© Vítor Mizael

A instalação do paulista Vítor Mizael apresenta uma série de desenhos, feitos com grafite sobre caixas de madeira, usadas no transporte de obras de arte. A imagem dos pássaros, desenhados com maestria técnica por Vítor e investidos de uma presença escultórica nas caixas tridimensionais, convida o olhar e seduz o espectador. Mas, uma vez “capturado”, esse observador é forçado a perceber algo de grotesco por trás da aparente delicadeza dos desenhos. Vistos de perto, todos os pássaros retratados na série possuem alguma deformação, algum aspecto bizarro que torna impossível sua existência: patas unidas, mutiladas ou exageradamente alongadas, cabeças seccionadas ou deslocadas, bicos quebrados, unhas desproporcionais – “a imagem do pássaro, normalmente utilizada como metáfora de liberdade, é inserida em situações de impossibilidade de existência e, assim, existem nestes desenhos como índices de uma morte latente”, diz Vítor.

Em trabalhos anteriores, já se tornara evidente o impulso de Vítor problematizar a dinâmica classificatória que ocupa um lugar proeminente tanto no campo da ciência, quanto no âmbito geral das artes – “estou muito interessado em meios de conservação, armazenamento, salvaguarda e restauro, e nos diálogos estabelecidos na eleição daquilo que será incorporado aos acervos”. Assim, o trabalho aponta para a fragilidade e arbitrariedade presentes nessas categorias que, em última instância, legitimam as escolhas do que deve ser resguardado ou descartado – “um tucano em zona urbana é imediatamente recolhido, já que há que se preservar a espécie, já um cão vira-latas somente será recolhido se estiver morto e seu corpo atrapalhando vias de circulação”.

Essas imagens, que operam nos limites entre a sedução e a repulsa, são construídas tendo como referência a imagem de pássaros comuns – “animais ordinários, vagabundos, encontrados em muitas casas de habitantes da periferia”. Referência importante, pois, para o artista, os pássaros domésticos servem como metáfora para as “pessoas que vivem à margem da sociedade e não possuem representatividade social, tampouco artística”. Para saber mais sobre o artista, acesse www.vitormizael.com ou www.blauprojects.com

 

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