© Bianca Cutait

Que referências você usa para seu trabalho?

Eu tenho muito interesse por ficção científica, mitologia – principalmente grega e literatura clássica. Gosto do (Luigi) Pirandello, do Cesare Pavese também. Minhas referências são muito mais dentro da literatura e do cinema, Fellini é um craque. Tenho minhas preferências em arte e são muitas, os concretos e neoconcretos, o Willys de Castro, o Guignard; o Warhol, por exemplo, é um artista que causa grande impressão em mim, lembro-me de uma mostra no MAM de São Paulo com filmes de ilustres parados diante da câmera e a série Shadows, no DIA Beacon. Mas eu gosto mesmo é de Rembrandt, Bernini, Donatello, Tintoretto.

Como você lida com a deterioração das obras?

Quando faço um trabalho, penso na perenidade dele – faço as fotos no melhor papel que existe, por exemplo. Muito raramente trabalho com coisas perecíveis. Acredito que há alguma coisa que atravessa os tempos, as pessoas, as relações humanas e tudo o mais. Por isso me interesso por coisas impalpáveis como a luz, ou invisíveis como o calor o frio, o ar em movimento. Eu gosto das relações entre corpos, entre os objetos e as pessoas, interessam-me as linhas de força que conectam tudo; tipo de uma cadeira e de uma pessoa, a luz que ilumina de algum jeito algum lugar ou alguém. Olho esses objetos, está acontecendo alguma coisa ali, mesmo que sem um propósito evidente, quando tudo se junta algo fica mais claro. Acredito que a experiência sensorial é importante, mas ela deve estimular o pensamento. Não acredito que estímulos sem sentido algum acrescentem algo à fruição estética ou à vida de cada um.

E o que isso representa para o espectador?

Na verdade, não é possível prever o que vai experimentar o público, seria muita pretensão. Eu sempre tento gerar curiosidade por meio dessas coisas impalpáveis, invisíveis ou inapreensíveis. O vento você sempre sente, mas não pode pegar. Ou a luz que você vê mas não toca, ou o calor que estimula mas não se pode deter, é apenas um instante. A impalpabilidade me atrai. A coisa tátil foi incorporada à experiência artística, mas a visão é ainda nosso sentido mais apurado.

O acredita uniformizar a linguagem de suas obras?

Uniformizar, não creio ser a palavra – ficaria muito decepcionado se eu pudesse julgar minha produção uniforme. Mas se for pensar em algo que liga minha produção, já que faço esculturas, fotos, monotipias, relevos, vídeos e performances, é essa vontade, que já mencionei de esculpir o invisível ou o impalpável.

Como são suas performances?

Eu comecei fazendo performances, é um ótimo lugar pra fazer prospecção. E, recentemente, voltei a pensar nisso – já que na ação muita coisa se manifesta – a relação com o público atualiza o trabalho e espero que o inverso aconteça também. Este ano pretendo fazer duas novas, uma delas acontecerá durante sete dias, por sete horas ao dia, em São Paulo. Há outra que eu talvez faça em outra cidade. Fazer muita coisa na cidade onde se vive ameaça o frescor da produção, embora meus trabalhos tenham uma aparência muito diferente do outro. Se há uma coisa que une todo meu trabalho é a vontade de detectar o que é comum a toda humanidade, aquilo que nos faz iguais em toda nossa diversidade ao longo das eras. Não se trata de achar que todos são iguais, mas especular com o que há de igual em todos. A chance de dar um fracasso é enorme, mas, e daí? Eu faço tudo o que eu tenho que fazer e meu trabalho eu faço como quero. Arte tem um tempo diferente do tempo do mundo, é quase uma âncora que nos detém um pouco mais no mesmo lugar e nos permite o tempo de refletir, permite as pessoas perceberem o que está entre elas. Os materiais têm seus limites, as coisas têm suas medidas, é legal pegar o que já existe e rearranjar. Eu gosto desta cadeira porque eu peguei três coisas: uma cadeira, um balão e um ventilador. A cadeira continua sendo cadeira, o ventilador continua sendo ventilador e o balão toma qualquer forma, mas é sempre um balão. Gosto da ideia da integralidade, no sentido de pão integral mesmo, cada grão está ali visível e cumpre uma nova função dependendo do outro que está ao seu lado. É meio como viver percebendo os outros.

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