Um Copo de Mar Após A Tempestade

Seis visões e história das Bienais

Esta é, sem dúvida, uma das edições da Bienal que mais suscitaram curiosidade, desde muito antes da abertura. Após a gestão atribulada de Manoel Pires da Costa, que deixou a presidência da Fundação Bienal com dívidas e suspeita de desvios; após a Bienal do Vazio, que escancarou todas as crises, financeiras, conceituais e estéticas; após a agressão dos pichadores contra o pavilhão de Niemeyer, respondida com truculência policial, os curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias fazem o que podem para recuperar o prestígio da instituição. Ao se concentrarem na relação entre arte e política, respondem pela tendência da arte contemporânea dos últimos tempos, mas também buscam uma chave ética na tentativa de salvaguardar uma credibilidade ameaçada.

Arte sempre é política, mas não necessariamente seca. Nos versos de Jorge de Lima, o tema recorre à poesia: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”. É claro que, seguindo o discurso mais ortodoxo, esta Bienal (e todas as anteriores) seria apenas uma maneira de compartimentar os sonhos, confinar aspirações em um espaço restrito. É possível ler o tema como uma contenção das forças da natureza, represando revoluções mais plenas. Ou, com uma dose de otimismo, como a abertura para o infinito que cada gesto poético proporciona, mesmo nas menores peças. Cada um partirá de um ponto, mas tentemos ser transparentes.

O release oficial da mostra faz uma defesa da autonomia da arte. De fato, no conjunto das obras, não se identifica uma ideologia, não se percebe um projeto político único, como se tornou regra em tantas curadorias. Poucos dos artistas convidados são estritamente panfletários, poucos se convencem de que basta ser “politicamente correto” para a obra funcionar. Nem que seja com as asas de um urubu, como em Bandeira Branca de Nuno Ramos, a imaginação encontra espaço para voar solta. Foram convocados artistas capazes de se comunicar com gravidade sem descuidar da forma, como Carlos Garaicoa, Cildo Meireles, Steve McQueen, Runa Islam, Nan Goldin, Marlene Dumas, Flávio de Carvalho e Leonilson. Em virtude da força individual de artistas como esses, a mão dos curadores pouco se faz notar. Alguns se apressariam em dizer que é como “a mão invisível” do mercado, colocando a arte a serviço do sistema. Os espíritos mais rigorosos desconfiam das obras que se destacam, preferem aquelas que renunciam à autonomia, como se com isso preponderassem as exigências da realidade.

Na Bienal de 2002, a menina dos olhos de Alfons Hug era a cidade utópica, embora o resultado não tenha sido tão instigante quanto o curador, a despeito das boas intenções, planejava. Desta vez, temos um núcleo que contrapõe utopia e distopia. É neste eixo que se pode entender a filosofia por trás desta exposição. A utopia mobiliza, mas não se sustenta sozinha, é preciso olhar também para seu oposto. Evidentemente, surgem problemas na praça pública do pavilhão, há momentos de algaravia nesta Bienal. É, contudo, uma tensão que surge com a própria democracia – demoníaca, por um lado; demagoga, muitas vezes; demasiada humana, sempre. Se a Bienal passada foi a do silêncio e a retrasada uma “missão pedagógica”, esta ao menos procura dar atenção a diversas vozes e deixar que cada um tire suas próprias conclusões.

 

Ivan Hergenberg é artista e escritor

 

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