© Isabella Matheus

Não nos enganemos com esses objetos e as mesas que os suportam, com suas elegantes retas, curvas, círculos e ovais, com a calidez de suas cores e o dourado, luminosamente discretos. Não nos enganemos, pois, como indicam as cenas breves compostas pelos insólitos bibelôs, Debret, a série de Vasco Araújo, fala do sujo, do podre, do baixo.

As mesas e os objetos que parecem provenientes de saletas de outrora, no sítio eletrônico do artista são apresentadas como esculturas. Qualificação que, no entanto, não se refere apenas às pequenas figuras modeladas com fimo, mas aos grupos de elementos reunidos com elas. A princípio, mais pertinente talvez fosse remeter esses conjuntos ao universo das artes decorativas, ao mobiliário e aos objetos ornamentais que ultrapassam o cumprimento de necessidades práticas ou até delas prescindem. Entretanto, mais do que apenas agregar matéria ou desbastá-la, também foi e é possível à escultura resultar da justaposição de coisas, sejam elas modeladas, esculpidas, forjadas, fabricadas, apropriadas. Por outro lado, pode-se entender essas mesas como mais uma revisão dos pedestais, das bases que intermedeiam o mundo real e o da representação na escultura. Com mesas e miniaturas, esses conjuntos exploram fronteiras entre os campos escultórico e do mobiliário, e, confirmando suas tradições, afetam o espaço ao redor e os corpos que atraem.

Esses arranjos com peças que transitam entre a utilidade e a decoração parecem oriundos do refinamento polido de cômodos mais ou menos privativos de antigos palacetes. Entretanto, para além do ambiente doméstico, dos modos e modas dos salões, as figuras representadas, em sua maioria enredadas em cenas íntimas, em situações burlescas, picantes e violentas, instauram problemas, deflagram pensamentos que vão muito além do espaço familiar, da vida privada, embora ali brotem ou para ali refluam, sendo onde, talvez, se mostrem com potência maior.

Para que a reflexão se instaure e expanda é fundamental que os atributos plásticos pareçam opostos aos tópicos enfocados. Pois assim como a paleta das figuras, com tons nada exaltados, contrasta com as personagens, suas poses e ações, assim como a caligrafia elegante e uniforme destoa dos precipícios intelectuais instaurados pelo escrito, citações da História do Futuro do padre Antônio Vieira, também o desenho das mesas, bem como a disposição dos vários elementos sobre as mesmas, indica uma estruturação tranqüila, pacificada, que se quer herdeira do classicismo greco-romano, e simula contradizer as situações representadas. Entretanto, que os ovos tenham a mesma cor das mesas – a mesma pele? –, tonalmente similar às cores das figuras, é um indício de como orgânico e inorgânico estão irmanados na mesma conjuntura, estão afetados pela mesma problemática. Lembremos, com Adolf Loos, os enlaces entre ornamento e crime, assim como se casam, tensamente, nobre e torpe, elegante e tosco, frívolo e grave, leve e pesado, bom e mau gosto, limpo e sujo, viçoso e podre, alto e baixo. Como acontece muitas vezes na arte, essa fricção gera uma estrutura formal (auto)crítica na qual a morfologia e o tema são intrinsecamente afins, embora não coincidentes, determinando o conteúdo da obra.

Enquanto os elementos plásticos o sugerem por antítese, o texto de apresentação da série, publicado no sítio eletrônico do artista, explicita diretamente um dos objetivos das obras: “As figuras retratam acções entre brancos e negros reveladoras da relação sexual e social dos mesmos. A inserção destas figuras em ovos (de modo paralelo ao que acontece nos ovos Fabergé) deslumbra uma face mecânica, imperialista e despótica de onde resultou a criação de uma nova raça (a raça mulata).”

Nessa série de Vasco Araújo, o contato com o universo sociocultural afro no Brasil é intermediado por obras do artista Jean-Baptiste Debret e do padre Antônio Vieira, entre outras referências. Ao dizer que Debret elaborou “uma visão histórica, política, cultural e social do Brasil dessa época”, Vasco Araújo ajuda a perceber como ele também se situa na condição, bem comum atualmente, do artista como cientista social – mais do que os elementos morfológicos e até os temas da obra do primeiro, ao segundo interessam os objetivos, sentidos e alcances do fazer artístico. Contudo, enquanto aquele operava a partir de uma estranheza de cunho antropológico, o distanciamento deste é de cunho mais histórico do que geográfico. Entre Vasco Araújo e a problemática social afro-brasileira há a história da arte, da religião, dos costumes, do pensamento – há a história.

Com as apropriações que a constituem, a série Debret deflagra uma temporalidade simultaneamente ampla, difusa e algo descontínua. Artes antigas e modernas – escultura, joalheria, desenho industrial, caligrafia, oratória, teologia, filosofia – são articuladas para falar de ontem e de hoje, mas, também, como sinaliza a História do Futuro, de amanhã. Sim, falam de ontem, de anteontem, de muito antes, assim como de aqui e de alhures. Consequentemente, tempo e espaço dilatados estendem a problemática afro para além do Brasil do século XIX, fazendo pensar mundialmente na diáspora africana decorrente do tráfico negreiro e da escravidão. E estendem a problemática de Debret para além da questão afro. Fazem pensar nas explorações intersubjetivas para além de processos colonizadores e escravagistas, para além de dicotomias étnico-raciais.

Contudo, contrariamente ao que pode fazer supor esse caminho analítico, Debret não inverte a lógica do decoro ornamental para se revelar uma obra de denúncia. É, com certeza, uma obra de crítica, uma obra que parte do entendimento da arte também como crítica política. Mas que sabe tanto da necessidade de lidar com o sensível, quanto da possibilidade de deleitar-se nessa lida, assim como da obrigatoriedade artística de promover, ainda que tensamente, no limite, o prazer artístico.

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