Still Life – Ron Mueck no MAM-Rio

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Em cartaz, no MAM-Rio, a exposição Still Life do artista australiano Ron Mueck. Os números são espantosos. Até o fim de abril, a exposição do artista recebeu cerca de 130 mil visitantes. A estimativa de público total até seu término é de 200 mil visitantes. A assombrosa visitação se deve à definitiva inserção de exposições de arte no mundo do espetáculo e confirma a centralidade do papel dos museus nesse dimensionamento da cultura. Entre nós, a primeira exposição a alcançar a marca de centenas de milhares de visitantes foi Auguste Rodin, no Museu Nacional de Belas Artes, em 1995. No ano passado, a mostra Impressionismo: Paris e a modernidade, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, teve público estimado em 560 mil pessoas.

A exposição de Ron Mueck faz parte do circuito das megaexposições: para entrar no museu, espera-se até três horas. O amplo espaço expositivo do MAM-Rio fica lotado e os visitantes não param de fotografar. Definitivamente, um evento.

A frequência massificada significa acesso democrático às artes visuais, porém, cabe refletir em quais registros os trabalhos são apresentados, sobretudo, quando se trata de um acontecimento midiático.

Não há como não ficar fascinado com o aspecto dos trabalhos. As expressões real, surreal, sensacional, espetacular, incrível são repetidas incessantemente no ruidoso salão. Diante das esculturas de Ron Mueck, o público se encanta pela aparência das imagens. Os visitantes apontam os detalhes verossimilhantes. As máquinas fotográficas e os celulares não param de funcionar. As pausas para os cliques e as poses fazem parte do circuito expositivo. Surge um curioso olhar: capaz apenas de ver através das telas dos celulares. Nos fins de semana, torna-se difícil circular pelo amplo espaço. A visitação marca o tempo do megaevento.

A incredulidade do público revela o apreço pela figuração. Entende-se como arte a capacidade de reproduzir fidedignamente uma imagem. O risco de confundir a aparência frágil das imagens-esculturas com objeto representado é grande. Por esse registro, voltaria à cena o virtuosismo técnico como exemplo de genialidade, certamente, associado à noção equivocada de arte mimética. Convém, portanto, apresentar outras ponderações para além das declarações superlativas dos meios de comunicação.

A exposição conta com nove esculturas, acompanhadas do vídeo Still Life: Ron Mueckat Work, dirigido por Gautier Deblonde, de 2013.

O título da exposição Still Life indica certo percurso pela História da Arte. Tradicionalmente, Natureza-morta (Still Life), consiste em um gênero da pintura – surgido durante o século 17 no período artístico conhecido como Barroco – que desempenha o curioso papel de manter animado algo que se esvai. A natureza-morta pode revelar um tempo suspenso, não habitual, evidenciado – não sem algum estranhamento – pelo confronto do que é mais corriqueiro e prosaico. Uma boa natureza-morta apresenta uma composição de diversos objetos inanimados cujo arranjo proporcionado pelo pintor lhe confere vida. Alguns aspectos dessa relação entre natural e artificial, animado e inanimado estão presentes na produção do artista. Assim, a ênfase no efeito natureza-morta coincide com burburinho da sala de exposição das obras de Ron Mueck: a impressionante semelhança das imagens com corpos humanos as mostra como se estivessem vivas.

Logo, no início do percurso museográfico, ao subir para o pavimento das exposições do Museu, o espectador se depara com a estranha escultura Still Life (Natureza-morta), de 2009. A imagem é insólita: uma galinha depenada em escala monumental. Sem dúvida, um tema caro ao gênero natureza-morta que dedicara atenção às cenas prosaicas do cotidiano. Os animais mortos (aves, peixes e até arraia) faziam parte dos arranjos de composição de quadros. Salvo o efeito natureza-morta do conjunto dos trabalhos do artista australiano, a vinculação entre as obras sugere uma escolha extremamente pessoal. As esculturas parecem saídas de uma coleção de imagens privadas que reunidas criam certo non-sense. Ainda que se trate de figuração, o conjunto dos trabalhos não sugere narrativa alguma, seu sentido é íntimo e pertence apenas ao artista.

Da primeira visada, já no espaço expositivo, segue-se para a obra Casal debaixo do guarda-sol, de 2013, que chama a atenção devido à dimensão. O gosto pelo prosaico novamente predomina. O simpático casal de idosos tem refletido na estranha textura da pele as alegres cores do guarda-sol. Este trabalho, junto com Jovem Casal e Mulher com as compras, foi exibido pela primeira vez nesta exposição. Jovem Casal e Mulher com as compras reforçam o acento artificial do hiper-realismo de Ron Mueck. A aparência “real” das figuras dialoga com cenários cinematográficos. Por isso, não seria desinteressante observar que a recorrência dos efeitos especiais do cinema na vida cotidiana – comerciais, animações, imagens de pessoas “corrigidas” e “editadas” por programas de computador – permite que essa linguagem e aparência tenham se tornado “reais”. O artista utiliza técnicas de modelagem de bonecos com os seguintes materiais: silicone, látex, resina de fibra de vidro. A opção do artista pela técnica de modelagem promove a estranha tessitura dos seus objetos: quase viva. Reforça-se, portanto, que a superfície levemente plastificada das esculturas jamais se confunde com pele. Aliás, em arte, pele é outra coisa.

A disposição das esculturas no salão do Museu revela imagens. Ainda que se trate do objeto escultura, os trabalhos assimilam o efeito cênico de superfície lisa. Por exemplo, só é possível ver parcialmente as obras A mulher com galhos, de 2009, Juventude, de 2009, Jovem Casal, de 2013 e À deriva, de 2009. Apenas algumas faces são apresentadas, isto seria – propositado ou não – uma negação da tridimensionalidade da escultura. Em À deriva, a posição da escultura, vertical e pregada à parede, funciona como pôster, sensação acentuada pela simulação da superfície azul de piscina.

O conjunto de objetos impressiona, sem dúvida. As dimensões variadas das obras – sem equivalente humano – recordam as fábulas infantis onde tudo é maravilhoso. O artista explora bem motivos que se conjugam facilmente às imagens. O homem nu, a máscara, o jovem ferido (Homem em um barco, 2002, Máscara II, 2002 e Juventude, 2009), tal como apresentados, são levemente melancólicos. Isoladas como estão, percebe-se a fragilidade das figuras reforçada por seu aspecto quase vivo. Solidão e isolamento, estranhamento e conformidade, fantasioso e realista, são alguns traços que as imagens-esculturas de Ron Mueck carregam.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro acolheu exposições significativas de arte moderna. Local de atuação da vanguarda experimental do Rio de Janeiro, o MAM participou da escrita da nossa história da arte recente, desenhando o circuito do experimentalismo. Com a exposição Still Life de Ron Mueck, o MAM-Rio, em parceria com Fondation Cartier pour l’art Contemporain, coloca-se definitivamente no circuito das megaexposições. Convém mencionar, por fim, que o artista australiano, que vive e trabalha em Londres, teve chancela do emblemático colecionador inglês Charles Saatchi.

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