Ame ou odeie os tesouros de Damien Hirst. Saiba tudo sobre a exposição mais polêmica do ano

Taylor DeCaires

POR CONSTANÇA BASTO

Polêmicas ao redor da exposição “Treasures from the Wreck of the Unbelievable”, de Damien Hirst

A exposição se mostrou bastante polêmica e a expectativa ao redor dela era imensa uma vez que, após dez anos, esse seria o retorno de Damien Hirst e, em se tratando do artista, a ansiedade era grande.

A exposição é exibida em 5 mil metros quadrados de espaço, são 189 obras de arte, incluindo mais de 100 esculturas (uma delas com quase 18 metros de altura) e 21 armários cheios de objetos menores, tudo à venda.

A maioria das principais esculturas do show estão disponíveis em três versões: “Coral” (como se fosse recuperada do mar), “Treasure” (como se fosse restaurada) e “Cópia” (como uma reprodução de museu). Nenhum coral verdadeiro é usado na exposição. Os bronzes foram fundidos no oeste da Inglaterra e os mármores esculpidos na região de Carrara, na Itália.

Para se ter uma ideia, os maiores bronzes têm preços superiores a US$ 5 milhões. “Sphinx”, um mármore branco de 1,5 metro de comprimento no formato “Cópia” custa US$ 1,5 milhão.

De acordo com os porta-vozes do estúdio de Hirst, o projeto foi financiado em parte com recursos próprios do artista, mais de 50 milhões de libras, foi o que Hirst admitiu ter investido à BBC.

As opiniões dessa vez ficaram realmente divididas como nunca antes se viu, polarizando os críticos de arte com a enorme complexidade da mostra sem precedentes em escala, exagero, exorbitância e uma série de outros adjetivos bastante controversos.

A revolta veio em grande parte pelo momento que vivemos de tamanha instabilidade e desigualdade. Uma exposição desse porte, com investimentos desse nível, espalhafatosa e exagerada, parece uma piada de mau gosto, um desperdício e, no mínimo, inapropriada.

Além da polarização forte do gênero “ame ou odeie”, que surgiu no meio da arte de maneira bem explícita com relação ao conteúdo da própria exposição, vemos a seguir duas outras discussões acerca da originalidade e apropriação que são acusações que volta e meia rondam o trabalho desse artista.

Pavilhão de Grenada

A poucos minutos de distância da Punta della Dogana, um dos dois locais onde está a exposição de Hirst, está a apresentação “The Bridge”, do grupo do Pavilhão de Grenada.
Andando pelo show, você por um segundo realmente sente que entrou em um anexo não autorizado da mostra “Treasures”, de Hirst.

DeCaires Taylor, o artista em questão, fundou o primeiro parque de escultura subaquática do mundo na costa oeste de Grenada em 2006. Sua biografia o descreve como “o primeiro de uma nova geração de artistas a mudar os conceitos do movimento ‘Land Art’ para o ambiente marinho”, e ele instalou esculturas subaquáticas e falou sobre sua arte submarina para multidões em todo o mundo na última década.

Uma diferença definitiva entre as duas instalações: o trabalho de Hirst é sobre fábulas, lendas, imaginação e o fantástico, enquanto deCaires Taylor fala sobre o meio ambiente e o que de fato acontece no fundo do mar.

“Aparentemente, eu não fui o único a notar a semelhança”, diz deCaires Taylor, contando que o Pavilhão tinha sido “inundado com perguntas sobre a suposta apropriação feita por Hirst do trabalho dele”.

O artista declara: “Ao longo dos últimos 11 anos, venho trabalhando debaixo d’água. Sempre esperei que meu trabalho fosse uma contribuição à humanidade, chamando a atenção para um mundo frágil e em perigo. Depois de ver a última exposição de Hirst, parece que certamente criei um gênero de arte que chama a atenção, mas os fac-símiles marinhos de Hirst são muito diferentes das minhas instalações vivas, tanto em contexto como em proposta. Se as pessoas realmente querem ver ‘tesouros inacreditáveis’, eles devem olhar abaixo da superfície de nossos mares nas verdadeiras maravilhas do mundo azul – a natureza não mente.”

As semelhanças são indiscutíveis, não só nas obras, mas nas fotos feitas no fundo do mar. Cabe ao visitante julgar o que essa coincidência significa.

https://www.grenadavenice.org/

“Head of Ife”

O artista britânico já sofreu no passado diversas acusações de que suas peças não são sempre inteiramente originais, mas inspiradas no trabalho de outros artistas. No caso da mostra em cartaz, o artista nigeriano Victor Ehikhamenor acusou Hirst de copiar uma conhecida obra de arte de bronze da Nigéria, “Head of Ife”, encontrada em 1938, em Ife, Nigéria, sem lhe dar o reconhecimento histórico apropriado.

A descrição escrita junto à peça “Golden Heads (Female)” na exposição de Hirst menciona Ife em uma história de ficção ampla inventada pelo artista sobre as origens da escultura, longe do reconhecimento mínimo devido a uma peça de tamanha importância para a Nigéria e seus artistas. Segundo Ehikhamenor, “Head of Ife” é uma das mais intrincadas e mais belas obras de arte criadas por artistas africanos clássicos e, para os milhares de telespectadores que veem a obra pela primeira vez, eles não pensarão em Ife, eles não pensarão em Nigéria, seus jovens crescerão conhecendo este trabalho como Damien Hirst”.

Ehikhamenor disse que o trabalho era uma cópia fiel do original e, no entanto, Hirst a celebrou como arte contemporânea. “Ele apenas fez uma imitação da obra”, disse ele.

Em uma declaração, o escritório do Hirst disse que Ife foi referenciada no texto de acompanhamento do trabalho e no guia de exibição, e mais, acrescentou que “‘Os Tesouros’ são uma coleção de obras influenciadas por uma ampla gama de culturas e histórias de todo o mundo – de fato, muitas das obras celebram obras de arte originais e importantes do passado”, diz o comunicado.

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