Diferentes gerações de artistas japoneses no Museu Køs

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Quatro artistas japoneses de gerações distintas: Tatsumi Orimoto, Takafumi Hara, Chiharu Shiota e Yukihiro Taguchi, compõem a exposição IN YOUR HEART AND IN YOUR CITY, concebida exclusivamente para o Museu Køs, única instituição na Dinamarca especializada em arte no espaço público. Quem assina a curadoria é a brasileira Tereza de Arruda.

A arte contemporânea japonesa é parte constante da arte contemporânea internacional mesmo tendo como ponto de partida uma cultura introspectiva, silenciosa e repleta de códigos de conduta milenares e singulares. Porém neste momento o Japão revê inúmeros fatos históricos e recentes em uma tentativa de resposta a sua atualidade e realidade, além de uma certa imposição a fim de não cair no esquecimento ou ficar à sombra de tantos outros gigantes que surgem na Ásia como China, Coréia do Sul e outros.

Em 2015 são celebrados 70 anos do final da Segunda Guerra Sino- Japonesa, da Guerra do Pacífico e da II Guerra Mundial, cujo tão esperado e celebrado final foi marcado pela rendição do Japão aos países aliados em setembro de 1945. Por este motivo acontece no momento diversas mostras de arte contemporânea no Japão, cujo foco das obras apresentadas recai sobre esta temática a fim de reavaliar tanto o passado quanto o presente como consequência da atuação do Japão, sua população e até dos próprio artistas nestes conflitos . Outro fato que estremeceu o País recentemente foi a catástrofe de 11 de março de 2011 do tsunami sucedido pelo desastre nuclear de Fukushima. Estes fatos colocaram o Japão novamente em foco com relação à responsabilidade não somente de seus governantes locais mas também de âmbito mundial com relação ao risco tanto das alterações do clima global quanto ao uso da energia nuclear.

Apesar dos temas políticos, energia e ecologia estarem em vigor e serem tratados nos discursos atuais da arte contemporânea, o foco na mostra IN YOUR HEART AND IN YOUR CITY recai sobre o caráter social e a interação do ser humano em um mundo globalizado no qual é necessário a criação de formas de comunicação e integração no dia a dia. Além deste item ser prioritário e preventivo de conflitos futuros, esta é uma necessidade de ordem pública e por isto o Museu Køs que preza e divulga a arte em espaços públicos, é a plataforma ideal para esta exposição.

Os 45 anos de carreira de Tatsumi Orimoto podem ser vistos no Museu Køs. O comportamento social, o individualismo e a integração Ocidente/Oriente formam um conjunto expositivo em sua obra que chamou a atenção do público por todo o mundo. Um dos destaques da exposição – a série Art Mama – dá o tom impresso pelo artista a seu trabalho. A série tem como protagonista a mãe de Orimoto, vítima de Alzheimer. Em fotografias, a senhora é vista em situações que causam estranheza num primeiro momento, mas que se fazem entender pelo seu contexto de integração social. Para Orimoto, a inclusão da mãe em sua produção artística é uma atitude corajosa e contraditória quanto aos preceitos usuais: ao invés da exclusão social que sua mãe está predestinada, uma vida ativa com repercussão pública internacional. Outra série, Bread Men, apresenta o artista, ora só, ora em companhia de outras pessoas, com pães amarrados em suas cabeças. Sua mãe, uma vez mais, também participa. As situações são diversas: eventos, caminhadas, encontros no metrô, entrevistas na televisão. O principio básico, segundo Orimoto, é aproximar o Oriente e o Ocidente, já que o pão é um alimento em qualquer parte do planeta. Por este motivo escolheu o pão como simbologia para uma comunicação e integração entre o ocidente e oriente. A mostra é composta por uma série de fotografias e apresentações de vídeos que relatam as atividades performáticas e os demais experimentos realizados pelo artista a partir da década de 70 até hoje. Nesta época, Tatsumi Orimoto atuava como assistente de Nam June Paik em Nova York e participou do grupo Fluxus. Uma série de performances acontecerão finalizando a mostra com a participação da população de Køs e de Copenhague criando um diálogo inédito entre Tatsumi Orimoto e a sociedade e cultura dinamarquesas no espaço público.

