© Íris Helena

DASARTES 21 /

Um convite à viagem por novos rumos das artes visuais

Rumos Artes Visuais chega à sua 5ª edição e expõe o resultado de seleção de treze curadores.

Em sua 5ª edição, Rumos Artes Visuais 2011-2013 do Itaú Cultural expõe o resultado de seleção e investigação de treze curadores; organizados em grupos de trabalho, para cada um coube uma fatia do solo brasileiro. Para dar visibilidade à espacialidade dos nossos territórios, o curador geral da mostra, Agnaldo Farias, compôs comissões cuja marca é a autonomia – trabalhou-se separadamente para depois permitir o entrelace de diferentes perspectivas. O ganho com tal formulação consiste em ressaltar a diversidade da linguagem visual dos artistas atuantes no Brasil. A aposta do atual projeto para o Rumos, no segmento artes visuais, não reside em regionalismos, mas assume a difícil e prazerosa tarefa de refazer um traçado sensível do mapa nacional, acentuando a polifonia da produção artística contemporânea coincidente com as diversas culturas brasileiras.

Em rede, um núcleo de jovens e experientes curadores (Ana Maria Maia, Felipe Scovino, Gabriela Motta e Paulo Miyada) selecionou os projetos que passaram posteriormente à investigação in loco de outro núcleo, composto pelos chamados curadores de mapeamento. Os viajantes são Alejandra Muñoz, Franzoi, Julio Martins, Luiza Proença, Marcelo Campos, Matias Monteiro, Sanzia Pinheiro e Vânia Leal. A partir desta articulação, os curadores estabeleceram intermediações entre produções artísticas e o reconhecimento dos seus processos em suas realidades regionais. O procedimento investigativo das equipes de trabalho por certo não foi reduzido a critérios fixos. Eles somaram acepções que às vezes reforçaram o pertencimento a determinado lugar ou mesmo buscaram estados transitórios, mas principalmente atestaram a pluralidade da linguagem visual.

A divisão geográfica por regiões foi deduzida dos quase dois mil projetos inscritos dos estados brasileiros, quantidade que variou de acordo com realidades locais, ou seja, regiões que oferecem de modo mais consolidado políticas culturais de fomento às artes visuais, tais como lugares para exposições, investimento em museus de arte contemporânea e na prática do ensino em universidades ou centros de pesquisa da linguagem artística. Na mostra, procurou-se equilibrar a presença de uma paisagem brasileira distendida. A concentração dos projetos inscritos e selecionados da região sudeste ainda reflete nosso recente passado que se fixava na separação entre centro e periferia, quer dizer, a dinâmica econômica e política centralizada no eixo Rio de Janeiro e São Paulo. Apesar dessa lógica, da qual não é possível ainda escapar de todo, se reconhece potências produtivas que provocaram a realocação de outras fronteiras artísticas.

Cada curador-viajante ocupou (com olhar sensível e com o desejo de vivenciar encontros e descobertas) uma região geográfica brasileira para daí ou de lá reunir dissensos. A tarefa de seleção apoiou-se no trabalho de campo que agrupa os termos pesquisa, agenciamento, reconhecimento e difusão. Ações que atualmente são viscerais para a produção contemporânea e que não se inscrevem somente no “tornar visível”, mas comprometem-se sobretudo com as dicções e as modulações enunciativas e sensíveis que reconduzem fluxos a partir dos quais a linguagem visual se permite acontecer.

Os cem trabalhos dos 45 artistas selecionados foram coletados das cinco regiões brasileiras e estão expostos no Instituto Itaú Cultural desde o dia 9 de fevereiro. Após o encerramento, no dia 22 de abril, a mostra passa, em sua integridade, para o Rio de Janeiro. Depois, se divide em variados núcleos ese reúne em outras paragens, reiterando seu aspecto itinerante e aventureiro. Refeitos em outros espaços expositivos e perpassando pelas regiões brasileiras, os trabalhos vão seguir formulando diferentes paisagens e recriando novas vizinhanças. Para os artistas cujos projetos estão em Rumos2011-2013 foram oferecidas residências artísticas e possibilidades de aprofundamento de suas pesquisas poéticas com seminários e palestras. Tal apoio e comprometimento consolidam alguns aspectos da pesquisa da produção visual contemporânea: partilha e deslocamento.

