© War - The Exile and the Rock Limpet, 1842

“O sol é Deus”, concluiu J. M. W. Turner no final de sua vida. O pintor, que rompeu com as fronteiras do Romantismo, apontado como “pai da arte moderna” (John Ruskin), dedicou sua vida às paisagens e aos estudos sobre a luz e a incidência de seu espectro. Para ele, a criação do universo teria se dado por uma iridescência e com ela a revelação das maravilhas do mundo e o milagre da ótica.

Turner iniciou sua carreira precocemente, mas foi aos 60, em 1835, dominado pela dor e debilidade física e mental, que o britânico começou a produzir o conjunto de obras que se tornariam as mais audaciosas de sua carreira. Tomando essa premissa, a exposição Late Turner: painting set free, reúne pela primeira vez, de maneira abrangente, o conjunto de obras realizadas de 1835 até o falecimento do artista em 1851, aos 76 anos. Essa retrospectiva se difere das muitas outras organizadas sobre ele por se concentrar nessa última fase polêmica de sua carreira e por revelar, por meio de um grande corpo de pinturas e estudos, seu espírito selvagem e politicamente engajado.

Embora muito de sua reputação se deva a essa terceiridade criativa, boa parte das obras apresentadas nessa retrospectiva foi desprezada pelos contemporâneos de Turner. Naquela época, ele havia se tornado uma figura controversa, muito em virtude de seu isolamento, suas doenças e a adoção do álcool como automedicação. Mesmo os mais próximos nutriam dúvidas sobre sua saúde mental. Parte dessa incompreensão também estava ligada aos experimentos abstratos com as cores que em alguns momentos superavam as próprias narrativas de suas pinturas. Essa pesquisa de Turner é vista hoje como uma das auroras do Impressionismo.

Eterno turista, Turner viajou incansavelmente – com a saúde já bem debilitada – nesse período. Essas viagens originaram alguns dos trabalhos dispostos na sala On the Wing. Gostava de viajar sozinho, principalmente durante o verão, e carregava sempre consigo seu caderno de desenho. A luz da estação tomou conta de seus diversos cadernos e de obras como Sun Setting over a Lake (1840), que emana tons de laranja e amarelo esbranquiçado enquanto Returning from the Ball (St. Martha) (1846) mostra a força solar ofuscando os barcos em Veneza. Já Fishermen on the Lagoon, Moonlight (1840) tem uma qualidade mais onírica em uma composição de matizes azuis e verdes.

Turner também tinha apetite por história, mitologia e cenários sublimes que o guiavam em busca de grandes vistas, ruínas ancestrais, montanhas, castelos medievais e lagos exuberantes. Essas buscas renderam diversas visitas também aos Alpes e à Suíça, ilustrados aqui por uma série de pequenas e médias aquarelas. Também se interessava por grandes acontecimentos na cidade. A obra Burning of the Houses of Lords and Commons (1834), baseada no incêndio que ocorreu no Parlamento inglês em outubro do ano anterior, foi pintada como símbolo do declínio político.

Durante os últimos 16 anos de sua vida, Turner também arriscou novos suportes, materiais e maneiras de trabalhar. Os formatos octogonais, quadrados e circulares exploravam estados de consciência, fenômenos óticos e a potência da pintura. Exemplos disso são as obras Light and Colour (Goethe’s Theory) e Shade and Darkness (1843). Nelas, Turner testa a noção defendida por Goethe de que a cor surge da interação entre luz e sombra. Para isso, ele comprimiu pinceladas giratórias (que até este momento já haviam tomado conta de todas as suas obras), criando um efeito cíclico aludindo ao dia e a noite.

Sua fascinação pelo mar também continuou a se manifestar em seus últimos anos. A sala That real sea feeling, coloca o espectador em frente ao palco de sua dramaticidade. Mares revoltos, céus nebulosos, clarões e tensões entre natureza e ser humano tomam conta do ambiente. A disaster at sea (1835) confunde o olhar entre nuvens, ondas e luzes enquanto Rough sea (1845) e Snow Storm unem céu e mar com tons acinzentados em pinceladas vertiginosas e espirais.

Há também as incômodas obras sobre a indústria de baleias. A pintura em óleo Hurrah! For the Whaler Erebus! (1846), mostra concentrações de barcos, um grande clarão amarelo no centro e gaivotas sobre uma mancha marrom-avermelhada. A energia dessa obra é intensa e surpreende o fato de ele nunca ter presenciado uma caça.

“O passado oferece lições para o presente”, Turner afirmou uma vez. E, soberanamente, ele soube aplicar uma vida de veraneios, tormentos, sombras e cores de maneira inovadora até seus últimos momentos. O que foi entendido como senilidade, insanidade ou debilidade no passado, pode ter sido o fator determinante que acabou por libertar não só sua expressividade artística como a própria pintura de sua jaula mimética abrindo um novo e ensolarado horizonte no caminho da Arte.

The EY Exhibition: Late Turner – Painting Set Free
Até 25 de janeiro de 2015
Tate Britain – Londres

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