Anna Bella Geiger engavetando memórias

© Divulgação

Anna Bella Geiger é uma das artistas brasileiras mais relevantes, tanto pela inquietação que a levou a experimentar diversos meios, quanto pela qualidade de suas obras. Influenciada pelo seu casamento de 60 anos com Pedro Geiger, um importante geógrafo brasileiro, a artista a passou a desenvolver, a partir dos anos 70, um singular trabalho com mapas, pelos quais é conhecida em todo mundo. Esta singularidade estará presente na exposição, “Anna Bella Geiger – Gavetas de Memórias”, na Galeria Vitrine da CAIXA Cultural Brasília.

Em 2015 a produtora carioca Zucca Produções realizou, no Castelinho do Flamengo, no Rio de Janeiro, um projeto de criação de uma obra inédita de Anna Bella Geiger, juntamente com um vídeo documental, que revela todas as etapas da produção da obra. No vídeo, de 25 minutos de duração e exibido em looping na exposição, são reveladas as ideias e as formas através das quais a artista realiza seu trabalho. Imagens registram os momentos de sua criação: idas às ruas para comprar objetos, preparação dos materiais e o momento da criação da obra – uma gaveta de ferro antiga de arquivo preenchida com cera, que serve de suporte para mapas e outros objetos produzidos por Anna Bella Geiger.

AS GAVETAS

No final dos anos 70, Anna Bella se dedicou a pensar obsessivamente em geografia, cartografia e mapas, mergulhando nas questões sociais, políticas, ideológicas e tudo que pode significar o mapa-múndi, suas representações e desconstruções. Inspirada nas lembranças de quando seu pai fazia objetos e fôrmas de biscoito, recortando latas de aveia, teve a ideia de como poderia apresentar suas obras. Uma gaveta de arquivo velho à venda em uma loja de antiguidades foi a solução que passa a funcionar como o suporte para seus mapas. Após diversas tentativas e experimentos, chega na cera de abelha derretida, que não só segura os objetos na gaveta, mas permite a criação de texturas, cores, marcas, carimbos e adornos. A ideia ficou armazenada durante décadas até se concretizar na criação das obras como se apresentam hoje. Segundo a própria artista:

“ Desde 1975 fico na busca de soluções para esses mapas-múndi até que em 95 encontro uma gaveta na porta de uma loja, toda enferrujada. Posso dizer que eu andei vinte anos pelo deserto. Passei vinte anos procurando o contêiner ideal para segurar o mundo. Gaveta de que é isso? Gaveta de arquivo? Era uma gaveta que teve uma história. Então é nesta gaveta que eu vou resolver essas camadas de significados, nas quais eu não tenho que explicar nada, e onde vai entrar o mapa com a história dele. ”

A EXPOSIÇÃO

Além da obra produzida para o vídeo, a exposição “Anna Bella Geiger – Gavetas de Memórias” levará para a CAIXA Cultural outras 11 Gavetas produzidas pela artista ao longo dos últimos 25 anos e ainda seis gravuras com mapas que dialogam com as Gavetas e seus conceitos artísticos.

A exposição revela, então, o modus operandi e as motivações criativas de Anna Bella Geiger, além de passagens de sua singular trajetória como artista, mulher, mãe de quatro filhos e cidadã do mundo, que se mantém contemporânea aos 84 anos de idade.

SOBRE ANNA BELLA

Em momentos relevantes da arte contemporânea de nosso país é marcante a presença de Anna Bella Geiger. Na superação dos postulados informais dos anos 1950, na construção figurativa com a sua “fase visceral” dos anos 1960, nos movimentos experimentais da década de 1970, no seu retorno à uma certa pintura nos anos 1980, e na sua obra atual – Anna Bella mostrou-se sempre uma artista autêntica.

Com obras registradas em gravura, pintura, desenho, objetos, fotomontagem e videoinstalações, a artista tem obras compondo coleções particulares e de acervos de museus como MoMA (NY), Fogg Collection (Harvard), Centre Georges Pompidou (Paris), Victoria & Albert Museum (Londres), MACBA (Barcelona), Museu Reina Sofia (Madri), Museu de Arte Contemporânea (Niterói), MAM (Rio de Janeiro) e MASP (São Paulo).

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