Resultados extraordinários em tempos tão difíceis… Por 374 milhões de euros, foi vendida em Paris a coleção Yves Saint Laurent e Pierre Bergé, a mais valiosa da história. Em meio ao drama financeiro mundial, como explicar uma série de vendas espetaculares, 95% dos 732 lotes vendidos, com obras de Matisse, Brancusi, Duchamp, Ensor, entre outros, batendo recordes de preço?

“Como um navio desafiando uma tempestade, o leilão se moveu com calma e segurança por meio de disputas e lances triunfantes”, disse o presidente da Christie’s Paris, François Ricqules. Aconteceu no Grand Palais, assinado pela Christie’s e pela Pierre Bergé Associados, que, para a exposição, reconstruíram o elegante – e milionário – apartamento da Rue de Babylone onde moraram o estilista e seu companheiro. Não faltou glamour nem cultura: a cada 15 minutos, ouvia-se a voz de Maria Callas cantando a Casta Diva, trecho musical predileto do grande mestre do prêt-à-porter.

Foi na venda de arte impressionista e moderna que saiu o lote mais caro da coleção: avaliado entre 12 e 18 milhões de euros, Les Coucous, tapis bleu et rose (1911), de Henri Matisse, foi arrematado por 35,9 milhões de euros. Mas não foi só da mágica de Matisse que viveram os recordes! Eles foram acontecendo um atrás do outro. Um deles foi a cadeira de Eileen Gray, a Dragon arm chair, peça-chave da obra da designer avaliada entre 2 e 3 milhões de euros e vendida por 21,9 milhões; depois de uma disputa acirrada entre dois telefones e um colecionador na sala, foi recorde para peça de mobiliário da época.

Raridade, origem, qualidade e paixão. Afinal, o que determina o valor de uma obra de arte? Todos estes atributos e, no caso deste leilão, mais alguns: a mídia, o glamour e o fato de as obras estarem “frescas” no mercado. Longe dos olhos dos colecionadores por tanto tempo, as peças dessa coleção chegaram aos seletos clientes por meio de catálogos caprichadíssimos: uma caixa com seis volumes, pesando dez quilos. Verdadeiros livros de arte, que incluíam fotos das salas e salões dos colecionadores, foram vendidos e logo esgotados, apesar de custarem 250 euros. Depois, veio a imprensa, que fez uma gigante cobertura. Resultado: mais de 30 mil pessoas enfrentaram imensas filas e não deram meia volta mesmo quando choveu. Vinham do mundo todo, mas sobretudo de Paris mesmo, fiéis ao hiperchic Saint Laurent – para eles, um ícone da cultura. “Gente de todas as idades e tipos, velhinhas e estudantes de moda, senhoras elegantes com bolsa Grace Kelly, turistas de mochila”, contou Jonathan Rendell, um dos diretores da Christie’s de Nova Iorque.

Quase não era preciso divulgação. A magia de Yves Saint Laurent é inesquecível. Artista, mestre das cores, ele trouxe o cubismo de Bracque e as linhas paralelas de Mondrian para a moda e foi sempre aplaudido de pé pelas divas e pela imprensa, que faziam questão do seu lugar na primeira fila. Como colecionador de períodos diferentes e de todos os formatos, provou ser um connaisseur, e sua coleção com Pierre Bergé, assim como a de um museu, fez valorizar todas as suas obras.

Com a grife YSL, no leilão também não faltou glamour. Na primeira noite, de novo a voz de Maria Callas, enquanto o staff, de black-tie, posicionava-se ao telefone. Na primeira fila, o fidelíssimo buldogue francês Mujik IV de Saint Laurent conferia… Eram cerca de 1.500 colecionadores, na maior sala de vendas que a Christie’s já organizou. Imperturbável, o leiloeiro François Ricqules, com total controle da platéia, aguardava com naturalidade lances que subiam de meio em meio milhão de euros para bater o martelo.

Peças raras, oportunidade única. Fãs de Marcel Duchamp certamente se deixaram levar pela paixão na certeza de nunca mais encontrar peça da importância do vidro de perfume Belle Haleine-Eau de voilette, de 1921, que traz na etiqueta uma foto de Rose Slavy, o alterego feminino de Duchamp, fotografado por Man Ray. No fim, o que se podia chamar de um simples vidro de perfume acabou saindo por quase 9 milhões de euros, seis vezes mais que a estimativa mais alta de 1,5 milhão.

A provenance – origem ou procedência – foi fundamental para o imenso sucesso. Afinal, os dois tinham um cuidado quase obsessivo nas suas compras: normalmente, não discutiam valor, mas faziam questão de uma super provenance. Um exemplo é a obra Madame L.R., uma das mais enigmáticas esculturas de madeira de Constantin Brancusi, vendida por 29,1 milhões de euros. Comprada por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé nos anos 70, pertenceu ao pintor Fernand Leger, que a recebeu de Brancusi em troca de uma tela.

Apesar da crise, quando o mercado de arte parecia retraído, os asiáticos menos entusiasmados, os comerciantes temerosos, não faltaram recordes: o leilão mais caro da Europa; a venda mais alta de prataria; a coleção particular mais bem vendida; a noite de impressionistas e modernistas mais espetacular! “Sem dúvida, os resultados provaram que existe liquidez real no mercado de arte e que obras raras com origem impecável geram imenso interesse e demanda”, concluiu Ed Dolman, diretor geral da Christie’s.

Como dizem os experts, qualidade excepcional, raridade, estado de conservação e origem são uma combinação de ingredientes que pode fazer disparar o preço de uma obra de arte. E quando se fala em paixão, o céu é o limite!

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