DASARTES 30 /

Victor Pardini

Como de praxe, Victor começou comprando uma ou outra peça moderna, sob o encanto de muitas visitas a museus, e logo abraçou o vício e foi rumando para o contemporâneo.

Qual a primeira obra de arte que comprou?

Uma escultura de Brecheret, de 1919, que participou da Semana de Arte Moderna.

E por que essa obra?

Sou médico e, quando fiz meu doutorado na Escola Paulista, sempre passava pelo Ibirapuera e me encantava com as obras de Brecheret, que, para mim, eram inalcançáveis. Alguns anos depois de me mudar para BH, em 2001, apareceu em um leilão uma obra do Brecheret e fiquei surpreso ao saber que poderia comprar. E comprei.

E a última obra que comprou?

Foi uma Jenny Saville, comprada em um leilão fora, que está no meu apartamento em Miami.

Por que essa obra?

É uma pintura bem violenta. É uma inglesa gordinha e ela pinta uns autorretratos em que ela está nua e parece ter sido espancada. Comprei porque é do meu gosto.

De Brecheret a Jenny Saville. Fale um pouco mais sobre essa mudança de rumo na sua coleção.

No começo, comprei Ceschiatti, Bruno Giorgi, mas logo me aproximei da Celma Albuquerque e meu gosto foi tendendo para o contemporâneo. O primeiro contemporâneo que comprei foi Antonio Dias. Comprei também Tunga, Nelson Felix… Depois conheci a Raquel Arnaud e comecei a comprar Sergio Camargo e Mira Schendel, e por aí foi…

E por aí foi para onde?

Inicialmente, comprei o que era mais conhecido, depois, à medida que comecei a estudar, passei a arriscar nos que na época seriam mais jovens: Rennó, Efraim, Iole, Waltércio, que já eram consagrados, mas ainda representavam promessas. Depois, a coleção foi tomando um rumo em que cabia um Odires Laszlo e Rafael Assef. Tenho o primeiro tapume do Henrique Oliveira, da época em que ele fez uma exposição paralela à SP Arte. Em determinado momento, vi que a coleção ficaria muito limitada se focasse apenas nos nacionais e então comecei a frequentar feiras

internacionais e me interessei por artistas como Antony Gormley, Jaume Plensa, Leandro Ehrlich.

A frente obras diversas de Nuno ramos. Ao fundo, Krajeberg e Jason Martin.

E como vê sua coleção hoje?

A coleção tinha como base Goeldi e suas obras mais sombrias, com urubus – por influência de Nuno Ramos, que gosta muito dele. Ela evolui com essa personalidade expressionista, com certa sombra. Eu me acho extremamente repetitivo, mas eu sou eu, esse é meu gosto!

O que o leva a comprar uma obra?

Hoje, como eu já tenho muita coisa, tenho que ser mais seletivo. Por exemplo, quis comprar um Thomas House Ago e entrei em contato com as galerias. Não gostei do que vi disponível naquele momento. Aí começa a luta para ter o que quer: você tem que descobrir para qual galeria vai a próxima “fornada”, deixar seu nome na lista de espera… Quando comecei a comprar arte estrangeira, as galerias lá fora tratavam mal, uma coisa horrorosa, com desconfiança. Agora eles nos tratam superbem; quando um brasileiro liga, é festa.

Você cita bastante escultores. A escultura é uma mídia preferida?

Não necessariamente a escultura, mas o tridimensional. As pinturas de que gosto normalmente têm essa característica tridimensional, acho que elas têm mais potencial para mostrar emoção, a alma do artista. Talvez por isso as obras estejam caminhando para um rumo mais de “mini-instalações”.

Tem um sonho de consumo não realizado?

Queria ter um Lucien Freud.

Por que há tantas grandes coleções em Belo Horizonte?

Tem um grupo grande de colecionadores aqui, que se encontra com frequência, e achamos que um bom impulsionador foi o Bernardo Paz. O fato de ele reciclar muito sua coleção – o tempo todo comprando, vendendo e mostrando coisas novas – agiu como uma espécie de catalisador para entrarmos no mercado de arte contemporânea e começar a arriscar e fugir do padrão modernista que todos na época estavam comprando.

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