© Adagp, Paris 2010 / Autivus

A mídia cobriu extensamente a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle, que esteve em cartaz em várias cidades do país em 2009. Afinal, o que pretende essa artista, que foi abandonada pelo namorado e transforma isso em um trabalho de arte? Muitos condenam os temas íntimos e pouco ortodoxos abordados por Calle, mas não o público, que reagiu com compaixão à sua situação, como mostram os comentários no blog da exposição. Em entrevista exclusiva à Dasartes, Calle fala de sua obra.

“Recebi uma carta de rompimento por email que não soube responder. Era como se não fosse a mim destinada. Terminava com as seguintes palavras: Cuide bem de você. Tomei esta recomendação ao pé da letra. Pedi a 107 mulheres, escolhidas por sua profissão, seu talento de interpretar a carta sob um ângulo profissional. Analisá-la, comentá-la, interpretá-la, dançá-la, cantá-la. Dissecá-la, esgotá-la. Fazer-me compreender. Falar no meu lugar. Uma maneira de sentir o tempo do rompimento. No meu ritmo. Cuidar bem de mim”

Em boa parte de seus trabalhos, os limites entre sua vida privada e a vida pública parecem se dissolver. Isso a incomoda?

Não, esses trabalhos não são minha vida privada, ninguém sabe o que ocorre na minha vida privada. Essas coisas aconteceram comigo, mas não são minha vida. Em Cuide de Você, por exemplo, eu recebi uma carta de rompimento, como você, ele e todo mundo recebeu.

E qual foi o instante em que você percebeu que essa carta poderia gerar uma obra de arte?

Primeiro, eu não sabia como responder a essa carta, então, eu pedi conselhos a uma amiga. Talvez porque eu esteja acostumada a usar elementos da minha vida na arte, rapidamente me veio a ideia e já tentei visualizar o que poderia ser feito em termos de imagem. A partir daí, o trabalho tomou forma bem rapidamente.

Você comentou em entrevista à revista Interview que pediu às pessoas que respondessem à carta de uma maneira não verbal, para evitar problemas com o idioma na Bienal de Veneza.

Não exatamente. Primeiro, concebi a ideia que você vê nos muros da exposição. Depois, com medo de que as pessoas em Veneza não conseguissem ler em francês, tentei incluir interpretações que não fossem baseadas na língua, com a dançarina, a musicista. Eu queria, ao menos, ter certeza de que o conceito do trabalho fosse compreendido por pessoas que não falam francês. É verdade que essa adição da atriz, do cantor, alterou o conceito inicial do trabalho, que eram respostas escritas.

Esse trabalho e outros, como North Pole, parecem lidar com momentos difíceis da sua vida. Digerir ou entender esses acontecimentos pode ser um dos motivos por trás das obras?

Sim e não. Os trabalhos não são criados com essa intenção em particular, mas, algumas vezes, eles realmente ajudam. No caso de Cuide de Você, precisava primeiro entender o que era essa carta. Eu devo respondê-la? Era realmente uma carta de rompimento? Ou uma carta me pedindo para voltar? Então, eu pedi conselho a uma amiga minha e me veio a ideia para o trabalho. Depois, tomar distância da carta e dividir o problema fez me sentir melhor. E, claro, preparar qualquer exposição me faz sentir melhor, trabalhar e conhecer novas pessoas me faz sentir melhor. Mas isso não é uma razão para o trabalho, é um efeito dele. O trabalho sobre minha mãe não foi feito para eu me sentir melhor, mas o resultado é que ela está comigo em todo lugar, viva, de certa maneira.

Em 2009, você esteve na FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) e falou em público com Grégoire Bouillier pela primeira vez depois do trabalho Cuide de Você. A reação de Grégoire parecia defensiva, como se ele se sentisse invadido pela exposição.

Essa foi e será a única vez em que falamos juntos em público, só queríamos fazer isso uma vez. Acho que ele estava em uma posição difícil, pois o trabalho é sobre ele. Teve que se defender para mostrar que ele não é só um assunto, mas também um homem, um escritor.

Há alguma relação entre o trabalho Cuide de você e o livro de Grégoire Bouillier O Convidado Surpresa, publicado dois anos antes, sobre o início do relacionamento de vocês (lançado no Brasil pela Cosac Naify, em 2009)?

Não há relação. Eu gosto desse livro, eu gosto de ser parte de um bom livro.

Como em Leviatã (1992), de Paul Auster, em que ele baseia a personagem Maria em você?

O livro de Paul é um romance. Ele usa elementos da minha vida, mas não é sobre mim.

Mas você responde em Double Game, transformando-se nesse personagem…

Eu queria rebater. Quando eu li Leviatã e vi elementos da minha vida, quis encontrar uma forma de retornar a brincadeira a Auster. Então, decidi viver a vida de Maria por uma semana em Double Game, e Paul narrou essa experiência em Gotham Handbook. [Double game é uma série de livros composta por diversos trabalhos de Calle, como The Hotel, Address Book e Gothan Handbook, no qual Paul Auster participa.]

Você estava interpretando um papel como um ator, e um ator, às vezes, esquece-se de si mesmo. Isso acontece com você?

