© Everton Ballardin

Tatiana Blass tem ainda na memória suas primeiras impressões sobre arte. Recentemente, ela revelou numa entrevista que, aos seis anos, aprendeu uma nova palavra: “abstrato”. A partir daí, segundo ela, “adorava fazer coisas abstratas porque era uma palavra difícil; era incrível uma criança de seis, sete anos falar ‘abstrato’.”

Tatiana cresceu e hoje desenvolve um trabalho que não somente chama a atenção de quem apenas aprecia arte como também daqueles que, da arte, fazem sua razão de viver. O colecionador Gilberto Chateaubriand, o artista José Resende, o curador do MAM-Rio Luiz Camillo Osório, o curador de Inhotim e crítico de arte Rodrigo Moura e o coordenador do Programa de Residência da Gasworks, em Londres Rowan Geddis , como membros do júri do Prêmio Investidor de Arte (ou Prêmio PIPA), deram a ela o primeiro lugar na edição deste ano.
Tatiana já tem dez anos de carreira; recém-formada, começava a desenvolver seu trabalho – pinturas e desenhos. De lá para cá, participou de exposições individuais e coletivas, esteve entre os cinco finalistas do Nam June Paik Award, foi contemplada com uma bolsa da Cisneros Fontanas ARt Fundation (CIFO) e, este ano, foi não apenas vencedora do Prêmio PIPA (escolhida pelo júri de premiação) mas também escolhida pelo Voto Popular.

Tatiana Blass é um daqueles casos cuja obra é desconcertante, bela, simples e que, no final, é capaz de calar o visitante, produzindo o mesmo silêncio cheio de significados de seus instrumentos emudecidos por cera. Em metade da fala no chão – piano surdo, performance realizada da 29ª Bienal de São Paulo, um pianista que toca Chopin vê as notas de seu instrumento não mais reverberarem conforme cera quente é jogada dentro dele, calando-o gradativamente. A mesma intenção foi posta em prática com baterias, trompetes, tubas e um trombone.

O trabalho de Tatiana com parafina também abraça outras leituras: o filósofo Heráclito e o estado mutável dos elementos da natureza defendido por ele poderiam ser perfeitamente compreendidos através de sua arte. A obra que a fez vencer o Prêmio PIPA literalmente transformava-se aos olhos do público: um homem de cera derretia sob o calor claudicante de um holofote. Conforme o boneco ia sendo desconstruído a cada dia, uma coluna vertebral de cobre se revelava: a verdadeira “lapidação” estava sendo feita ao vivo, naquele momento, por uma antítese de ideias.

Essa maneira – e por que não chamar de dialética – nos faz partir de uma percepção sugestiva do visual para uma suposta falha que se revela ser uma possibilidade. Tudo na obra da artista paulista conversa entre si, estando muito provavelmente na plenitude do vazio que é a sua finalidade, o silêncio escondido entre um pensamento e outro do espectador.

Em telas como Teatro para cachorros e aviões, Tatiana traz a figura do cachorro para um primeiro plano (um grande teatro) e o funde a contos de sua autoria, fazendo da arte um grande palco, com a literatura como convidada. O cachorro, aliás, é uma figura recorrente em seu trabalho. Tido como uma espécie de ator impossível para ela, a ideia é mesmo causar esse estranhamento de um personagem que não pode interpretar nem possuir intenção racional em seu comportamento – qualquer semelhança com a baleia de Graciliano Ramos é mera coincidência. Nele podemos perceber novamente a ideia da desconstrução na série Teatro da despedida.

Sua mais nova instalação se chama Penélope, numa referência à Odisséia de Homero. Mito grego nascido nas entranhas da Guerra de Tróia, Penélope esperou 20 anos seu marido e rei de Ítaca, Ulisses, regressar dos campos de batalha. Para não ter que se casar, prometeu ao pai que o faria apenas quando terminasse de tecer a mortalha do marido desaparecido. O que fazia de dia desfazia à noite.

Inspirada na artimanha da rainha, a instalação montada na Capela do Morumbi consiste em um grande tapete vermelho com 13 metros de comprimento que se estende da porta de entrada até um tear próximo ao altar. Os fios comunicam o interior e o exterior do espaço através de vários entrelaçamentos, deixando a dúvida se o tapete está sendo feito ou desfeito – a ilusão que oculta a real mensagem, marca registrada do trabalho de Tatiana Blass.

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