© Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, 1985

Nascida em 1913, em Kyoto, no Japão, Tomie Ohtake veio para o Brasil pela primeira vez em 1936 para visitar o irmão que aqui já residia. Sua vinda resultou em sua permanência no país. Casou-se e fixou-se em São Paulo, no bairro da Mooca – local de tradição italiana –, onde criou seus dois filhos a partir dos costumes e da cultura tipicamente brasileiros. Dedicou-se à sua casa e sua família até que, em 1952, ingressou em aulas de pintura com o professor japonês Keisuke Sugano, que a incentivou à produção de telas. Assim, aos 39 anos, Tomie realizou seus primeiros quadros, figurativos, com paisagens, vistas da cidade, arranjos de flores e retratos. Apesar da característica convencional dessas temáticas, a artista sempre enfatizou a abordagem empírica que empregava, sem se ater aos princípios técnicos da pintura acadêmica ocidental.

Em algumas de suas entrevistas, marcadas pela fala concisa da artista, Tomie expressava sua vontade de ter se tornado pintora e, com a sabedoria de quem já tivesse muitas vezes ponderado sobre suas opções e decisões, contava sobre como apenas aqui, no Brasil, sua vontade poderia ter se concretizado, uma vez que o futuro esperado para as mulheres japonesas de sua geração se limitava em casar com um par previamente arranjado e viver para servir ao marido e à casa. O trabalho lhe despertava maior interesse, bem como a autonomia que ele trouxe. A atenção para as qualidades intrínsecas dos materiais da pintura – textura, viscosidade, pigmentação, transparência, tempo de secagem, etc. – constitui o ponto de partida e um dos traços distintivos de sua obra.

Pouco tempo depois de iniciar na pintura, a artista abandonou a figuração e desenvolveu o estilo pelo qual se consagrou, a abstração. A partir desse momento, participou de salões de arte por todo o país, ganhou prêmios e expôs em instituições como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), onde realizou sua primeira exposição individual. Tomie Ohtake entrou no circuito das artes com composições que conseguem traduzir os variados gestos executados pela artista. As obras se destacam, principalmente, pela geometrização das formas, sem deixá-las com a rigidez própria do Concretismo e acrescentam pinceladas que atribuem aos fundos e aos contornos uma fluidez típica de uma fatura que não precisa de subsídios para se definir – sem réguas, compassos, etc.

Por sua produção muito ativa, a artista, com uma década de carreira, integrou pela primeira vez o grupo de artistas de uma Bienal de São Paulo, evento que participou por mais sete vezes e contribuiu para sua visibilidade nacional e projeção internacional. Nos 1970, já naturalizada brasileira, além da pintura, Tomie Ohtake se interessou pela gravura e pela múltiplas possibilidades de arranjos de formas, cores e sobreposições que o suporte permitia: começou com a serigrafia; experimentou a litogravura, técnica que a levou a expor na mostra coletiva Graffica D’Oggi, exposição paralela à Bienal de Veneza, em 1972; voltou para serigrafia e deu continuidade com gravuras em metal até o fim dos anos 1990, método que permitiu a reprodução da liberdade conseguida pelas pinceladas que fazia em quadros.

A década de 1980 na carreira da artista foi marcada por sua primeira retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com organização de Pietro Maria Bardi e lançamento de seu primeiro catálogo, com textos de Casemiro Xavier de Mendonça e de Bardi. Essa exposição é sempre lembrada com grande entusiasmo pela grande visitação e pelo sucesso. Nesse momento também, Tomie fez sua estreia como escultora – escultura sobre a piscina da Galeria Paulo Figueiredo (SP), obra que hoje já não existe –, técnica que hoje pontua a cidade de São Paulo e outros tantos lugares pelo Brasil e Japão com suas obras de grandes dimensões. Destaca-se também nesse momento – a partir de 1982 – a presença de um assistente, primeiramente, Fernando Ciampi, que auxiliava a artista na catalogação e execução de suas obras, testes e estudos. E, desde 1997, Tomie contava com Futoshi.
Entre pinturas, gravuras, esculturas, obras públicas, Tomie Ohtake contribuiu com ilustrações de livros, cenário para ópera e foi motivo de diversas análises e homenagens, com textos assinados por críticos e curadores como Mario Pedrosa, Paulo Herkenhoff e Agnaldo Farias, e até mesmo documentários como Retrato de Tomie (1988), dirigido por Walter Salles e o mais recente, de Tizuka Yamasaki, TOMIE (2014).

