A diaba da pintura dança um arrocha com deus

O dedo de deus já não busca o de Adão e toca no cu de um vira-lata do tipo puro, daqueles que não tomam banho em petshop e têm o rabo como deve cheirar no mundo dos bichos. Se o sopro de vida no monumental afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina teria dado vida ao primeiro homem, aqui essa centelha vai do indicador de deus para o corpo do cachorrinho levantado pelo braço esquerdo de uma jovem que ri de forma escrachada, um autorretrato da artista. Ela, em gozo, faz um sinal com o dedo médio enquanto ergue o bicho, num brinde à vida, a liberdade e a nossa natureza animal. Essa é a maior tela e fica logo na entrada da exposição “Nobres sem Aristocracia: Projeto Vira-Latas Puros No. 51”, de Camila Soato, que inaugurou ontem, 7/10, na Zipper galeria, em São Paulo.

Camila Soato dança sobre os degolados

As citações da História da Arte não param por aí. Na área central da galeria, duas das outras seis obras homenageiam Artemísia Gentileschi (1593-1654), uma pintora barroca italiana da mesma época de Caravaggio que se dedicava a temas feministas. Artemísia foi a primeira pintora mulher, em uma época em que só homens podiam ser artistas. Temos então duas Judites (ou Salomés) decapitando Holofernes, numa pintura que revela potência a cada pincelada. Mas se há o trágico nessas cenas, tudo em Camila flerta com o que ela chama de “fuleragem” e logo aparece ela dançando um “arrocha” em cima da degolação ou, em ar mais mítico, fazendo uma espécie de passinho de um possível funk do Olimpo. Nessa tela, também aparece o duro do seu Madruga, do Chaves, em uma nota de um real.

Em muitas obras, o autorretrato da artista compõe a cena. Ela aparece com marretas, chifres, vassouras de pelo animal, toalhas gregas, havaianas penduradas nos braços, brincando em performances que a artista faz sozinha no seu ateliê e registra.  Quase sempre com os seios nus e naturais, Camila aborda com seu humor escrachado questões do empoderamento da mulher e da liberdade.

 

Vassouras, rodos, chinelos havaianas, máscaras de gás

Em uma das telas (centro da foto acima), uma índia com um short nas cores da bandeira gay segura uma vassoura e um rodo em posição de guerra. Atrás, como um anjo, uma menininha usa uma máscara de gás, como aquelas adotadas durante as últimas manifestações pra fugir da polícia do estado. Na parte inferior, Marina Silva aparece fazendo um sinal de okay com as mãos. Aqui, uma referência direta aos riscos de opressão e limitação de direitos quando valores religiosos podem ser adotados.

No nobre suporte da tela, ela mistura temas chulos para propor um embate. Com uma pintura a óleo figurativa, Camila flerta com a profundidade do reles, o ouro do sujo, o brilho do obsceno, a luz do ordinário e a realeza de todos nós vira-latas puros. “Nenhuma pincelada fica solta na sujeira bege, porque essas cenas não estão no puro caos incivilizado. Elas têm desenho e composição, se sustentam na clareza das linhas verticais, nas grades, que vêm da forma ao que seria imediatamente repulsivo. Organizando a cena, funcionando como contorno, as linhas verticais permitem que o olhar escrutine cada lambida, cada calça abaixada. São listras praticamente atraentes, decorativas. Apolo a serviço de Dionísio”, escreve a curadora Paula Braga. 

o papa com um chapéu de fritas

 

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