Arábia Saudita e França se unem para projeto multi-bilionario histórico

O sítio arqueológico de Mada'in Salih em Al-Ula pode ser aberto ao turismo

Fonte: The Art Newspaper. Por Vincent Noce

A França e a Arábia Saudita chegaram a um acordo no mês passado sobre uma grandiosa colaboração cultural e turística que não é apenas um abalo para a diplomacia de poder do presidente Emmanuel Macron, mas também pode ser um importante veículo de mudança no reino do Oriente Médio.

O documento de 20 páginas, visto pelo The Art Newspaper, foi assinado em Paris pelo ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, e pelo príncipe Badr bin Abdullah Al Saud, governador da província de Al-Ula, na presença de Macron e o Príncipe herdeiro Mohammed bin Salman Al Saud (conhecido como MBS). Aclamado como “histórico” pela mídia saudita, o acordo de dez anos dá à França um papel exclusivo em um potencial projeto que custará dezenas de bilhões de euros em uma área quase do tamanho da Bélgica. Também confirma o papel que a cultura, o turismo e as artes poderiam desempenhar na abertura e modernização do país, em consonância com o Plano de Visão 2030 do príncipe herdeiro.

Al-Ula é o lar de Al-Hijr, um Patrimônio Mundial da Unesco desde 2008, atualmente fechado para turistas e visitado apenas por poucos privilegiados. Localizada no noroeste da Arábia Saudita, consiste em canyons espetaculares e túmulos esculpidos em pedra ao redor de Mada’in Salih, antes conhecida como Hegra. O oásis era um posto comercial do reino Nabateu, a 550 km ao sul de sua capital, Petra, na atual Jordânia. Inclui restos da cultura lihyanita e da ocupação romana.

A ideia de abrir a área ao turismo internacional surgiu em uma reunião entre Macron e MBS, no dia seguinte à inauguração do Louvre Abu Dhabi em novembro passado, e algumas semanas após o anúncio dos planos da MBS de construir a Neom, uma alta de US$ 500 bilhões para a mega-cidade de alta tecnologia na fronteira da Arábia Saudita com o Egito e a Jordânia.

O acordo foi negociado pelo enviado especial de Macron, Gérard Mestrallet, o presidente do grupo de energia e serviços públicos Engie, que investiu em instalações de energia e água na Arábia Saudita. Ele foi auxiliado por Didier Selles, que em 2007 negociou o acordo de € 1 bilhão com os Emirados Árabes Unidos para o Louvre Abu Dhabi. Os detalhes financeiros ainda precisam ser finalizados, mas, segundo uma fonte diplomática francesa, só a taxa de contrato – “em reconhecimento ao valor intrínseco da França como o principal destino turístico e cultural do mundo” – poderia valer vários bilhões de euros. Macron decidiu dedicar esse dinheiro a um fundo para monumentos e museus franceses.

 

Um memorando de entendimento de € 150 milhões já foi acordado com o Forum Campus France (atuando para 350 universidades e centros de pesquisa) para receber estudantes sauditas a partir deste outono. O Louvre será o principal parceiro da parte cultural do programa, juntamente com o Musée National des Arts Asiatiques-Guimet e os serviços arqueológicos franceses. Um Institut Français será instalado em Al-Ula, e o Institut du Monde Arabe em Paris está planejando uma exposição na província para o próximo ano.

A França ajudará a estender escavações por toda a província, proteger os túmulos e templos e abrir um museu arqueológico. Mais ambiciosamente, os sauditas também prevêem um segundo “museu de classe mundial e centro de pesquisa” dedicado à história da península arábica. Pode ser de duas a três vezes o tamanho do Louvre Abu Dhabi, segundo uma fonte saudita, e seu orçamento de aquisições chega a US$ 100 milhões por ano.

O acordo inclui apoio à educação, treinamento, artesanato, comércio local e agricultura. O programa é “respeitar a paisagem, o ambiente natural e o patrimônio cultural” e aderir às normas da Unesco.

Seu impacto pode ser amplo. As culturas pré-islâmicas, uma questão sensível nos círculos conservadores islâmicos, são agora oficialmente consideradas patrimônio importante na Arábia Saudita. O acordo afirma que as instituições educacionais e científicas devem estar “em conformidade com as mais rígidas regras internacionais”, o que significa liberdade de expressão e igualdade de gênero, segundo fontes diplomáticas francesas.

A França também ajudará a elaborar uma estrutura legal para a província “em derrogação” – isto é, isentando-a de certas leis e regras em vigor no reino. “Com base nas normas mais eficientes”, terá que atender aos critérios de “intercâmbio internacional e turismo”, o que implica a oferta de comodidades como piscinas, cinemas e outras instalações de entretenimento, que serão abertas tanto para mulheres quanto para homens. O príncipe herdeiro já anunciou que os mesmos princípios serão aplicados à cidade vizinha projetada de Neom.

Este sistema legal específico também abrange regras para “planejamento urbano e construção, proteção do meio ambiente, patrimônio, flora e fauna, bem como empresas artesanais locais”. Usando a cultura e o turismo como um trampolim, isso contribuirá para as reformas mais profundas buscadas pela MBS, que apóia um Islã “moderado”. “O ‘toque francês’ poderia dar credibilidade não apenas aos projetos culturais, mas também a uma nova imagem da Arábia Saudita”, disse uma fonte próxima à Macron, que está confiante de que “este acordo pode ser seguido por outros”.

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