Entre a matéria e a não-matéria

Em 1958, Yves Klein abriu uma exposição em que deixou a Galeria Íris Clert, em Paris, completamente vazia. A mostra, hoje icônica, é o exemplo perfeito de como, principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960, a busca por novas formas de expressão levaram artistas de encontro à imaterialidade. E é e exatamente este o conceito que dá título e rege a mostra que o Sesc Belenzinho inaugura no dia 1º de julho. “Imaterialidade” traz diferentes artistas cujos trabalhos evocam a desmaterialização, a sublimação da matéria, ou ainda, artistas que têm o impalpável como elemento principal do trabalho – som, luz, ar, palavra.

A mostra, que fica em cartaz até o dia 27 de setembro, tem curadoria de Adon Peres e Ligia Canongia, e é composta por 18 obras, sendo nove delas assinadas por artistas brasileiros como Brígida Baltar, Carlito Carvalhosa, José Damasceno, Laura Vinci e Marcos Chaves, entre outros. Além destes, estão presentes nove artistas de outras nacionalidades, dentre eles Bruce Nauman (EUA), François Morellet (França) e James Turrell (EUA).

A artista carioca Brigida Baltar apresenta na mostra o trabalho “Coletas”, no qual incorpora materiais intangíveis, como neblina e orvalho, cuja ação de coleta registra em fotografias e filmes. Marcius Galan (nascido nos EUA, mas considerado brasileiro por viver e trabalhar aqui) apresenta a instalação “Seção Diagonal”, que confunde o olhar do espectador ao dividir o espaço cênico apenas por cores, criando a impressão da existência de uma parede de vidro no meio da sala. Já o americano James Turrell utiliza o neon e a luz para criar diferentes formas no espaço.

Na exposição, os artistas lidam com dois diferentes modos de relacionamento com a obra de arte: a questão da “matéria” ou da “não matéria”, onde pode ou não haver uma materialidade concreta. Adon Peres comenta como o espectador se defrontará com essas duas maneiras de percepção artística: “no primeiro caso, se estabelece uma relação específica sujeito-objeto, na qual prevalece certo distanciamento, diferente do segundo, principalmente nas instalações, onde o espectador é literalmente imerso na atmosfera da obra”.

Como afirma Ligia Canongia, a curadoria foi em busca de uma “arte que supõe a visibilidade além do visível, a sensibilidade além dos efeitos físicos das coisas, que trafega através e entre os corpos; situações em que a materialidade perde contornos e se torna fluida e diáfana”. Ela ainda explica que a proposta sensorial dessa exposição, é a provocação do vazio, da falta, dos intervalos, do vapor e do ar que existe entre todas as coisas, e que nos cerca todo o tempo. “A obra de arte supõe a qualidade de algo que está além de sua presença física, contudo há artistas que trabalham a imaterialidade na constituição mesma das obras, tratam o imaterial como ‘matéria’, explorando estados físicos intermediários que escapam às questões de volume ou espessura e investigam os limites de outras ‘matérias’ insondáveis”.

“Os trabalhos foram escolhidos pelo potencial em evocar a questão primordial que Imaterialidade quer levantar”, comenta Adon Peres. Os curadores contam ainda que desde o início, tinham em mente artistas cruciais para a mostra, como James Turrell, Anthony McCall e Waltercio Caldas, mas que o tempo de pesquisa foi importante para formar o elenco ideal, enriquecendo-o com a inclusão de mídias e de artistas de gerações diferentes.

“A exposição Imaterialidade toca numa questão fundamental da modernidade: a desmaterialização. Do impressionismo às esculturas abstratas, a sublimação da matéria se tornou um dispositivo caro à transgressão das formas tradicionais. A sublimação da matéria começa na modernidade com o Impressionismo, quando a pintura mostra a oscilação do perfil das coisas e da cor, dependendo da luz. Daí em diante, a desmaterialização passa a constituir uma conquista irreversível, que só se acentuou ao longo do tempo. Quando pensamos na obra Le Saut Dans Le Vide, de Yves Klein, e que ele chegou a apresentar, em 1960, a galeria parisiense Iris Clert totalmente vazia, em um ato entendido como “obra”, observamos a potência radical a que chegou a imaterialidade no período contemporâneo. A exposição no Sesc Belenzinho, põe em evidência a desmaterialização do objeto como forma de afirmar o caráter instável, efêmero ou intangível da obra de arte, que a faz diferir inteiramente das normas do passado clássico”, finaliza Ligia Canongia.

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