Fale um pouco de seu processo de criação.
Eu faço um ensaio fotográfico com cerca de 50 ou 60 imagens de uma mesma situação, com mínimas diferenças de movimento. Depois, seleciono as fotos que vou utilizar. Preciso fazer sacrifícios, muita coisa que eu acho legal acabo não usando. Então começo um trabalho de edição, faço vários projetos em cima da imagem. Quando escolho um e trabalho o arquivo para impressão, considero o trabalho pronto, mesmo que a peça não esteja executada ainda.

E como é essa execução?

Já que há um custo alto, geralmente confecciono para atender a alguma demanda: a galeria pede, há exposição coletiva, uma participação em feira… Normalmente, guardo o trabalho em arquivo. Quando faço a impressão, faço-a em tela de alta qualidade. Hoje eu mesmo confecciono o chassi, faço o laqueamento, faço tudo.

No processo da fotografia, você é sempre o protagonista?

Sempre. Para mim nunca foi importante eu ser o sujeito, preciso de um personagem, preciso de uma pessoa para estar ali. Como possuo essa facilidade para me aproximar do processo, tenho preferido me manter fazendo, mas já pensei na possibilidade de trabalhar com outras pessoas. O que importa para mim é ter um personagem, uma pessoa ali. Eu estou na foto, mas é mais para fabricar um personagem do que para utilizar minha identidade como sujeito.

Existe um enredo nas suas obras?

Não. Há a intenção de que algo exista ali, mas que não seja de maneira alguma identificável. Meu esforço é para eliminar a narrativa. Quando ela aparece, mudo o projeto, refaço a foto. Minha intenção é que você identifique o que está ali, mas não necessariamente saiba o que é aquilo. Basicamente, preciso estruturar isso pela forma, pela cor. E, por isso, busco o formato do objeto a partir da imagem.

Como você define cada fotografia?

Eu estou sempre cuidando para não pensar muito, não saber o que vou fazer. A própria tensão nervosa e a indecisão são matérias-primas para mim. Inspiração não existe. Às vezes, faço um trabalho achando que vai ficar muito bom e fica ruim. Outras vezes, faço totalmente sem vontade e fica legal. A fotografia é misteriosa, essa coisa de captar um instante que a gente nunca vê é muito misterioso. Faço os ensaios, imagino como ficam e, quando eu vou ver, é completamente diferente.

Você vê aproximações do seu trabalho com o design?

A relação é outra, estou muito próximo com uma ideia de processo de design, de pensamento de design, mas é um horror, para mim, pensar meu trabalho como se eu fosse um designer. Há artistas que colocam um paradoxo nesse sentido, como Jeff Koons, que tem uma separação muito tênue do design. É bem difícil encontrar os limites, mas para mim é um horror alguém olhar e classificar meu trabalho como design, moda. Eu não gosto, tenho medo, às vezes isso soa até meio conservador.

E o que muda na sua produção de vídeos?

Eu penso nos vídeos como um quadro, como são curtos e ficam em loop, você pode prestar atenção em detalhes. No caso do vídeo, o som também é fundamental. Quando comecei a expor os vídeos, lado a lado, com som sem o fone, um penetrando no outro, precisei buscar uma regulagem para ver a autonomia de cada um. Então, trabalho sempre com um tipo de som que sei que vai casar com os outros.

É proposital que haja tempos muito parecidos?

Eu já sinto mais ou menos uma espécie de período de tempo dentro de um padrão que vai funcionar. Até hoje, nunca fiz um vídeo sequer com mais de 25 segundos. O problema de ser muito comprido é que já puxa o cinema, com uma narrativa com começo, meio e fim. E isso me atrapalha, porque preciso de objetos. Isso é uma utopia, mas o que quero é criar um objeto estático com os vídeos. Essa é a minha busca.

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