Waltercio Caldas, a potência do gesto

© Cortesia MAM, foto: Paulo Costa

Sentado no terraço da Anita Schwartz Galeria, no Rio de Janeiro, Waltercio Caldas contou um dos melhores comentários que já ouviu sobre sua produção. Um amigo costuma dizer que seu trabalho é difícil de descrever porque a simplificação que está implícita em toda descrição o torna ridículo. De fato, um olhar rápido pelas duas salas da galeria poderia sugerir que trabalhos como uma estrutura de aço, suspensa pelo teto, com esferas de ônix apoiadas sobre placas de acrílico, ou uma estrutura de aço inoxidável presa à parede e a palavra “simples” escrita em vinil autoadesivo, ou ainda uma série de oito módulos feitos em papel-cartão pautado, desses usados em escritório, não despertaram grande interesse.

Ao contrário, entre os meses de setembro e novembro, a galeria carioca apresentou a produção mais recente de um dos mais importantes artistas contemporâneos brasileiros. Na sala principal, um grande cubo branco de sete metros de altura e 200 metros quadrados de área, estavam cinco esculturas de grande porte – uma delas é recente, feita este ano, e nunca foi mostrada. As outras quatro eram inéditas no Brasil, e só foram vistas em exposições realizadas recentemente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em Madri e em Los Angeles. As demais obras foram feitas este ano, e até então nunca apresentadas. Já no segundo andar expositivo, ficaram reunidos oito objetos de papel na parede, que se relacionavam com quatro desenhos e outros objetos também em papel, dentro de uma vitrine.

“Essa exposição teve como atitude não se apresentar como um evento e sim como uma reunião de objetos para os quais você precisa do olhar e da atitude para observar. É uma declaração tridimensional do lugar das coisas perceptíveis”, afirma Waltercio. “O objeto vive da energia que ele é capaz de gerar. De certa maneira, ele inventa o espaço que vai ocupar. Essa é a principal característica da escultura: a possibilidade de inventar um lugar que é ocupado por ela mesma, a potência do ato”.

O conjunto revela a simplicidade e a precisão como características marcantes da produção do artista. “Quando uma pessoa entra no meu trabalho, ela passa pela porta da precisão, mas depois percebe que as decisões precisas que o compõem são na maioria das vezes arbitrárias. Não nego meu extremo prazer em utilizar a precisão. Sou um amante das ciências exatas, mas considero a matemática um delírio. Ou, como dizia Lygia Clark, cérebro também é víscera”, lembra rindo Waltercio Caldas. Por isso, para o artista, a tradicional dicotomia entre razão e emoção é uma luta falsa. “Nosso problema hoje é a luta contra a insensibilidade. A questão não é mais a sensibilidade e sim até quando temos que resistir à insensibilidade para tornar possível uma mínima disponibilidade para as coisas. Lutamos contra o fato de que o mundo está nos tornando insensíveis, está nos deixando indiferentes. E essa indiferença produz fatos estéticos indiferentes”, revela.

Admirador confesso da história da arte e de artistas como Diego Velázquez, Auguste Rodin e Constantin Brancusi, Waltercio Caldas aponta como um dos principais problemas da arte hoje a miríade de soluções encontradas pelos artistas contemporâneos, em grande parte apoiadas no uso da tecnologia. “Sempre evitei qualquer tipo de relação com a tecnologia, que para mim é limitadora. Ela vende suas limitações como se fossem grandes vantagens”, revela o artista. E recorda quando os computadores surgiram e um amigo disse: “Olha só que maravilha! Tem 5 mil cores!”. Na mesma hora, Waltercio lembrou de seu professor Ivan Serpa, em 1963, contando sobre um estudo que tinha revelado que as telas de Matisse reuniam cerca de 5 mil amarelos. “Só os amarelos! E aquela pessoa estava me vendendo um computador como se fosse algo maravilhoso. A tecnologia é toda limitada. Você escolhe o que fazer entre as opções que a máquina lhe dá. Quando você trabalha com a tecnologia, você na realidade não concebe. Você escolhe, prefere, julga…”, avalia.

Se a Anita Schwartz Galeria revelou parte da produção recente do artista, o Museu de Arte Moderna (MAM) da cidade fez um pequeno retrospecto da sua produção. Depois de passar por Vila Velha em 2009, a exposição Salas e Abismos chegou ao Rio de Janeiro ampliada, reunindo doze obras (ambientes) de Waltercio Caldas, 90% das quais jamais exibidas no Rio de Janeiro. Os trabalhos foram desenvolvidos ao longo dos 40 anos de carreira do artista e projetados para ocupar locais específicos, onde o espaço é tratado também como um elemento de cada uma delas. Daí a designação de ambientes para as obras. Mas os doze trabalhos nunca tinham sido exibidos juntos, o que ocorreu agora pela primeira vez. A seleção foi feita por Waltercio, considerando a área da exposição, onde cada trabalho ocupa deliberadamente o espaço, ou seja, nada é aleatório e corresponde aos princípios poéticos da obra do artista. “A intenção de cada obra estabelece uma relação com as obras que estão ao lado. São esculturas, objetos, livros de arte, projeção de imagens, obras que se confundem com o espaço que ocupam”, ressalta Waltercio.

Entre os trabalhos mais antigos da exposição, estavam O Jogo do Romance, de 1978 – uma projeção simultânea de duas imagens clássicas do Rio de Janeiro à noite, onde o artista evidencia 100% da luz do projetor, a partir de uma perfuração nos slides – e Ping-Ping, de 1980 – uma surpreendente visão de um jogo de pingue-pongue jogado por um cego, que faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Outros trabalhos se reencontraram com o público carioca. Foi o caso de Sala para Velázquez, exibida pela primeira vez em 2002, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, durante a mostra de pintura italiana. A sala apresenta o Livro-obra Velázquez, a tela Los Velázquez, alguns desenhos preparatórios, e trabalhos referentes ao que o artista denomina “o funcionamento dos espelhos”.

Salas e Abismos marcou o reencontro do artista com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Foi lá que, durante os anos 1960, teve aulas com o artista Ivan Serpa e depois participou de sua primeira exposição coletiva, há quase 40 anos: o Salão de Verão de 1971. O MAM também foi palco da primeira exposição individual de Waltercio Caldas, em 1973, considerada a Exposição do Ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte.

“Ivan Serpa sabia exatamente localizar onde estava o interesse e às vezes até os desejos escondidos nas expressões de cada aluno. Isso era muito importante naquele momento, em que a gente não tinha nem noção do que era ser artista. E essa falta de modelo, de certa maneira, permitiu que toda minha geração criasse, cada um de nós, um modelo próprio”, lembra Waltercio. Talvez a busca desse modelo próprio tenha possibilitado que artistas como ele, Cildo Meireles, Tunga e José Resende, da mesma geração, produzissem trabalhos que passam por caminhos tão diferentes. “Isso mostra um pouco a saúde da hora. Às vezes, você está em uma situação muito favorável porque é muito difícil. Ela é favorável justamente por isso, mas você só compreende a dimensão daquela situação anos depois. Felizmente nós passamos por uma situação em que o laboratório da possibilidade da arte estava em franca atividade. Costumo dizer que faço parte de uma geração sem slogan, e Deus sabe o trabalho que nos deu manter essa autonomia. Você não consegue fazer nenhum trabalho que não tenha essa liberdade, que não possua essa declaração de autonomia. Porque a autonomia você conquista, mas é preciso ainda mais autonomia para preservá-la”, conclui.

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