Adriana Varejão – Pele do Tempo

© Eduardo Ortega

O Espaço Cultural Airton Queiroz, localizado na Universidade de Fortaleza, apresenta, de forma primorosa, a exposição Pele do Tempo, da artista Adriana Varejão, um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira. Sob curadoria de Luisa Duarte, 32 obras, produzidas entre 1992 e 2014, sinalizam os 30 anos de carreira da artista. Um amplo espaço, com pé-direito padrão e iluminação homogênea, comporta quatro ambientes que dialogam entre si. A exposição, que fica em cartaz até o dia 29 de novembro, possui duas vertentes fundamentais: a história (o tempo) e o corpo (a pele). A partir da confrontação entre os dois polos, estabelece-se o diálogo entre história e temporalidade, elaborando uma narrativa, não do ponto de vista do vencedor, mas dos vencidos, e compondo uma pele do tempo, que pode simbolizar marcas de violência e erotismo. Segundo a curadora da exposição, “é justamente essa dinâmica, um ir e vir entre temporalidades, enxergando o presente à luz da urgência do passado, o método que irriga o trabalho de Adriana Varejão e nos faz batizar a presente exposição de ‘Pele do tempo’”.

A obra Transbarroco preenche uma das salas. É a primeira e, talvez, a única criação em que a artista carioca abre mão da pintura e utiliza o vídeo como suporte. São quatro projeções que compõem a videoinstalação. Recorrente nas obras da artista, desde os anos de 1980, quando deu início aos seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ), o teor barroco persiste. Igrejas brasileiras atuam como personagens centrais da videoarte – são elas: Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto; Ordem Terceira de São Francisco, no Rio de Janeiro; Sé de Mariana, em Minas Gerais, e a Igreja de São Francisco, em Salvador.

Na denominada “Sala de Referências”, encontram-se as fontes primárias que permeiam o complexo repertório criativo da artista, percorrendo da arte barroca à colonização, da China à azulejaria, da história da arte à arte religiosa, da cerâmica aos mapas. Compreende livros, objetos, filmes e trabalhos de artistas consagrados, como do argentino Lúcio Fontana, referenciado por Adriana na obra Parede com incisões à la Fontana, de 2000.

O recinto seguinte à direita é marcado por obras que evidenciam territórios culturais. Camadas de tinta revelam anjos de tradicionais obras barrocas manchados de sangue. Nessa instância, Adriana Varejão rearticula o universo barroco, revelando uma faceta perversa e bárbara. A herança colonial portuguesa é exposta não do ponto de vista vencedor, mas dos vencidos, tornando evidente a violência da miscigenação.

O lado esquerdo abriga as obras em que o aspecto polissêmico da arte se manifesta com veemência. A série tridimensional Ruínas de Charques, fere, violentamente, o ato de contemplação e prazer; entranhas que parecem pulsar são estranhamente contidas por azulejos. Em seguida, algumas obras da série Saunas e Banhos devolvem a placidez e o silêncio, a possibilidade de observação de questões mais próprias da pintura, como perspectivas, variações de luminosidade e saturação monocromática. Inédita no Brasil, a grande tela, O Iluminado, de 2009, chama a atenção pela vivacidade, recortes de luz e sugestão de uma presença inexistente. Por fim, a exuberância erótica dos pratos arremata esse percurso.

Serviço
Adriana Varejão – Pele do tempo
Abertura | 25 de agosto de 2015, às 20h
Visitação | 26 de agosto a 29 de novembro de 2015
A visitação ao Espaço Cultural Airton Queiroz é gratuita e pode ser feita de terça a sexta, das 9h às 19h; sábados, das 10h às 18h; domingos, das 12h às 18h
Espaço Cultural Airton Queiroz – Campus da Universidade de Fortaleza
Av. Washington Soares, 1321 – Edson Queiroz.

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