A obra de Chiharu Shiota é marcada pela multiculturalidade, em que a passagem do século XX para o XXI pode ser notada nos vestígios de pós-feminismo, pós-eurocentrismo e pós-globalização apresentados. Seus traçados precisos a remetem ao ato do fazer e criar com as próprias mãos. Sua ocupação espacial complexa, remete tanto à tecelagem quanto à caligrafia oriental, evolui baseada nos gestos incansáveis de suas linhas e alude à vida humana sob diversos prismas, tendo o cordão umbilical como a primeira metáfora possível. Em última instância, a artista oferece o protagonismo de seu trabalho ao público, tanto pela participação na construção das obras por meio da doação das cartas que lhe serviram de matéria-prima, quanto pelo amplo leque de possibilidades de fruição do resultado especialmente projetado para o espaço físico do Køs Museum. “Cartas de agradecimentos” nasceu como um impulso de gratidão da artista por pessoas e contextos pessoais variados, numa tentativa de transpor em palavras sentimentos que, normalmente, são difíceis de verbalizar. Esta obra conecta plenamente a artista com o público dinamarquês doador das cartas inseridas na instalação sem distinção ou necessidade de possuir, propriamente, remetente ou destinatário. Com o uso da tecnologia na comunicação, as relações tornaram-se efêmeras e velozes, não havendo tempo para escolher as palavras cuidadosamente. Porém, os sentimentos de saudade e gratidão e de ansiedade pela resposta permanecem os mesmos. Chiharu Shitoa produz também para o espaço externo do Køs Museum uma escultura com o uso de chaves obtidas de pessoas anônimas – grande gesto de credibilidade do público participante ao ceder a uma estranha um objeto pessoal de tamanha importância e privacidade. Esta obra remete à tão celebrada participação de Chiharu Shiota na 56° Bienal de Veneza com a instalação “The Key in the Hand”. A instalação Cartas de Agradecimento esteve presente em sua individual Em Busca do Destino, realizada recentemente no Sesc Pinheiros, em São Paulo, também com curadoria de Tereza de Arruda. Chiharu Shiota também participou de uma conversa com o público brasileiro, oferecida pela DASartes na última edição da ArtRio.

O artista Takafumi Hara desenvolve instalações “site-specific” no espaço público como resultado de uma pesquisa realizada diretamente com a comunidade local – o privado se torna público! Ele realizou entrevistas informais em Køge com os moradores em uma visita prévia. Esta comunidade foi selecionada devido ao seu contexto histórico, politico e social visualizando um diálogo mais intenso com moradores e frequentadores do entorno do Køs Museum.

Desta forma o artista passou por um processo de inserção único neste contexto ao encontrar os entrevistados em suas casas e intimidade doméstica. As informações coletadas foram por ele revistas e recriadas em forma de uma única estória fictícia exposta nas janelas do Køs Museum como transposição das idéias e revelações aí geradas. O resultado é uma exposição democrática e abrangente no espaço urbano atingindo um vasto publico incluindo os que normalmente não visitam instituições culturais. A obra de Takafumi Hara transpõe um forte caráter estético como pintura e desenho através de sua composição de cor e texto. Por outro lado sua obra é o resultado de um engajamento social com membros da comunidade relatados na obra de arte em si criando um novo diálogo e transparência social da comunidade local.

Para Yukihiro Taguchi sua obra se apresenta nômade como o próprio artista: deslocamento, desconstrução, reconstrução e transitoriedade são alguns dos princípios tanto do autor quanto de seu trabalho. Este não é considerado pelo artista como sendo uma performance, ele se exclui da atuação para enfatizar a relação criada entre objeto e espaço. Como em uma metaformose locais e materiais inusitadas passam a se complementar criando uma predisposição nova. Surge a partir daí um estranhamento a ser explorado pelo espectador: analisar, vivenciar, compartilhar ou mesmo repugnar – eis algumas das atitudes prováveis.

O projeto a ser apresentado no Køs Museum é “Discuvry” iniciado por Yukihiro Taguchi e Chiara Ciccarello no inverno de 2013 quando os dois ocuparam um terreno vazio na Curvy Strasse em Berlim, único espaco intacto da especulação imobiliária ao lado do rio Spree no bairro de Kreuzberg. Naquele momento os dois construíram com material reciclado encontrado pelas ruas da cidade a custo zero um novo “lar” e uma vida livre de preceitos capitalistas ligados a gentrificação dos grandes certos urbanos e públicos. Este sonho foi compatilhado por muitos e em poucos meses outros “lares” foram aí criados e compartilhados por até 1000 raças distintas em um complexo intercâmbio de idiomas, culturas e tradições de forma heterogênea e democrática no espaço público urbano. Esta utopia sobreviveu até setembro de 2014 quando o terreno foi evacuado pela polícia local. O acampamento e “lar” provisório de YuKihiro e Chiara sobreviveu a destruição do local e será montado em frente ao Køs Museum como um local de interação da população local com o artista. Nesta moradia provisória serão apresentados filmes, palestras, discussões e a interação será intermediada em partes pelo próprio artista que aí residirá parcialmente e será o anfitrião de diversos encontros coletivos. Dentro do museu o artista apresenta ainda uma vídeo instalação de uma atuação coletiva – labaredas de uma fogueira improvisada acesa para aquecer e convencer pessoas aleatórias a aí permanecer para trocarem o calor emanado pelas chamas, assim como o calor humano compartilhado nesta atuação provisória e espontânea – como todas que norteiam a produção artística de Yukihiro Taguchi.

Esta é a primeira vez que Tatsumi Orimoto, Takafumi Hara, Chiharu Shiota e Yukihiro Taguchi expõem em conjunto. Estes como indivíduos estão ligados em si pela procedência geográfica, língua materna e o desejo de se doar e atuar como um elo entre culturas distintas a fim de criar e preservar uma nova memória coletiva – esta sem barreira geográfica, sem idioma, sem segredos e sem “lar” específico.

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