© Cortesia Yoko Ono

O reconhecimento recente outorgado pela 53º Bienal de Veneza a Yoko Ono (Tókio, 1933), com o prêmio Leão de Ouro pela sua trajetória tão diversa, recoloca a sua obra em plena atualidade, assim como além dos restritivos círculos artísticos da arte conceitual ou de vanguarda. O que já aconteceu também no mundo da música, com as leituras de seu trabalho por parte de diversos grupos pop em Yes, I am a witch (2007), que também enfatizavam a sua pioneira mensagem feminista.
Em sua múltipla experiência criativa de happenings, performances, filmes, música, desenhos, objetos, registra-se o mesmo caráter inconformista, a favor de uma liberdade íntima que nunca deixou de ser ativa, antes ou depois de sua histórica ligação com John Lennon, assim como durante o famoso período dos anos 60/70, nas numerosas parcerias com ele.
A pedido de Yoko Ono a entrevista foi feita por e-mail, e revela um discurso essencial, sintético, que estreita o ver, pensar e agir no mundo, como aquela receita/instrução da própria artista: “disponha seu quarto do jeito que você deseja que esteja sua mente”. A predileção afetuosa pelo Brasil evidencia as suas diversas mostras expositivas (atualmente faz parte da coletiva Arte para Crianças, no SESC Pompéia, São Paulo) e esta entrevista exclusiva para DASartes.

DAS – Desde o começo, a presença da música é capital em sua obra. Seu primeiro sonho foi ser compositora, contra a família e a tradição…quase uma posição feminista pioneira. E muitos trabalhos seus, sobretudo em certa época, tinham expressamente o nome de peças. Elas funcionavam às vezes como instruções, como se fossem obras-partitura que poderiam ser transcritas e interpretadas de forma diferente, dependendo do contexto, os materiais, continuando a ser o mesmo trabalho. É compositora a definição mais abrangente sua?
YO – Eu não acredito em definições. Eu nunca sou definitiva.

DAS – Antes da formação do movimento Fluxus, você já era artista. Depois de Fluxus, também, claro. O que significou Fluxus para você, naquela época que arte e cotidiano estavam tão juntos, com experiências feitas em seu mesmo apto.?
YO – Fluxus nunca significou nada para mim. Eu talvez tenha significado alguma coisa para Fluxus.

DAS – Entre os diversos nomes procedentes da música, e com quem você manteve alguma relação ou parceria, há nomes como La Monte Young (Chamber street series), Toshi Ichiyanagi, Anthony Cox e, além de John Lennon, há um lugar destacado para John Cage. Você foi aluna e realizou tournê com ele pelo Japão. Como foi essa experiência primeira, tão radical artisticamente?
YO – Você me chama de estudante de Cage. Você pensa nessa palavra, estudante, automaticamente, porque eu sou uma mulher? Eu era mais justamente uma amiga, nunca estudei com ele, e algumas vezes ele viajou comigo.

DAS – O Japão oferece a sua raiz biográfica, mas desde os anos 60, você mora em Nova York. De alguma forma, você se tornou numa ponte entre o Oriente e o Ocidente, mas que lugar ou que peso tem o Japão numa cidadã do mundo?
YO – A primeira vez que eu estive em N.York eu tinha 4 ou 5 anos. Eu também vim a N.York depois da guerra quando tinha quase 18 anos. Nos anos 60, eu deixei N.York e fui para Londres. Meu destino tem tantos níveis que até para mim é difícil seguí-lo.

DAS – Você tem admitido, mais de uma vez, ser influenciada pela História e pela sociedade. A política e as questões sociais fazem parte do seu trabalho. É uma influência maior que o pensamento zen, por exemplo? Ou melhor, como se articula seu lado oriental com as questões contingentes, das circunstâncias?
YO – Eu deixei isso para os críticos falarem sobre a minha multinacional existência. Eu me sinto muito afortunada por ter feito muitas pontes que amo.

 

DAS – “A mensagem é o meio. Sem uma mensagem, o meio é apenas decorativo”, segundo as suas palavras. Quando seus trabalhos são nomeados “uma forma de desejo”, sua obra se pauta por essa vontade de comunicação de chegar aos outros?
YO – Não. Meu anseio está focalizado sobre a procura de mim mesma.

DAS – O uso das palavras também é parte do seu trabalho mais conceitual. As frases-poemas-instruções-ação (como no livro Grapefruit, 1964) são fórmulas de comunicação quase oral, instruções de uso para fazer parte da obra: ser a obra. Não há diferença entre objeto e comportamento nesta liberdade. Liberdade sempre como conquista íntima, contra nossas resistências internas e externas?
YO – Eu não tenho nenhuma resistência com a liberdade. A resistência é dada pela força de fora. As pessoas suspeitam sobre quem é livre, incluso quando só se é um pouco mais que elas.

