ter um aproveitamento maior dos estímulos que chegam e passam. Porque, quando não posso percebê-los, sei que existe a chance de um dos dois terem captados, interpretados, traduzidos e jogados de volta para essa consciência divina que criamos.

Fora do campo artístico tenho vários heróis, e talvez esses sejam mesmo os que mais me inspiram, falo de empolgar mesmo e me emocionar. Busco os indivíduos que são bons para me alimentar, independentemente de seu campo de atuação. Neymar Jr. é um desses, apesar de não assistir a jogos de futebol, sempre que posso vou atrás dos melhores momentos quando me certifico de que ele esteve em campo. A sensação é a mesma, fico desacreditado com o tipo de inteligência que percebo nas partidas, é certeira a dose de inspiração para ir adiante buscando e trabalhando para alcançar níveis de excelência.

Agora, o campo da música tem influenciado diretamente meu trabalho, especificamente do rap nacional. Essa nova geração trouxe vários nomes de uma molecada muito nova que vem fazendo rap com muita qualidade. Djonga de Minas Gerais, Baco Exu do Blues da Bahia e Abebe Bikila aqui do catete no Rio de Janeiro são grandes destaques disso que estou falando. Este último que é mais conhecido como BK, mas também de algumas alcunhas famosas como Bkrack, Bkristo, Bkratos e Ekelelê, começou a trabalhar recentemente comigo em alguns projetos. Ele vem ao meu Templo e eu vou ao estúdio de gravações, estamos tentando mesmo criar uma ponte entre nossos processos para uma alimentação criativa mútua. Várias pinturas de minha série “Pardo é Papel” são traduções dos versos desses caras. A parte mais íntegra e própria disso tudo em meu fazer é a chance que tenho de criar a partir de poetas negros, marginais, que cantam sobre as mesmas coisa que pinto, trabalho e vivo. Trago isso como um enaltecimento dentro de minha pesquisa ao me dar conta de que a produção artística é majoritariamente alimentada por poetas brancos e europeus, como Kafka, Ítalo Calvino, Kant, Nietzsche e por aí vai. A pintura hoje se encontra em um lugar de privilégio, e seus códigos são restritos, então esse diálogo entre rap e pintura é também uma tentativa de fazer esses códigos chegarem com menos estranhamento para cultura de gueto e de margem, e o rap já é isso.

Merenda, 2017

3) Como se dá a relação entre trabalho e performance?

O trato social é performance, estamos atuando o tempo inteiro. Como artista, eu tento ficar atento a essas nuances, isso é o mínimo que posso fazer para tentar destruir, toda vez, esse condicionamento e poder escolher, ainda que dentro de um cardápio limitado. Como vou agir? Que tipo de resultado eu posso antecipar? Qual é a próxima confusão que vou reger? Como um cientista, tento manter minhas dúvidas e caminhar sempre com uma, inquieto e uma vontade de investigar, pôr à prova, testar. Acredito que, quando se tem essa postura, trabalho é vida que é performance.

Infantaria, 2017

4) Quais foram as principais exposições de que você participou? 

Exposição Cínica – 2015

Ainda na academia, eu estava trabalhando no Universo Clandestino, um projeto sobre uma cultura depreciada e sem reconhecimento: o “Patins Street”, modalidade que pratiquei durante dez anos. Como militante dessa cena específica, apropriei-me dos personagens de Keith Haring por ser muito popular, e comecei a criar narrativas sobre a história do assunto. O trabalho era uma paródia, mas na faculdade foi apontado, questionado e entendido por muitos como plágio. Eu gostava dessa tensão e discussão, mas o que me fez seguir adiante foi a ideia de usar uma linguagem universal estabelecida e de fácil assimilação para veicular um conteúdo que ninguém sabia do que se tratava.

A “Exposição Cínica” foi uma intervenção no corredor do 6˚ andar do edifício Cardeal Leme da PUC-Rio. Passei um semestre inteiro tendo aulas no local e pude observar o mural do departamento de Física ocioso. Daí surgiu a ideia de ocupa-lo. Produzi seis pinturas do Universo Clandestino com as medidas exatas dos quadros de anotações que se encontravam vazios. Fiz o cartaz da exposição e espalhei pela faculdade e internet, e, no dia que estava programado, levei os trabalhos para exibir. O evento tinha data marcada para estrear, mas por se tratar de um ato informal, sua duração esteve comprometida, a exposição poderia não existir no dia seguinte. Porém, mesmo sem autorização do departamento ou órgão algum da universidade, a exposição permanece lá até hoje. É claro, alguns trabalhos sumiram.

