© Coleção Steven Mishann, Venezuela

DASARTES 10 /

Toda arte é participativa

Quem ensina arte, deve saber mostrar onde ela termina.

A vida possui inúmeras dimensões artísticas, mas, do ponto de vista educacional, é fundamental a diferenciação entre as coisas da vida e a delimitação de um campo de conhecimento específico como a arte.

O museu é o mundo é o título da exposição que o Instituto Itaú Cultural promoveu em São Paulo, de 20 de março a 23 de maio de 2010. O título da mostra teve origem em um texto homônimo de Hélio Oiticica, publicado na década de 1960, e que põe em cheque o sentido da arte, valorizando, sobretudo, a experiência cotidiana. Arte como manifestação política era a tônica da época. As manifestações artísticas e os programas deste período enfatizam a qualidade da experimentação, traduzido no desejo de transformação social.

A proposição “antiarte” de Oiticica visava transformar os espectadores passivos em participantes que, ao interagirem com os objetos do cotidiano, estariam adicionando suas vivências às coisas que podiam se transformar numa experiência artística. Em um de seus inúmeros textos sobre seu processo criativo e suas proposições conceituais, ele defendia o sentido de “apropriação” às coisas do mundo com as quais se depara nas ruas, nos terrenos baldios, nos campos, no mundo ambiente, enfim, coisas que não seriam transportáveis, mas para as quais ele chamaria o público à participação. Seria isso um golpe fatal ao conceito de museu, galeria de arte etc. e ao próprio conceito de exposição. Ele dizia que “ou nós o modificamos ou ficamos na mesma; museu é o mundo; é a experiência cotidiana”.

A partir da produção e das proposições de Oiticica, a falta de limites entre arte e vida estende-se com muita força para as décadas seguintes e reverbera ainda nos anos 2010, no contexto da arte contemporânea. O trânsito entre arte e vida assume, hoje, um sentido político mais voltado para a questão da sustentabilidade do que para a transformação social. Ou melhor, a transformação social não é mais vista como um fenômeno apenas socioeconômico, mas também ambiental, onde a vida torna-se uma complexa interação de ações e reações entre homem e meio ambiente.

Havendo pouca discriminação entre vida e arte, torna-se difícil circunscrever o que se ensina e o que se aprende sobre arte no contexto educacional, em especial no ensino de arte escolar, uma vez que não mais se ensina apenas conteúdos factuais e conceituais, mas procura-se desenvolver um rol de competências e habilidades que permitam que crianças e jovens interajam criativa e produtivamente com um mundo tecnológico, sustentável e competitivo, em prol de relacionar a aprendizagem com as necessidades da vida. Nesse sentido, as proposições de Oiticica são consoantes com os rumos que a educação toma nos dias de hoje.

No entanto, do ponto-de-vista educacional, é fundamental a diferenciação entre as coisas da vida e a delimitação de um campo de conhecimento específico como a arte. O crítico Guy Brett ilumina a questão ao afirmar que “não há nada nesse mundo que não seja parte da vida para nós que a vivemos. Toda arte é participativa. Quando olhamos uma pintura, trazemos para ela nossa carga subjetiva”.

É justamente na interseção entre as obras de arte e a condição que cada sujeito tem para interpretá-la em um dado momento que reside a experiência estética e que, sob a perspectiva educacional, deve ser entendida como um fenômeno dinâmico, que se transforma à medida em que o sujeito aprende a vivenciar a experiência. Mas não há como um sujeito mudar seu patamar de conhecimento sem que entre em contato com saberes específicos. É importante que, além dos códigos semânticos das linguagens, se compreenda o contexto histórico das produções artísticas. Não há como atribuir sentido artístico a um objeto do cotidiano sem compreender os ready made de Marcel Duchamp; em outras palavras, não é apenas a capacidade de um sujeito viver a experiência que torna o “objeto experimentado” em arte, mas o sistema onde se insere, incluindo artistas, curadores, mercado, museus e aqueles que antes chamávamos de “espectadores” e, hoje, chamamos de “público participante”.

Sob esta ótica, a obra corpo delictus de Jac Leiner, por exemplo, composta pela coleção de objetos retirados dos aviões pelos quais ela trafegou, não poderia ser entendida como experiência artística em sua aceitável condição transgressiva se fosse realizada por qualquer sujeito, pois a este caberia subjugar-se a um processo criminal por furto.

Denise Grinspum é gerente-geral do Instituto Arte na Escola

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