Entrevista com Virgínia de Medeiros, vencedora do Prêmio PIPA 2015

O Prêmio PIPA 2015 consagrou Virgínia de Medeiros como sua grande campeã. Vencedora da categoria voto popular, a artista (que era finalista junto com Cristiano Lenhardt, Leticia Ramos eMarina Rheingantz) foi anunciada no dia 11 de novembro como campeã eleita também pelo júri da premiação, composto por Cauê Alves, Gilberto Chateaubriand, Luiz Camillo Osorio, Pablo Leon de La Barra e Rosangela Rennó. O vencedor desta categoria recebe R$130 mil, – estando incluída nesse valor a participação por três meses no programa de residência artística da Residency Unlimited, em Nova York.

Virgínia conversou com a Dasartes:

LEANDRO FAZOLLA: Como e quando começou sua trajetória artística?

VIRGÍNIA DE MEDEIROS: Até os 17 anos, morei num sítio na zona rural de Feira de Santana, interior da Bahia. A relação com a natureza me levou para a arte muito cedo. Sem que eu mesma soubesse, ela me apresentou uma diversidade de experiências que me constituem e se atualizam na minha produção artística. Mas o primeiro contato com o universo das artes foi na Bienal do Recôncavo, em São Félix. No Recôncavo, decidi fazer Universidade de Artes. Fui morar em Salvador em julho de 1991, já como aluna regular da Escola de Belas Arte da Universidade Federal da Bahia/UFBA.

LF: O que mudou no seu trabalho desde que você começou até os dias atuais?

VM: Quando deixei o ateliê e fui para rua, acessei o meu corpo como maior instrumento de trabalho e passei a entender a rua como um laboratório de criação. Isso alterou meu nível de percepção em relação a minha construção como sujeito e, consequentemente, alterou minha produção. Hoje cada projeto é um espaço de aprendizagem, invenção de novas formas de prazer e convívio.

LF: Parte de seus trabalhos surge de relatos de outras pessoas. Como se dá o processo de busca por “personagens” para cada obra? O quanto você se envolve com as histórias de cada um?

VM: A vida cotidiana é constituída por uma armadura de condutas, marcada por uma barreira imaginária que separa os indivíduos. Acredito que a ordem imperativa que nos separa é fictícia. Andar, observar lugares, pessoas, situações e aventurar-me num universo diferente do lugar no qual estou, conhecer outros códigos sociais e deixar-me afetar por eles, pelo prazer de estranhar-me e deslocar-me de meus próprios limites me leva a conhecer “personagens” incríveis. O trabalho requer a construção de um lugar de cumplicidade, o envolvimento total.

LF: Muitas das questões abordadas por você nas obras da exposição do Prêmio PIPA vão de encontro a uma série de debates do atual e conturbado momento político do Brasil, como identidade de gênero, violência contra mulher, diferenças sociais, etc. Acredita que seu trabalho contribui com a discussão?

VM: É o meu desafio.

LF: Tendo um trabalho que dialoga tanto com questões da sociedade, como foi para você ser anunciada como vencedora do prêmio PIPA na categoria pelo júri popular?

VM: Meu trabalho nasce do encontro com pessoas e saber que esse encontro retorna às pessoas me traz o sentimento de pertencimento. É vigoroso.

LF: Quais os próximos projetos?

VM: O vídeo “Cais do Corpo”, que trata da questão da revitalização da Praça Mauá, Zona Portuária do Rio de Janeiro, com foco na prostituição com olhar crítico em relação a projetos urbanísticos que atuam com gentrificação sem nenhum planejamento de inclusão social. Durante as filmagens, fui convidada pelas garotas de programa para conhecer a comunidade, os amigos e familiares. Isso se desdobrará na série de fotos “Viver é conviver”. Paralelamente a este projeto, iniciei o uso de hormônio masculino como procedimento artístico. Vivemos num sistema criado para atender e formar corpos e subjetividades normalizadas dentro de uma matriz heterossexual. É o primeiro impulso para realizar um trabalho que toque em questões relacionadas a autonomia corporal.

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