Carpintaria para todos – 2017

“Carpintaria para todos” foi uma exposição coletiva que a Fortes D’Aloia & Gabriel promoveu em sua casa aqui no Rio, “A Carpintaria”. Eu estava muito distante do circuito, apenas produzindo isolado, sem saber que uma galeria nesse porte havia se instalado há 15 minutos de minha casa. Na mostra, qualquer artista podia participar com qualquer trabalho. Havia poucas regras, a entrada dos trabalhos se dava pela ordem de chegada. Um amigo meu mandou o “flyer” do evento e aproveitou para dizer que essa era minha oportunidade de mostrar o trabalho para o mundo, e que eu deveria levar o maior. Foi quando nasceu a pintura “Tão saudável quanto um carinho”, que mede 320 x 476 cm. Eu resolvi pintar meu maior trabalho. Foram quatro paredes de meu antigo Templo. Uma das observações no enunciado da mostra era que as obras precisavam passar pelo portão, e lá tinha suas medidas descritas. Como eu estava trabalhando com papel, eu sabia que isso não seria uma preocupação, pois eu entraria facilmente com a pintura dobrada debaixo do braço. E foi assim que aconteceu. Cheguei à fila às 6 h da manhã, passei pela porta, mas quando comecei a abrir o trabalho, o enunciado do “flyer” não se sustentou e as medidas da porta entraram em questão. Nesse momento, galeristas e curadores que montavam a exposição começaram uma negociação comigo para ver se o trabalho entraria ou não, já que havia mais de 300 pessoas do lado de fora querendo exibir, também, suas obras. Durante essa negociação, o trabalho estava aberto no chão, então tinha muita gente olhando, filmando e fotografando. Foi o tempo suficiente para o perceberem, e para finalizar a inserção a Mari Stockler, diretora da galeria, que chegou e saiu correndo para subir no andaime e conseguir um bom registro da pintura inteira com vista de cima. Ali eu já não me importava mais se o trabalho estaria na mostra ou não, quando começaram a me chamar pelo nome eu tinha entendido que minha entrada no mercado da arte tinha acontecido. A galeria tirou o texto da entrada e pôs a pintura na frente da mostra… de lá para cá, aqui estou eu falando com vocês.

Sem título (piscina), 2017


5) Quais são seus projetos futuros e para onde você planeja encaminhar sua arte?
 

Eu tenho dois projetos que eu quero muito colocar mais energia, são empreitadas que comecei ano passado, mas exigem muito minha presença, sobretudo minha atenção. O primeiro eu chamo de “Futebol sem Gol”, uma partida/jogo onde o objetivo é chutar a bola na trave ou isolá-la para a linha de fundo do time adversário. O gol deve ser evitado, uma vez que ele não é tido como objetivo prático de pontuação. Nesta partida, não existe pontuação, não existe perdedor e nem campeão. Esse projeto foi iniciado com os moleques que jogam aqui na rua e nas quadras informais da favela, mas a ideia é levar isso para as redes públicas de ensino do meu entorno. O segundo se trata de “Anotações/Afirmações do Território – a Rocinha”, a partir da distribuição de coletores de dados, como canvas ou qualquer outro tipo de suporte que eu encontre pela localidade. Com esses suportes fixados em toda a parte da favela, crio a chance de registrar pela escrita, desenho, colagem ou pintura a atmosfera da favela, além de contar com anotações involuntárias ou espontâneas do tempo, animais, transeuntes ou qualquer agente que estiver no raio desses coletores sensíveis. No final, esses suportes anotados serão amalgamados e expostos como uma Cartografia – Carta Pública – do lugar. A ideia é instalar o trabalho em um muro na Curva do S – parte alta da favela. Esses dois trabalhos mostram exatamente para onde quero que meu fazer se encaminhe, para um lugar de diálogo real com o mundo e que não fiquem apenas circulando nas delimitações do privilégios do campo da arte.

 

6) Para você, o que é arte?

Arte é conduta, comportamento.

Claptomaniaco, 2017

7) Há algo que você queira acrescentar?

Pinturas são orações. Ateliês são templos. Para além disso, gostaria de aproveitar o espaço e fazer um apelo. Jovens artistas, principalmente os que estão baseados no Rio de Janeiro, tomem a cidade para si, saiam de seus ateliês, esqueçam os sonhos das bienais e galerias. Vão ao encontro de outros artistas, visitem outros ateliês, ganhem as praças, ocupem lugares abandonados, posicionem-se. Fiquem atentos paras as questões locais. Provoquem, criem caos, desordem, afronte, investiguem de verdade. O mundo está acabando aqui, e esses momentos finais são os mais potentes para nós enquanto artistas dispostos a inventar, juntar, e, principalmente, se contradizer. Venham à Noiva, A Igreja do Reino da Arte. Fé e Obra.

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