Os trabalhos selecionados derivaram da noção de esferas geográficas, mas certamente não seria este um ponto regulador. O reconhecimento da necessidade de deslocamento, que implica, por assim dizer, descentralização, remete constantemente a movimentos que englobam perda e reforço de identidades – tradições que se refazem. Dois pontos norteadores foram mencionados por um dos curadores, Felipe Scovino, as noções invenções e descobrimentos que, empregadas em arte, podem ressurgir como materialidades, situações, mitologias, paisagens. De tais entendimentos, ressaltou-se, na seleção dos projetos inscritos, o aprofundamento de estados fronteiriços: reais ou imaginados. Essa tarefa do grupo de curadores não deixa de passar por vivências singulares daquilo que é atribuído, pelos envolvidos no programa do Itaú Cultural, como contemporaneidade. Os traços interdisciplinares coincidem com que é próprio de uma superfície cartográfica: relações e atravessamentos.

Rumos conta ainda com a expografia da arquiteta de Marta Bogéa para o espaço do Instituto Itaú Cultural em São Paulo. O projeto expositivo reside em formar vizinhanças: trabalhos afins. Cálculo preciso no arranjo dos limites de difícil definição, isto é, a ideia de suspender divisórias já aponta para aquilo que é tenso em limitar – a reversibilidade entre junção e separação. Os passos do público que visita a exposição podem ser entrevistos no vazio onde estaria o rodapé, estabelecendo com isso barreiras ocasionais. As zonas de contato entre obras, público e regiões são movediças, abrindo caminho para a percepção desses limites cambiantes.

O espectador, ao lançar um olhar enviesado, se depara com diversos suportes e registros artísticos. As obras não se restringem à especificidade material, processual ou conceitual. Agnaldo Farias estabeleceu como orientação curatorial o estado fronteiriço da arte: “Esta mostra apresenta trabalhos limítrofes, que estão na fronteira das artes. Não existe, nela, uma linha ou tendência única”. E atestou: “É assim mesmo que vemos como tem se produzido na arte na atualidade.” Dos objetos às imagens, da literalidade material às intervenções efêmeras, de norte a sul, apreende-se contraditoriamente a circulação. O sentido de movimento permanece latente nos grupamentos visuais. Não convém falar apenas da diversidade das poéticas contemporâneas talvez caiba à reflexão crítica – curadores, artistas, público – a tentativa da apresentação panorâmica do problemático termo contemporâneo cujo estado comum, se é que existe, é móvel e dissolvente: uma linguagem emergente, aquela que subtrai, outra que reifica o objeto transformando-o em coisa, a impregnação da imagem e seus múltiplos processo, instabilidade de suportes, complexos cotidianos, situações e vivências partilhadas.

Da simplicidade do papel até os suportes digitais – registros da experiência, da pintura-imagem ao bruto material – resistência poética, percebe-se um panorama que não se coloca em termos de objetos isolados. A paisagem rearranjada traduz a potência dos encontros ocasionais e a força de suas reverberações.

Essa importante mostra de artes visuais é decorrente de um trabalho de três anos. Na primeira etapa, o esforço de seleção e compreensão dos projetos; num segundo momento, a exposição do conjunto selecionado, para depois, gerar investimentos tanto em pesquisa artística quanto na criação de polos produtivos da nossa visualidade. Nesta edição de Rumos, procurou-se manter a integridade do programa do edital do Itaú Cultural: incentivar artistas com produção recente – a partir do ano 2000, aprofundar investigações poéticas e, principalmente, assimilar a atualidade da arte brasileira seja ela território distante ou território próximo.

 

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