ENTRE PROCESSO E OBRA

Em seu modo sintético de falar, Tomie sempre fez questão de destacar a necessidade de não intitular suas obras: “Eu não dou título aos trabalhos para que a pessoa que os vê não fique com apenas um significado na cabeça. Não ter nome faz com que a pessoa use seu próprio pensamento”. A artista se desvencilhou da figuração explícita dos primeiros estudos e imergiu na exploração de abstrações feitas sem régua e sem compasso – formas livres não figurativas que não deixam de evocar superfícies aquáticas, luzes, estrelas, imagens do cosmo, a depender do imaginário do observador.

Para tanto, utilizou recursos e diversas técnicas que pudessem suscitar no observador as mais diversas interpretações. Logo no início de sua carreira – entre o final dos anos 1950 e início dos anos 1960 –, Tomie viveu um de seus primeiros momentos experimentais: por sugestão de Mario Pedrosa, produziu sua série – nomeada mais tarde por Paulo Herkenhoff – de “pinturas cegas”. Impulsionada pelo interesse em estudar a transparência e a profundidade, com os olhos vendados, a artista pintou diretamente sobre a tela, sem ter controle pleno de seus movimentos. A obra, então, flertava com o acidental e o imprevisível.

Logo após essa fase, Tomie passou a utilizar estudos que pautaram a realização de suas obras, controlando a dimensão intuitiva característica de seu trabalho. Por bastante tempo, o método mais recorrente na elaboração de suas obras partiu de colagens feitas com rasgos e recortes de revistas brasileiras e japonesas. Desde a primeira metade da década de 1960, empregou esse recurso para definir campos de cor próximos a formas geométricas, tornadas imprecisas pelo efeito dos rasgos feitos à mão no papel – texturas, ranhuras e rebarbas decorrentes do ato de rasgar. Nas décadas de 1970 e 1980, ficou evidente em seus estudos uma definição muito maior no contorno das formas adquirida pelo uso da tesoura para fazer os recortes de papéis. Esses pequenos projetos reverberaram diretamente nas obras da artista, que muitas vezes seguiu em suas pinturas e gravuras tanto os contornos delicados das colagens quanto as texturas e tonalidades dos papéis que utilizou.

Já em seu processo de gravura, a liberdade de criação estava também na parceria com gravadores, responsáveis por transpor suas propostas para a matriz e elaborar um cuidadoso processo de testes e descobertas. A partir de provas de estado, Tomie Ohtake sugeria ajustes que implicavam provas variantes, as quais geravam novas séries ou, apenas, deixavam para trás opções nunca finalizadas como obra.

Com o passar dos anos, as colagens foram dando lugar a desenhos e croquis mais simplificados e com indicações das cores a serem utilizadas. A ideia de projeto também esteve presente na criação de suas esculturas, que sempre partiram de um primeiro estudo feito por Tomie com materiais que tinha à mão, como arames e pequenas placas de alumínio que eram moldadas formando pequenas dobraduras, curvas e torções.

OBRAS PÚBLICAS

Ainda que a primeira escultura pública de Tomie Ohtake tenha sido feita em 1983, na extinta Galeria Paulo Figueiredo, foi seu projeto seguinte que ganhou maior destaque e notoriedade. Inaugurada em 1985, a Estrela da lagoa Rodrigo de Freitas foi produzida a pedido e com autorização da Prefeitura do Rio de Janeiro e com o apoio do estaleiro Ishibrás, que construiu a escultura com a mesma infraestrutura utilizada para fazer manutenção em navios.

