© Tomás Saraceno

Converter em realidade artística uma utopia é a proposta central do artista argentino Tomás Saraceno. Suas cidades flutuantes, como a que acaba de ser inaugurada no terraço do Museu Metropolitano de Nova Iorque, transpassam os limites habituais da arte, da arquitetura e da ciência. O artista vem trabalhando na série Cidades Nuvens/Cidades Aeroporto há mais de dez anos. Partindo de um processo multidisciplinar que conta com a colaboração de cientistas e engenheiros, essas complexas instalações buscam proporcionar novas experiências sensitivas ao espectador para fazer repensar a maneira em que habitamos o espaço. Suas instalações se convertem em metáforas poéticas, filosóficas e estéticas que de certa forma denunciam a obsolescência de nossas estruturas sociais, culturais e políticas.

1. Como é dada a hibridação da arte com outras disciplinas em seu trabalho?

Não sou a favor de categorizar as disciplinas. Sempre gosto de pensar que um científico pode ser um artista quando faz uma obra com uma determinada paixão. Gosto de misturar as categorias, já que sempre há possibilidades de diálogo entre os diferentes mundos.

2. Nesse sentido, você busca deliberadamente em suas obras esse diálogo entre diversas disciplinas?

Sim, mas de distintas formas. Há obras que não requerem nem a participação nem o trabalho de ninguém. Tenho, por exemplo, uma obra que é um balão inflado com hélio, bem pequeno, sobre o qual coloco uma aranha. Ela cai várias vezes até que se acostuma a viver em cima do balão, e aí começa a tecer uma teia. Essa é uma obra que gosto muito e requer somente a participação e a boa vontade da aranha. Há obras que sim, são mais complexas e necessitam uma grande equipe de trabalho. Ou seja, evito pensar que as obras devem ser sempre de uma determinada escala e envergadura, como se estivessem regidas por um cânon determinado.

3. Em termos formais, seus trabalhos incorporam formas orgânicas, como é o caso das esferas conectadas em rede que se parecem a imensas teias de aranha, riadas para a Bienal de Veneza de 2009. Como foi o processo de elaboração dessa estrutura?

Uma das coisas que sempre me interessou na complexidade das aranhas é que tecem una teia em três dimensiones. Os astrofísicos, ao buscar explicar o universo, traçam uma analogia com a geometria da teia de aranha. Já sabemos que tudo o que conhecemos, que podemos demonstrar ou nomear, representa só 4% do universo;. Ao mesmo tempo, ninguém nunca havia tentado interpretar ou ler tridimensionalmente uma teia de aranha, porque não existiam nem os meios, nem a tecnologia para isso. Tivemos então que inventar um aparelho, em colaboração com muitas universidades e científicos, através do qual conseguimos pela primeira
vez descobrir, ou começar a entender mais, como é a geometria tridimensional da teia de aranha. É interessante então como os científicos tentam explicar algo pouco conhecido, como o universo, com algo comum, mas que também foi pouco estudado, como a teia de aranha.

4. Sua última obra, On the roof: Cloud City, instalado no Metropolitan de Nova Iorque, sugere, assim como outros trabalhos seus, uma nova forma de percorrer e habitar o espaço. Você acha que essas novas experiências sensitivas permitem alguma mudança na maneira de ver ou entender o mundo?

Me interessa a idéia de proporcionar a visão de uma imagem desde um contexto distinto. Ao entrar na estrutura de Cloud City, o visitante se conecta com o entorno de uma forma totalmente distinta da habitual. Por exemplo, quando você olha para baixo, vê o céu, ao invés de ver o chão; ao olhar para cima, você vê o Central Park voando. Então o que a obra faz é projetar horizontes ou imagens em lugares inesperados, gerando uma série de conexões incomuns, através das quais o tempo do visitante é dilatado no que diz respeito à sua percepção visual. Voltar a reinterpretar… É o que faz a arte, não é? Uma das coisas que eu mais aprecio é que existe esta constante possibilidade de reflexão e redefinição na arte. No momento em que soubermos o que é a arte, então sim, quero mudar de disciplina, não quero mais ser artista.

5. Um conceito mais abrangente de arte também está presente no projeto Museu Aerosolar, que literalmente voa pelo mundo. Esse imenso conjunto de sacos plásticos, unidos para formar um enorme globo solar, é ampliado com a inclusão de mais sacos plásticos por pessoas diferentes cada vez que chega a um destino especifico. Como está implícita a idéia de museu nessa obra?

Gosto de pensar em museus… As obras do Metropolitan e do Museu Aerosolar são parecidas no que diz respeito a uma estrutura modular que se repete: um tipo de geometria funciona como os tijolos de uma casa, com os quais é possível construir qualquer coisa e dar qualquer forma. O Museu Aerosolar funciona dessa forma: modificado permanentemente com sacos plásticos, é uma plataforma que todo mundo participa e permite incluir diferentes níveis de interpretação. Seria como um servidor dentro de uma grande rede, que permite a interatividade e acolhe participantes com diferentes pontos de vista, como no fenômeno Wikipédia. Gosto desse conceito de hospitalidade, onde há maior generosidade para que ocorram mil formas diferentes de pensamento.

6. Na instalação feita para a Bienal de São Paulo de 2006, podemos perceber um diálogo com a arquitetura de Niemeyer. Você poderia nos contar como foi o processo de elaboração dessa estrutura?

Em relação ao edifício de Niemeyer, acho que a obra funcionou bem: ambas possuíam formas bem curvas e a localização perto da rampa permitia ver a obra desde diferentes perspectivas. Gosto também dessas obras que podem colapsar rapidamente, e que têm o ar como matéria principal. Penso que a obra de Niemeyer, este grande hall interno, também é constituído basicamente de ar. Como um balão inflável, 99,9% do volume da minha instalação é ar; essa é a estrutura que te mantém suspendido. A obra abre a possibilidade de entrar e começar a habitar esse volume de ar. Além disso, existe uma pressão ideal para manter os diferentes níveis e evitar que a estrutura se desinfle e colapse com a entrada de um visitante. Assim torna-se evidente uma coisa que normalmente nos esquecemos e fazemos quase automaticamente: o respirar.

7. Os deslocamentos nômades, a coabitação de diferentes culturas e seres vivos, a sinergia entre o ser e seu meio, são ideais que se desprendem do seu trabalho e que terminam evidenciando nossas próprias condições de existência. A partir dessas estruturas utópicas, que tipo de mudança real você vê como necessária?

Estas casas voadoras nos ajudam a ver que deveríamos começar a pensar em uma geografia mais fluida, questionando também os contextos políticos e sociais que delimitam como vivemos sobre a Terra hoje em dia, para poder começar a pensar em uma forma diferente de habitá-la. No momento em que tenhamos a capacidade técnica, social, política e cultural para construir uma cidade voadora, e ter assim nossas estruturas em um estado volante, vamos perceber o quanto nossas formas se tornaram obsoletas. Vamos ter aprendido que o planeta Terra é como uma nave voadora, aonde é necessária a retroalimentação, o fazer e o aprender em conjunto. E que complicado que é tudo isso!

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