Sem título, 2018

DASARTES 78 /

Sonia Gomes: ainda assim me levanto

NOVAS OBRAS DA ARTISTA MINEIRA SONIA GOMES, NO MASP, APRESENTAM OS DESDOBRAMENTOS DE SUA PRÁTICA ARTÍSTICA EM TORNO DA ESCULTURA QUE AGORA INCORPORA GALHOS E TRONCOS EM SUA PRODUÇÃO

“Ainda assim me levanto” apresenta a extraordinária contribuição da artista Sonia Gomes para a linguagem da escultura contemporânea. As obras foram realizadas especialmente para esta mostra, que acontece de modo simultâneo no MASP e na Casa de Vidro – resultado da parceria do museu com o Instituto Bardi. O diálogo com os edifícios modernistas de Lina Bo Bardi afirmam o caráter de instalação de arte da exposição, em que Gomes cria os trabalhos em conexão com tais espaços arquitetônicos.

Sem título, da série Raiz, 2018.

O título faz referência ao poema “Still I Rise”, de Maya Angelou, escritora e ativista estadunidense reconhecida por sua luta em favor dos direitos civis. Esses mesmos versos foram lidos por diferentes figuras públicas em manifestações de arte e políticas. Também foram inspiração poética para muitos artistas em seus processos individuais de produção criativa.

Correnteza, da série Raíz, 2018

“I Rise” é repetido no poema de Angelou como um mantra, sustentando altivez e garra em favor de mudanças e parece anunciar o movimento da trajetória de Sonia Gomes que agora se reinventa e desdobra sua pesquisa em torno dos galhos e dos troncos, materiais inéditos em sua obra e que nomeiam a principal série da exposição, intitulada “Raiz”. À madeira, unem-se os retalhos de tecidos que, manipulados manualmente, constituem matéria de poesia nos trabalhos de Gomes.

Santa, da série Raíz, 2018

Encontrados ao acaso ou ofertados à artista, tecidos de distintas qualidades, cores, estampas e texturas são cortados, reconfigurados e transformados em expressivas e inconfundíveis esculturas. Abstratas, as peças são criadas em múltiplas e densas camadas que, delimitadas desde a costura, refutam o aspecto figurativo, dando ênfase ao volume e ao equilíbrio e questionando os limites entre noções de funcionalidade, arte e artesanato. Têxteis, cordas, utensílios e outros objetos do cotidiano permitem que Gomes tensione formas diversas e remeta a diferentes práticas artísticas – tradicionais ou contemporâneas, eruditas ou populares.

Sonia Gomes nasceu em Caetanópolis, importante município brasileiro de indústria têxtil do estado de Minas Gerais. A artista relata que essa proximidade a conectou, desde muito cedo, a diferentes tipos de tecido com os quais gostava de brincar. Com os retalhos que compunham as amostras desses tecidos, Gomes enrolava, torcia, dava nós e os amarrava em suas bonecas, reiterando a ideia de que cada coisa vista sem préstimo pode constituir substância da sua arte.

Sem título 2018

As esculturas e instalações da artista, feitas a partir de materiais residuais, principalmente têxteis e outros objetos diverso, remetem a práticas artesanais brasileiras: as amarrações, nós, patuás, trouxas e tramas que compõem o trabalho de Gomes evocam expressões culturais afro-brasileiras – mas também à tradição de bordadeiras e rendeiras de Minas Gerais, todos parte de sua formação artística.

Apesar da carreira internacional, esta é a primeira mostra monográfica de Sonia Gomes em um museu de São Paulo. Única brasileira convidada para a 56ª Bienal de Veneza de 2015, curada por Okwui Enwezor, a artista iniciou sua carreira aos 45 anos e, aos 60, encontrou reconhecimento, estando hoje em plena atividade. No MASP, Gomes integra um ano de exposições e programas públicos em torno das histórias afro-atlânticas, que trata dos fluxos e refluxos entre a África, as Américas, o Caribe e também a Europa, a partir das artes visuais. Esse programa inclui uma série de exposições individuais, bem como uma coletiva que foi coorganizada com o Instituto Tomie Ohtake e que incluiu o trabalho da artista.

Acordes naturais, 2018

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