DAS – O encontro com John Lennon em Londres, em 1966, foi a descoberta de uma forte sintonia. O lado mais inquieto e heterodoxo de Lennon saiu à tona a partir dessa sua relação. Vocês fizeram muitas coisas juntas, a partir daquela colaboração numa instalação em 1967 com garrafas de ar de Lennon, as experiências musicais, vídeos, e algumas ações/performances fazem parte da iconografia da contestação artística do século XX (Bed –in, os cartazes anti-bélicos de War is over entre muitos outros). O que John Lennon ofereceu a Yoko Ono, artisticamente, em tantas colaborações?
YO – Entendimento e amor.

DAS – A palavra evento para você sempre foi mais rica que happening. Evento sempre foi uma situação intersubjetiva, e muitas vezes com atos sem importância… Continua valendo para você esse termo?
YO – Pela falta de outra palavra melhor, sim.

DAS – A partir de 1986 há uma retomada de sua atividade mais plástica, como o começo das esculturas em bronze, depois uma retrospectiva no Withney Museum. Como foi esse giro, depois de tanta aventura musical?
YO – Eu não me importo em usar qualquer coisa, se estiver inspirada para isso. Eu não gostaria de me ver sendo uma snob frente a um material como o bronze. Isso só pode me reduzir. Eu não chamaria isso de uma atividade plástica, o bronze não é plástico.

DAS – A propósito de Painting to hammer a nail, uma peça (em suas diferentes versões) que funciona como uma redenção pelo seu forte imaginário, você chegou a dizer que também funcionava para fazer uma substituição: a sua reverência pelo abstrato para a uma reverência com a vida. Poderia ampliar a passagem para esta afirmação?
YO – Isso encoraja as pessoas a participarem. Não há nada abstrato sobre a participação das pessoas. Isso é real.

DAS – Há diversos objetos, peças como poemas-objeto, que são balanças, como a emblemática Half a Room (1967). Há uma preocupação grande pelo equilíbrio, ante a fragilidade existencial…?
YO – Todo ritual está feito com a crença de que pode ajudar na balança espiritual dos tempos. A vida é sempre delicada.

DAS – O Brasil adquiriu uma certa importância expositiva em seu trabalho; nos últimos anos já houve duas mostras individuais (Tree of wish of Brasil, Brasília; Yoko Ono-Uma Retrospectiva, São Paulo) e uma coletiva ainda em curso (Arte para crianças, Vitória e outros lugares do Brasil). Há duas obras doadas recentemente ao MAC, de São Paulo (Morning Beams e Riverbed), você tem um trabalho com esquifes e árvores (Ex it), com alguma inspiração em fotografia de Sebastião Salgado. E até se falou de uma possível obra futura em parceria com Tomie Ohtake, não? São vários pontos de comunicação e caminhos…O que lhe atrai do Brasil?
YO – Eu me apaixonei pelo Brasil. Amor não tem razão.

DAS – Recentemente um painel quebra-cabeças foi inaugurado na ONU, em N.York, com 67 peças que simbolizam os 67 milhões que sofrem de autismo no mundo. O leilão das unidades fazia parte de uma operação para levantar fundos nessa causa humanitária no Dia Mundial da Consciência sobre o Autismo. Você continua sendo ativista, defendo certas causas, contra a violência com animais, entre outras coisas. A paz para você nunca foi uma palavra vazia, gasta ou um sinônimo de passividade.
YO – A Paz é um verbo.

DAS – Com Yes, I’m a witch, o disco de 2007, parece que houve uma recuperação e releitura de suas propostas sonoras e musicais. Grupos da vertente indie, como Flaming Lips, Le Tigre ou Cat Power, reconciliaram passado e presente, vanguarda e pop. E agora aquela exata frase de Lennon de que “Yoko era a artista famosa menos escutada no mundo” está ficando só histórica. Até houve duas músicas, remixadas, nas listas dance (em 2003, 2004). Você se considera uma artista indie? Como você vê esta aproximação tão nova à sua musica, o casamento vanguarda e pop?
YO – Eu sou precisamente o que sou. Não coloco etiquetas em mim.

DAS – Toda a sua obra acaba de ser premiada com o Leão de Ouro da 53 Bienal de Veneza. Paolo Baratta, seu presidente, puntualizou a dedicação de toda uma vida à renovação da linguagem plástica, a sua pesquisa, e a sua poética incorfomista e de ativismo pacífico… Este reconhecimento se junta agora àquele musical. Apesar de que as atrações entre a vanguarda mais conceitual e o pop nunca foram fáceis, a situação vem mudando a seu favor. O que lhe interessa mais agora em seu trabalho, em sua prática artística?
YO – Eu estou apaixonada pelo trabalho criado para Veneza este ano. Trata-se de um trabalho a partir de um conceito completamente novo.

DAS – “Com minha arte, música e filmes abri janelas”. “Meu propósito é ativar a fantasia do espectador”. A liberdade da imaginação como estratégia vanguardista é ainda sua razão poética, contra os esquemas estreitos, redutores…?
YO – Eu gosto de abrir janelas. Você não?

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