© Cortesia da Fundaçnao Bienal do Mercosul

DASARTES 06 /

Um grito de 21.069.501 Km2

Após consolidar mais um eixo do circuito de arte no país, o enfoque da Bienal do Mercosul em 2009 coloca em cena os papéis do artista e do curador.

Surgida em 1996, a Bienal do Mercosul chega em sua sétima edição com um projeto inovador. O evento ocorre entre os dias 16 de outubro e 29 de novembro e conta com cerca de 150 artistas de mais de vinte países e outros 150 que participam por meio de emissões de rádio e do programa editorial. Ao todo, são sete mostras. Absurdo, Árvore Magnética, Biografias Coletivas, Ficções do Invisível e Texto Público ocorrem em armazéns do cais do porto, a última também invadindo a cidade com intervenções no espaço público. A mostra Projetáveis ocupa o Santander Cultural, e o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) recebe a mostra Desenho das Ideias. Após consolidar, ao longo desses treze anos, mais um eixo do circuito de arte no país, e promover o estreitamento do diálogo entre as diferentes produções da América Latina, ampliando-as também com outros países fora do subcontinente, seu enfoque em 2009 coloca em cena os papéis do artista e do curador não só em eventos de tamanho porte, mas, acima de tudo, como definidores de práticas e reflexões.

A proposta de uma curadoria planejada majoritariamente por artistas inscreve-se em um conjunto de transformações que desenharam a história da arte contemporânea. Investidas desta natureza mostram sua relevância desde os anos 1960, ao dissolver as fronteiras entre a crítica e o trabalho artístico, fato que promoveu a emergência de novos olhares, leituras e critérios de discussão da obra de arte. Consideradas as numerosas ações realizadas por artistas e intelectuais nestas quatro décadas, que vão de exposições a publicações de revistas, passando também pelo ensino, nota-se o quanto uma plataforma como esta agrega experiências decisivas para nosso meio artístico.

Outra questão fundamental diz respeito à inserção em um contexto cultural até então vivenciado aos trancos e barrancos: o relacionamento da arte brasileira com seus vizinhos, e de todos estes países entre si. Em um artigo de 1978 intitulado “Yes, nós temos artistas”, a historiadora e crítica de arte Aracy Amaral apontava tanto para a difícil recepção da arte latino-americana quanto para as aproximações críticas insuficientes a ela dedicada. Em virtude de novas circunstâncias, reconhecemos hoje um cenário diferenciado. Contudo, não se deve abstrair a permanência de dilemas. A atenção para uma nova geografia que extrapola o tradicional contato “insular” de cada um destes países com os grandes centros materializa um desejo afirmativo, bem como a convicção de termos construído manifestações portadoras de contribuições singulares, cuja complexidade não cabe mais no esquema matriz/influência/emulação. Histórias e trilhas a serem mais uma vez desbravadas e que seguramente trarão novas surpresas.

A proposta deste Dossier é oferecer ao leitor da Dasartes entradas e roteiros críticos para a mostra. Roteiros. Roteiros. Roteiros. “Era uma vez / O mundo” (Oswald de Andrade).

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