A obra de arte contemporânea é apenas a ponta quebrada do lápis

© Mariana Rocha e Olivia Viana / Divulgação

Uma das maiores dificuldades da arte contemporânea é que, muitas vezes, o que é exposto é apenas um registro ou ponto final do que foi a obra de arte, o que dificulta a experiência com ela.

Essa é uma situação simples quando pensada para o teatro, pois uma imagem de uma peça não é a peça.

Quando vemos essa imagem da peça Romeu e Julieta do Grupo Galpão, imaginamos que a leitura da célebre peça de Shakespeare ganhou contornos mambembes, mas atrelamos esse pensamento à necessidade de ver a peça e saber como ela é representada.

Essa mesma situação acontece na arte contemporânea, mas não com o mesmo resultado. Após a modernidade a arte expandiu seu campo, ou seja, deixou de ser um ponto final exposto em um ambiente e passou a incluir o processo. Isso significa que a obra de arte visual se transformou em acontecimento, o qual tem como subprodutos materialidades diversas. Como no trabalho das artistas belorizontina Mariana Rocha e Olivia Viana.

Esse trabalho é uma performance em que Mariana e Olivia estão conectadas pelas pontas dos longos cabelos. Enquanto Olivia permanece de pé, de olhos fechados, no meio de um círculo imaginário que tem como raio o comprimento dos dois cabelos, Mariana gira no entorno, enforcando Olivia lentamente. São realizadas várias voltas, em velocidades e sentidos diferentes.

Como em toda performance a ação acontece em um lugar e tempo determinados. O que leva à seguinte questão: do que consiste a obra de arte “Preparação para o Abutre I”? Consiste somente da ação? Ou são as fotografias?

Assim como a foto da peça do Galpão, a fotografia dessa performance não resume a obra inteira, mas também é parte dela. Todavia, as fotografias são o que permaneceu da ação ocorrida. Essa é uma das diferenças entre o teatro e as artes visuais. O teatro tem em sua estrutura a ideia de que existe uma temporalidade que se repete em locais e momentos diferentes. Nas artes visuais, não há uma associação entre o que é exposto e uma ação. Espera-se um trabalho que tenha fim em si mesmo. Além disso, nas artes visuais, muitas vezes, a ação acontece apenas uma vez. O que significa que o que circula em espaços expositivos, ou seja, o que se repete em locais e momentos diferentes são os vestígios.

No entanto, nem sempre isso ocorre exatamente dessa maneira, pois às vezes a proposta do artista é o vestígio final, o que significa que toda a ação é configurada para gerar uma materialidade a qual é ao mesmo tempo a ponta do lápis, mas que engloba o lápis inteiro. Esse é o caso da obra Estudos sobre o tempo também de Mariana Rocha, em que foram feitas fotografias no decorrer de um dia no qual a artista pesquisa seu próprio corpo como a um estranho.

Essa é uma foto-performance, ou seja, é uma performance feita para ser fotografada. O que significa que sua ação não acontece em um tempo e espaço previamente agendados, mas acontece enquanto processo para realização das imagens. O que significa que, nesse caso, as fotografias não atuam como vestígio, mas como uma espécie de obra no espaço expandido, ou seja, de arte não como um objeto finalizado, mas de arte como sinônimo de ações, situações, que ocorrem no mundo e que podem ser materializadas de várias maneiras. No entanto, essa materialidade é co-dependente da ação, seu universo de representação engloba todo o processo. É nesse sentido que a obra de arte contemporânea é apenas a ponta quebrada do lápis.

Os problemas que surgem desse exemplos podem ser resumidos nas seguintes questões :

São esses vestígios obras de arte? Se estamos pensando a obra de arte como um objeto finalizado e autônomo, a resposta é não. Mas se pensarmos a obra de arte como ações, acontecimentos que geram materialidades diversas as quais são utilizadas para exibição posterior dessa ação, sim!

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