© Pittsburgh, EUA

DASARTES 15 /

Warhol TV

Na tela. na foto e, agora, na TV

A exposição Warhol TV, em exibição no Oi Futuro do Flamengo, Rio de Janeiro, com a curadoria de Judith Benhamou-Huet, reúne os arquivos do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, referentes à sua produção menos conhecida: seus trabalhos criados para a televisão entre os anos de 1979 e 1987, este úlimo o ano da sua morte. Com uma pequena equipe liderada por Vincent Fremont, seu amigo e produtor, Warhol realizou diversos programas para a TV. Apesar de o artista diferenciar tais produções daquelas inscritas num universo estético, é possível localizar um atravessamento das duas práticas.

Segundo Fremont, Warhol não editava os programas, contudo acompanhava o processo interferindo na sua finalização, fazendo prevalecer a sua personalidade. Ainda como mencionado por Fremont, Warhol sempre saturava as cores. Cabe endossar que os programas exibidos nesta mostra revelam seu olhar estético, que marcou significativamente as práticas artísticas na contemporâneidade.

A inserção de Warhol na realidade americana capitalista, notória em suas obras, fazia-se presente no seu cotidiano. O artista, admirador assumido da televisão popular, acompanhava sua programação diariamente. “Sempre suspeitei que estava assistindo televisão ao invés de viver a minha vida”, com essa afirmação, Warhol demonstra o modo pelo qual via o mundo. De forma indissociável, vida, arte e mídia definem-se como poética do artista. A produção de Warhol para a televisão sinaliza a sua admiração pela essência popular e onipresente deste veículo de massas, cujos valores, vinculados ao mercado de consumo – culto à juventude, à beleza, às celebridades etc. – constituem-se tema das suas obras. De modo recorrente em seus trabalhos está a dedicação à fama, à fetichização, ao sexo, à vida social, desenhando a Nova Iorque dos anos 1970 e 1980. A presença física constante e marcante do artista nesses programas de televisão é também relevante. Aparência blasé, rosto maquiado e o uso de uma peruca branca colaboram na sua mise-en-cene. Soma-se a isso suas declarações ambíguas e lacônicas, que oscilam entre realidade e ficção. Tal contraponto irá formar o perfil dos seus programas.

Conhecido como uma das figuras mais controvertidas da Pop Art, Andy Warhol adotou, num gesto pós-duchampiano, a produção mecânica da imagem em substituição ao trabalho manual. Para o artista, as personalidades públicas convertiam-se em figuras inócuas, apesar do status de celebridade, sendo esse também o destino de diversos objetos de consumo, como garrafas de Coca-Cola, as latas de sopa Campbell, automóveis etc. De acordo com Giulio Carlo Argan, a Pop Art não é um movimento ou uma tendência. Segundo Argan, o termo popular é impróprio à medida que a Pop Art não é expressão da criatividade do povo, mas sim da não criatividade da massa, do desconforto do indivíduo frente à massificação da sociedade de consumo.

A exposição Warhol TV foi apresentada anteriormente no Centro Cultural de Belém, no Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal. Agora, no Oi Futuro, mantém as suas especificidades, visto se tratar de uma mostra que não pode ser visitada rapidamente. Nas duas instituições referidas, foram criadas estruturas expositivas que convidam o espectador à permanência. São apresentados ao público os programas: Fashion (10 episódios, 1979-80), Andy Warhol’s TV (18 episódios, 1980-82) e Andy Warhol’s Fifteen Minutes (5 episódios na MTV, 1985-87).

O ineditismo da exposição se deve aos esforços de Judith Benhamou-Huet, que pesquisou exaustivamente os arquivos do Museu Andy Warhol, além de depoimentos obtidos dos colaboradores do artista. Os programas fazem parte do acervo do Museu, são considerados obras de arte e não estão disponíveis na internet.

É fato que a intimidade de Warhol com as lentes das filmadoras vem desde os anos 1960, quando o artista realizou vários filmes, dentre eles, Sleep, em 1963, e Kiss, 1963-4. A relação entre o filme e a televisão se torna evidente já em 1964, quando o artista realiza Soap Opera or the Lester Persky Story. No filme, uma jovem tem sua fala interrompida pelos anúncios de Lester Persky, um produtor de anúncios de televisão. A prolongada duração das obras, algumas vezes exibidas em slow motion, converte-se numa tentativa de ruptura com o modelo ficcional do cinema tradicional, cuja temporalidade é determinada pelos cortes, ou seja, pela descontinuidade. O tempo, aspecto marcante nos filmes de Warhol, retrata a realidade.

Em suas primeiras produções cinematográficas, Warhol, tal qual um voyeur, não interferia nas ações gravadas, como dormir, beijar etc. Sendo autor da obra, apropriava-se da verdade inscrita nas ações dos seus amigos-personagens. Diferentemente de um diretor de cinema, Warhol não imprimia o seu olhar, senão afirmava as ações praticadas. Mais tarde, passou a orientar os atores. Contudo, tratava-se apenas de indicadores de ações ou de algumas falas. O sentido do real, preeminente nos filmes do artista, apresentava-se na eleição do seu elenco: pessoas marginalizadas, travestis, viciados, artistas em início de carreira, todos frequentadores do The Factory, atelier colectivo de produção artística.
No final da década de 60, o barateamento e a difusão do vídeo fomentaram o seu uso na arte, especialmente por aqueles que já experimentavam as imagens fotográficas ou os filmes. Em 1970, Warhol adquire a câmera Sony Portapak – com portabilidade, visto que abastecida com bateria –, tornando-se clara a sua ação futura na realização de programas de televisão. Vale lembrar a fragilidade técnica e potencial dos primeiros modelos de televisão no mundo, quando a imagem fazia par às limitadas possibilidades técnicas oferecidas. Se as serigrafias de Warhol, misto de pintura e fotografia, assumiram de modo ambíguo uma artesania no que se refere ao seu aspecto técnico-visual, os programas de televisão do artista estavam ligados a esta estética. Ambos, serigrafia e programas de televisão, assumiram potencialmente os ruídos das limitações técnicas como estrutura poética.

Oi Futuro Flamengo
Wahrol TV > Até 3 de abril
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo > Tel: 21 3131 3060
De terça a domingo, das 11h às 20h
www.oifuturo.org.br

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