De volta a 1977 com Antônio Dias em “Papéis do Nepal”

© Pat Kilgore

O artista paraibano e radicado no Rio, Antônio Dias, abrirá a exposição Papeis do Nepal na Galeria Nara Roesler de São Paulo.
Já exibida em uma versão menor na Galeria do Rio, dessa vez chegam à cidade trabalhos inéditos, produzidos durante a viagem que o artista fez ao Nepal em 1977 com a finalidade de aprender a manufatura de papéis artesanais.

A fase do Nepal é uma ruptura na trajetória pregressa do artista, reconhecida por estar calcada fortemente no conceitualismo. Nessa produção, por sua vez, além de surgirem cores especiais, resultantes de pigmentos que muitas vezes levam chá, terra, cinzas e curry, as obras se destacam por questionar o caráter autoral ao trabalhar em parceria com os moradores da região, que chegaram mesmo a nomear obras. Temos fotos históricas do processo caso interesse para uma matéria.

Sobre a fase anterior, será lançado no mesmo dia o livro Antonio Dias, publicação da Associação para o Patronato Contemporâneo – APC. O volume, editado por Antonio Dias e Alexandra Garcia, examina quase cinquenta anos da carreira do artista e traz textos inédito de Achille Bonito Oliva e Paulo Sergio Duarte, além de cronologia comentada por Ileana Pradilha.

Nas palavras do historiador da arte italiano Sandro Sprocatti, o trabalho de Dias projeta “uma situação antiperspectiva por excelência, uma vez que nega a exclusividade de um ponto de vista não só devido à instabilidade representacional (ambiguidade substancial do signo e do espaço) mas, acima de tudo, porque implica a pluralidade das condições de fruição, ou seja, as condições existenciais que o observador tem em relação ao próximo”.

Os trabalhos que figuram na exposição foram produzidos durante uma viagem de Dias ao Nepal em 1977, com a finalidade de aprender a manufatura de papéis artesanais. A fase do Nepal é uma ruptura na trajetória pregressa do artista, calcada fortemente no conceitualismo; na utilização de mídias então incipientes, como o vídeo; e na criação de um léxico visual que englobava elementos pop, planos geométricos definidos por cor e palavras.

Esse repertório, repetido sistematicamente e embaralhado entre si, questionava o caráter da convenção social e da instituição artística como produtora de significados codificados e estanques, validados por um sistema de inserção e representatividade internacional, a que o regional deveria se submeter – o que se tornava evidente pelos títulos em inglês das obras, como a famosa série The Ilustration of Art.

Mais do que serem suportes, os planos geométricos de papel artesanal são obras em si. Suas cores resultam da adição, durante a fabricação, de elementos naturais – como chá, terra, cinzas e curry -, incorporando o processo de produção como componente e significante dos trabalhos. Realizados em conjunto com artesãos de uma fábrica de papel nepalesa, subvertem a questão da unidade autoral tanto em sua gênese quanto em seus títulos, atribuídos por alguns dos trabalhadores, a exemplo de Niranjanirakhar.

Ou, como o próprio artista definiu em uma entrevista, “O que mais me interessa é a relação entre a produção desse trabalho e de seus produtores… Ao mesmo tempo que se empenhavam materialmente na produção, alguns deles também imprimiam uma leitura simbólica ao produto”.

A palavra nepalesa Niranjanirakhar, que significa Nada, é uma boa síntese da ambivalência de sentidos desse grupo de obras. Se em sua premissa pós-conceitual e processual reiteram a necessidade de construção da significação pelo espectador, provocando a consciência e a postura ativa para além da superfície imagética, trazem um silêncio quase místico, por sua materialidade imperfeita e orgânica. Além da contaminação de significação pela territorialidade, tema caro ao artista.

Citando novamente Sprocatti: “Em ambos os casos, figuras ‘importadas’ da atuação anterior do artista adquirem novos significados em contato com a esfera cultural que testemunhou seu nascimento. Como resultado, a peça (também entendida como trabalho) ganha uma profundidade simbólica ao mesmo tempo improvável e exata. Do mesmo modo, a sintaxe pós-conceitual das instalações encontra novas razões de pertinência no interior de uma dimensão mística que tem pouco a ver com o Ocidente e sua história.”

Sobre o Artista
Antonio Dias nasceu em 1944 em Campina Grande, Paraíba. Vive e trabalha entre Rio de Janeiro e Milão. Seus trabalhos fazem parte de importantes coleções internacionais, tais como: MoMA, Nova York, EUA; Ludwig Museum, Colônia, Alemanha; Daros Collection, Zurique, Suíça; Städtische Galerie im Lenbachhaus, Munique, Alemanha; Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina; e Centro Studi e Archivio della Comunicazione, Università de Parma, Itália, e renomadas coleções nacionais, tais como: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro; Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba; Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro; Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo; Itaú Cultural, São Paulo; Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, São Paulo; Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, Recife; e Museu de Arte Contemporânea de Niterói/Coleção Sattamini, Niterói.

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