Não, porque Auster não me deu um roteiro completo, um personagem completo, como pedi. Ele não quis “desenhar” minha vida, teve medo das consequências. Ele me deu algumas regras, como comer apenas comidas de determinada cor a cada dia da semana, basear cada dia em uma letra do alfabeto, sorrir, mas não foi suficiente para me transformar em um personagem. Fiquei feliz porque o jogo continuava, mas, ao mesmo tempo, fiquei frustrada, porque continuava vivendo minha vida e queria sair fora dela. Queria ser uma heroína do livro, ser uma fantasia dessa obra.

Quando você registra eventos cotidianos, como em Suite Vénitienne (1979), em que você segue um desconhecido, você deseja algum evento extraordinário ou isso é irrelevante?

Não, eu não quero qualquer evento extraordinário. Se algo extraordinário acontece, acaba para mim, porque se torna jornalístico. Imagine se o cara que eu estou seguindo mata alguém: é o fim, o tema me pregou uma peça. Eu só posso trabalhar com a banalidade.

Nós falamos sobre trabalhos em que há a participação de voluntários, mas, em alguns deles, as pessoas participam sem seu consentimento. Você já teve problemas com isso, além de em Address Book (1983)?

Eu tive problemas, mas mesmo quando eu fui culpada disso, como em Address Book, a excitação foi maior, então eu faria de novo. [Em Address Book, Calle telefona às pessoas que aparecem em um caderno de endereços encontrado na rua e pede que eles falem do proprietário do caderno. Esses depoimentos foram publicados em 28 episódios no jornal Francês Libération, montando um retrato de um homem a partir do ponto de vista de conhecidos. O proprietário do caderno processou Calle por invasão de privacidade].

No início de 2005, ocorreu uma grande exposição retrospectiva no Centre Pompidou. Como foi para você observar todos seus trabalhos reunidos?

Foi emocionante, porque era Paris, minha casa. Fora isso, expor é meu trabalho, um hábito. Fiquei um pouco deprimida quando vi todas as minhas obras carregadas em um só caminhão e pensei: “Só isso? É tudo?”

Como você vê a comparação entre seu trabalho Detective, e Following Piece, de Vito Acconci, que também discute o espaço público usando o mesmo método de seguir uma pessoa?

Eu não conhecia o trabalho de Acconci quando comecei o meu. Eu estive em Nova York para vê-lo [Acconci], mostrei meu trabalho, e ele me disse para continuar. Por conceito, há uma grande diferença: seguimos qualquer um na rua, mas ele relata o que se passa, e eu relato os sentimentos, a não reciprocidade com as pessoas que sigo. Nosso objetivo é completamente diferente.

Em outro trabalho, Douleur Exquisite (1984-2003), você também faz um trabalho a partir do término de uma relação amorosa, propondo às pessoas que falem sobre a experiência mais dolorosa em suas vidas. Qual relação há entre Douleur Exquisite e Cuide de você?

Esses são os dois únicos trabalhos, de todos que eu fiz, em que há alguém que eu conheço como tema, além de No sex last night (1992), que foi feito em conjunto. Normalmente, os sujeitos são anônimos. [Em No sex last night, Sophie Calle parte para uma jornada de Nova York a Las Vegas com um homem praticamente desconhecido. Os dois filmam a viagem e o convívio, que culmina em um casamento em Las Vegas.]

Exquisite Pain (Dor Apurada)

Em 1984, ganhei uma bolsa do Ministério de Relações Exteriores francês para ir ao Japão por três meses. Parti em 25 de outubro, sem saber que esta data marcava o começo de uma contagem regressiva de 92 dias para o fim de um caso amoroso. Nada extraordinário – mas para mim, na época, o momento mais infeliz de minha vida, e um pelo qual eu culpei a viagem em si.

Voltei à França em 28 de janeiro de 1985. A partir daquele momento, sempre que as pessoas me perguntavam sobre a viagem, eu pulava a parte sobre o oriente e contava sobre o meu sofrimento ao invés disto. Por minha vez, passei a perguntar aos amigos e pessoas com quem cruzava: “Quando foi que você mais sofreu?”

Fiz isto sistematicamente até que superei minha, comparando-a com a de outras pessoas, ou gastei minha estória por simples repetição. O método se provou radicalmente eficaz: três meses mais tarde, eu estava curada. No entanto, temendo uma possível recaída, decidi não explorar o experimento artisticamente. No momento em que voltei a ele, quinze anos haviam se passado.

Qual é a importância, para você, de exibir seu trabalho como uma exposição ou como um livro?

Eu creio que, por causa do meu pai, a exposição é mais importante para mim, mais ambicioso. Meu pai era seduzido pelas obras na parede. No entanto, eu tenho uma relação mais sensual com o livro. Eu amo fazer livros, para mim é mais óbvio, menos complexo, é um jogo. Também porque é uma maneira de fazer seu trabalho ir ao mundo e circular por muito menos dinheiro.

Você já teve alguma proximidade com o público brasileiro antes dessa experiência? Já teve algum contato com artistas brasileiros anteriormente?

Confesso que conheço mal a arte brasileira. Conheço, sobretudo, a geração anterior, como Lygia Clark. Como não dou aula, quando termino uma exposição, tento sair completamente do mundo da arte. Não leio revistas de arte, só leio jornal do cotidiano (risos).

Talvez o jornal cotidiano seja mais ligado à sua obra que revistas de arte…

Não, porque, ao mesmo tempo, minha ambição é toda artística. Talvez minha ambição seja melhor do que eu.

Compartilhar: