DASARTES 06 /

Uma Bienal de artistas

Proposta curatorial da Bienal do Mercosul reflete sobre o papel do artista hoje.

Com a proposta de trazer os artistas para o centro da discussão e reafirmar sua importância como atores sociais e constantes produtores de sentido crítico, a 7ª edição da Bienal do Mercosul chega ao público em outubro, tendo à sua frente um time de artistas-curadores. Com exceção da curadora independente Victoria Noorthoorn, que ocupa a curadoria-geral da mostra ao lado do artista Camilo Yañez, todos os demais curadores são artistas. Com essa decisão, a ideia de Victoria e Camilo é explorar a função curatorial como catalizadora, que incentiva a criação de novas propostas e situações ainda não pensadas. “Nossa curadoria se propõe a recuperar a confiança na energia criativa de artistas que refletem sobre o seu papel na arte hoje. Neste sentido, busca oxigenar os conteúdos da Bienal do Mercosul de forma a dar conta do momento crítico que atravessa o sistema de bienais”, explica Victoria.

Ao mesmo tempo em que as megaexposições e bienais estão enfrentando uma crise de saturação e buscando novos caminhos, elas foram um dos fatores favoráveis ao surgimento da figura do curador independente no sistema de artes. Figura esta que atualmente ocupa um papel de destaque, muitas vezes sobressaindo-se ao do próprio artista e do crítico de arte. A proposta de trazer o artista de volta à frente já foi explorada na própria Bienal do Mercosul, em 2007, mas não nas proporções atuais. Na ocasião, na mostra Conversas, o curador convidava um artista, que escolhia outros dois para dividir a sala com seu trabalho. A curadoria intervinha novamente e escolhia um quarto artista para também fazer parte da sala.

Pode-se afirmar que a curadoria realizada por artistas não muda a função principal do curador – conceber e organizar mostras, produzindo um sentido que possa ser apreendido e compartilhado com outros, seja o público ou os próprios artistas –, o que mudam são as maneiras de trabalhar e os resultados a que se chegam. “Arte é pensamento, o que permite uma gama imensa de possibilidades e alterações. É necessária a mudança de papéis para que essa liberdade seja exercitada, o que faz aumentar a qualidade de cada gesto destas denominações e repensar as categorizações da arte”, reflete Laura Lima, curadora da mostra Absurdo. Arthur Lecher, curador de Texto Público, acredita que o desafio está em transpor os pensamentos para a prática, fazendo com que eles se convertam em ações coerentes. “Talvez aí, enquanto artistas, tenhamos uma experiência que pode somar muito ao processo”.

De acordo com Victoria, os sentidos produzidos por artistas-curadores estão mais no caminho da resposta à própria práxis do que a preceitos teóricos definidos de antemão. “Nesse sentido, creio que assumimos uma dose maior de risco, o que é importante no trabalho com arte contemporânea”, afirma. Mario Navarro, curador da mostra A Árvore Magnética, concorda com Victoria: “Um artista-curador muitas vezes explora rotas e busca resultados baseados na explicitação da prática artística. Considero que a minha forma de realizar curadoria está intimamente ligada à minha forma de produzir obras”. Lenora de Barros, cocuradora da Radiovisual, e Marina de Caro, curadora do Projeto Pedagógico, também acreditam que as suas curadorias de certa maneira estão alinhadas com a sua poética. “Um artista sempre transladará sua poética em qualquer função ou atividade que realize”, opina Marina.

É justamente o pensamento poético que a 7ª Bienal pretende valorizar a partir do trabalho com os artistas-curadores. “Mas prefiro pensar que tenho o privilégio de trabalhar com nove intelectuais da cultura, cuja força conjunta permite questionar todas as certezas de trabalho, do que pensar que estou trabalhando com artistas em oposição a curadores profissionais”, explica Victoria.

Para amarrar a proposta curatorial com o público, o Projeto Pedagógico foi pensado a partir da prática artística e da importância da experiência como instância fundamental para entender os diferentes processos de trabalho, de ação e produção de pensamento. “Geralmente, as instituições desenham seus programas em relação a um estudo da obra com a finalidade de uma aproximação intelectual. Acredito, como artista, que o fazer é fundamental para acessar outros pontos de vista”, diz Marina.

Os sentidos que a curadoria feita por artistas vai produzir poderão ser apreendidos e vivenciados – e por que não criados? – nos 45 dias em que a Bienal do Mercosul fica em cartaz em Porto Alegre: de 16 de outubro a 29 de novembro de 2009.

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