Ate Onde o Morro Vinha Ate Onde o Rio Ia – Guga Ferraz

  • À PRESENÇA INVISÍVEL E ETERNA DO CASTELO DESAPARECIDO, ELE DEDICAVA SEUS DIAS, ENCANTADO… O MORRO ONDE ESTAVA O CASTELO TAMBÉM HAVIA SUMIDO, COMO SE O HOMEM PUDESSE APAGAR DA MEMÓRIA UMA COLINA DE 64 METROS E TODAS AS HISTÓRIAS DAS PESSOAS QUE MORAVAM LÁ. ELE SABIA QUE NÃO. A ENERGIA DAQUELE PEDAÇO DE TERRA AINDA VIBRAVA, RESPIRANDO. A CANTORIA DAS LAVADEIRAS, O AMOR, A FOME, A DIFICULDADE, A ESPERANÇA. ERA SÓ FECHAR OS OLHOS E SENTIR. ELE BUSCAVA… TONELADAS DE TERRA IMAGINÁRIAS ENTRAVAM POR SEUS POROS. LÁGRIMAS MARRONS ESCORRIAM POR SEU ROSTO. SEUS BRAÇOS ESTAVAM SUJOS DE BARRO, SUA ROUPA REVELAVA A MISTURA DE SUOR E PÓ, SUA RESPIRAÇÃO ERA LENTA E PESADA. ELE SEGUIA, SEM DESISTIR, ATRÁS DAQUELE CASTELO… 

Guga Ferraz recria o Morro do Castelo onde um dia ele existiu antes de ser “botado-abaixo” numa reforma urbanística em 1921. Vencedor do Prêmio Projéteis, de 2013, da Funarte, Guga apresenta “Até Onde o Morro Vinha, Até Onde o Rio Ia”, uma referência a outra intervenção dele chamada “Até Onde o Mar Vinha, Até Onde o Rio Ia”. Se no projeto atual, no Palácio Capanema, Guga mostra as consequências de um governo que sob o argumento do desenvolvimento esquece de defender os cidadãos da própria cidade e faz uma cirurgia na natureza para derrubar um morro de 64m, no projeto do mar ele tratava das partes aterradas e do impacto disso na construção desse ideal urbano. “Falo dessa coisa de transformar a natureza e de transportar pessoas e a pobreza de um lado pra outro, falo da remoção de gente. Acho bem violento o fato do morro não estar aqui. Esse é só um dos absurdos que aconteceram no Rio em prol desse desenvolvimentismo”.

A proposta é de reconstrução da memória do morro no espaço e no tempo, com um corte topográfico poetizado, encaixando o morro dentro da cidade atualmente. O Morro do Castelo, todo de terra preta, foi onde a cidade do Rio de Janeiro foi fundada. Voltemos à segunda metade dos 1500… Para a expulsão dos franceses na região da Baía da Guanabara, os portugueses, sob o comando de Mem de Sá, instalaram uma cidadela na colina próxima à ilha de Villegagnon. “Eles queriam criar um núcleo urbano mínimo para falar que isso aqui era terra portuguesa. Construíram um colégio de jesuítas, que acho que parecia um castelo, uma igreja, uma praça. Esse espaço que a gente está aqui, no Palácio Capanema, é onde seria ‘os subterrâneos do morro do Castelo’, pra citar Lima Barreto. Na verdade, é como se a gente estivesse dentro do corpo do morro”, explica Guga apontando as referências do lado de fora. “O morro ía até o sétimo andar ali, até a igreja Santa Luzia lá, até a praça XV pro outro lado…

Se a gente falou da ocupação por determinação portuguesa do morro, agora vamos à demolição por determinação brasileira. No início do século XX, o Rio era capital e vivia grandes problemas sociais. Entre tantos, enfrentava dificuldades para garantir o abastecimento de água, rede de esgotos e programas de saúde para a população de pouco mais de um milhão de pessoas. O engenheiro Pereira Passos, então prefeito, fez o plano para afastar os cortiços da Cidade Velha. “Imagina, ficavam olhando pro morro e se deparando com a pobreza. Foi um jeito de afastar o pobre do rico, não tem outro jeito de falar isso. Era a vontade dos ricos de valorizarem um lugar, abrir nova circulação para o poder. Aqui era uma parada da mistura carioca, das lavadeiras, dos curandeiros. Desde lá, isso tem a ver com o processo de gentrificação. Imagina, derrubar um morro com a história de construir a Paris tropical? Isso aqui é Brasil, Rio de Janeiro. Queria ver alguém derrubar o Pelourinho hoje!”.

A reforma de Pereira Passos, que ficou conhecida como Bota-Abaixo, tinha uma referência na arquitetura francesa dos grandes bulevares. Curioso notar que tanto a ocupação do morro foi para dar uma resposta aos franceses (dos portugueses querendo tomar conta do pedaço), quanto a demolição (seguindo a arquitetura da época). O morro foi arrasado em 1921 para a montagem da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. Suas terras foram usadas para aterrar parte da Urca, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Jardim Botânico e outras áreas baixas ao redor da Baía da Guanabara. “À base de picareta, paulada, na mão, cavando, entre 1919 e 1922, fizeram uma cirurgia na cidade para fazer uma esplanada. É a mesma coisa que você demolir uma coisa para fazer a Copa, é a mesma relação”.

Para o projeto, Guga “alugou” 16 toneladas de terra preta de um sítio em Seropédica, porque não se pode “comprar” terra. Depois da exposição, ele vai levar essa terra para o Fundão, na UFRJ, no departamento de artes visuais. Neste esforço enorme de reconstrução, Guga apresenta aquilo que ele identifica como crônicas cariocas, onde se conta o dia a dia e os acontecimentos da cidade maravilhosa.”O Rio sempre é o encontro do mar e do morro.  O rio enquanto rio que corre, ele corre pro mar. O Rio enquanto cidade escorre pro mar. Quando eu penso no Rio, eu penso no morro, como o primeiro lugar ocupado no Rio de Janeiro, que tinha o popular do Rio e que foi afastado.” 

VISITAR ATÉ 17 DE OUTUBRO (O próprio processo é aberto para visitação)

Morro do Castelo na Galeria do Mezanino | Palácio Gustavo Capanema – Funarte

Rua da Imprensa, 16 – Centro –Rio de Janeiro – (21) 2279-8089 | 2279-8078

Página do projeto no Facebook: https://www.facebook.com/ateondeomorrovinhaateondeorioia?fref=ts

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