Entrevista exclusiva com o casal Rubell

Em sua primeira visita ao Rio de Janeiro em 30 anos, o casal de colecionadores norte-americanos Don e Mera Rubell agitou o circuito da ArtRio. Sylvia Carolinne, contratada como guia do circuito de arte carioca, se surpreendeu com o alvoroço entre as galerias, que lotaram sua caixa postal de convites. Outra surpresa foi a energia dos dois, ambos na casa dos 70 anos: “Tivemos compromisso de hora em hora, das dez da manhã às dez da noite, e eles nunca se cansam, nunca reclamam, estão sempre sorrindo e animados.”

Don e Mera Rubell são os fundadores da Rubell Family Collection (RFC), um espaço cultural vivo e prestigiado de Miami, com um acervo de mais de 6 mil peças de arte contemporânea. As exposições que começam lá costumam itinerar por vários pontos nos Estados Unidos e no mundo. Aliás, enquanto nos dirigíamos ao restaurante do MAM para almoçar e começar a entrevista, Mera, uma senhora bonita e falante, estava animadíssima com um e-mail que tinha recebido na noite passada: “Eu mal dormi. Vamos à Africa com 30 americanos!”. Fiquei tentando decifrar esta frase críptica, até entender que Thirty Americans é o nome de uma exposição de sua coleção que deve itinerar pelo continente africano.

Dez minutos depois de conhecê-los, quando nos sentamos para almoçar, já estava encantada pela energia positiva e alegria do casal. A conversa fluiu às gargalhadas, com os dois se atropelando para contar versões diferentes para cada história e mostrando uma cumplicidade enternecedora.

Quando compram obras de arte, vocês se guiam por seu gosto pessoal ou pela missão do museu?

Mera: Gosto? Nós não temos gosto! Falar sobre gosto quando se compra arte contemporânea é como colocar algemas em si mesmo. A palavra gosto carrega tantas limitações: culturais, econômicas, pessoais, sexuais… Já basta termos as restrições financeiras e físicas, pois há um limite do que podemos pagar, do que conseguimos ver e do espaço que temos, então queremos estar abertos. Queremos ser como uma criança chegando ao mundo, sem saber que língua ela vai falar, em que ambiente vai crescer. Queremos estar abertos para absorver o novo.

Don: Na arte contemporânea, as coisas mais interessantes são aquelas que você não entende e que acha distante da sua realidade. A arte nos ensina e não tem graça aprender o que você já sabe.

Então, se não é por seu gosto, o que guia suas escolhas?

Mera: Usamos os mais sofisticados e desenvolvidos computadores – nós mesmos. Somos as máquinas mais completas, viemos de fábrica com nossos olhos, ouvidos, dedos e paladar. Vamos a cada lugar com todas estas portas abertas, é nisto que queremos acreditar. Senão não buscaremos o novo, e sim aquilo que já conhecemos. Mesmo quando a arte tem componentes do passado, e muitas vezes tem, ela deve torcer o passado para nos fazer vê-lo de forma diferente.

Don: Colecionamos com nosso filho e é impressionante quantas vezes vemos algo ao mesmo tempo sem saber que o outro também está vendo e depois temos a mesma opinião. E é igualmente impressionante quantas vezes discordamos.

Mera: Mas vale dizer que nossa coleção é baseada na colaboração. Se não concordamos, não compramos. Nada impede que um tente convencer o outro. Tentar convencer e ser convencido são processos de crescimento. Estas barreiras de discordância nos forçam a pesquisar e a nos comprometermos mais com a obra de arte.

Com tanta dedicação à arte, vocês viajam ou fazem programas não relacionados a ela?

Don: Sim, 34 anos atrás fomos ao Club Med.

Mera: E a uma praia de nudismo.

Lembram qual foi a primeira obra de arte que compraram?

Don: Sim, foi um idiota. Era o nome da obra, The Idiot.

Mera: Há muitos idiotas por aí, mas este nos colocou no caminho certo. Na verdade, na época éramos recém-casados, morávamos em Nova Iorque, Don estudava medicina e eu era professora e vivíamos com meu salário de 100 dólares por semana. Tínhamos o hábito de fazer longas caminhadas pela cidade e sempre passávamos por vários estúdios de artistas – era outra época, o Upper East Side não era valorizado e os artistas acabavam alugando lojas encalhadas para trabalhar. Um dia paramos para admirar umas pinturas e o artista nos convidou a entrar e mergulhamos naquele mundo tão novo e cheio de possibilidades. Dissemos que não podíamos comprar porque não tínhamos dinheiro, mas ele insistiu em quanto podíamos pagar por semana. Era uma pergunta difícil com um orçamento já tão apertado, mas foi com esta ideia que começamos a considerar a arte como algo que poderia fazer parte da nossa vida.

Vocês ainda têm?

Don: Sim, mas não é algo com o qual sentimos uma relação muito próxima. O gosto talvez não mude, mas evolui.

Mera: É raro vendermos algo. Ocasionalmente há situações que nos levam a vender, por exemplo, uma obra de um artista de quem temos dez obras há trinta anos para comprar algo que falta em uma nova exposição, mas é raro.

E a ultima?

Mera: Não gosto de falar do que estamos comprando. Quando nos interessamos por um artista, normalmente compramos várias obras ao longo de alguns anos e prefiro não atrapalhar este processo gerando especulação em torno de seu nome. Entendemos que temos uma responsabilidade neste contexto.

Quais são os projetos para o futuro?

Mera: Temos muita coisa acontecendo o tempo todo. Thirty Americans já passou por dez cidades americanas e segue na estrada, em dezembro inauguraremos uma exposições só com artistas mulheres chamada 100%, e muitas mais

As ideias para as exposições vem de curadores?

Don: Há duas formas de fazer uma exposição: ter uma ideia e ir atrás da arte que se encaixa nela ou ter a arte e a arte gerar a ideia. Conosco acontece assim.

Mera: Às vezes vamos comprando peças individuais e de repente percebemos que há um padrão. Quando percebemos este padrão, acabamos nos aprofundando e estudando e entendendo o tema.

Don: Foi o caso com o Brasil. Viemos comprando obras de vários artistas brasileiros sem a intenção, mas quando percebemos isto, decidimos que seria interessante vir à SP-Arte e ArtRio e nos aprofundarmos um pouco mais na cena brasileira.

A arte foi um dos fatores que aproximou vocês?

Mera: Não, foi atração sexual mesmo.

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