Com as notícias que de que a peça amarela seria implantada, moradores e personalidades da cidade se manifestaram com argumentos contra e a favor da obra, que, após muitas negociações, foi instalada na lagoa Rodrigo de Freitas – um dos principais marcos da Zona Sul carioca –, cercada de muita polêmica. Porém, dez anos depois, a obra havia sido desmontada para receber manutenção no estaleiro da Ishibrás quando a empresa declarou falência, fazendo com que o material da estrela se perdesse e, provavelmente, que fosse vendido como sucata.

Esse é um caso isolado no histórico de obras públicas de Tomie que, desde então, utilizava materiais e espacialidades diversas na execução de suas esculturas e monumentos, sempre contando com a colaboração de técnicos, arquitetos e/ou engenheiros. É importante destacar a participação de Jorge Utsunomiya e Vera Fujisaki, colaboradores constantes da artista desde 1997, que desenvolveram métodos de leitura e reprodução dos modelos de arame, muito antes da difusão dos escâneres tridimensionais, possibilitando a produção de peças fiéis aos processos de transposição de curvas e formas que qualificam o desenvolvimento da obra de Tomie Ohtake.

A IMPORTÂNCIA DO TOQUE LEVE
Por Paulo Miyada

É natural que muitos se sintam inspirados pela vida de Tomie Ohtake, com seus sessenta anos de produção artística intensa, a despeito de qualquer prognóstico negativo que alguém pudesse ter de sua decisão de começar uma carreira artística aos 39 anos de idade, em um país distante de sua terra natal e sem uma rede de relações influentes. Mas, além desse exemplo de obstinação, é pertinente se perguntar também sobre a relevância da obra de Ohtake para a história da arte brasileira. O que poderá manter seu trabalho digno de admiração e interesse para as gerações futuras?

Para responder a isso, é preciso localizar sua obra em um contexto mais amplo. Nas grandes narrativas da história da arte ocidental, a abstração geométrica moderna aparece constantemente associada ao ideário das vanguardas construtivas europeias da primeira metade do século 20. Isso significa que o olhar sobre a proliferação das pesquisas pictóricas da cor, linha e plano liberados de associações miméticas da representação é usualmente associado ao imaginário utópico daquele período, em que a arte desejava se tornar nova para colaborar no projeto de uma nova vida para um novo homem, mais livre e autônomo, tanto estética quanto politicamente. Também no Brasil, quando a abstração foi introduzida em finais dos anos 1940, seus entusiastas remetiam constantemente a essa associação ideológica, defendendo a relevância da precisão lógica da composição geométrica como princípio de difusão da arte em um país em acelerada modernização técnico-social.

Tomie Ohtake, que sempre desconfiou da predominância dos discursos sobre a pujança criativa, dedicou sua carreira a explorar os territórios pouco iluminados por essa grande narrativa do modernismo. Sem prescindir da autonomia de interpretação que a arte abstrata oferece tanto aos artistas quanto ao público, Ohtake procurou exacerbar a espontaneidade na lida com cores, linhas e planos, minimizando o papel da lógica geométrica em prol da moleza das linhas tremidas, da vibração dos contrastes cromáticos, da translucidez das camadas de tinta e, finalmente, da profundidade visual que associamos às imagens cósmicas, ao leito oceânico e ao interior do corpo humano.

Assim, sua obra construiu um variado e surpreendente repertório de formas em que a abstração aparece em sua faceta mais leve. Leve, porque é liberada de ideologias rígidas. Porque é sempre nuançada pela imprecisão dos gestos que se deixam tremer, vibrar e denunciar o que tem de circunstancial e frágil. Leve, enfim, porque é imbuída da crença de que encarar a arte não significa “aprender” a ver, mas descobrir modos de estar junto a ela.

Tomie Ohtake, portanto, fica em nossa história da arte como exemplo sem igual do jogo lúdico da abstração mole, leve e em constante reinvenção.

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