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DASARTES 21 /

Simplesmente Doisneau- A vida como ela é

O centenário do fotógrafo que registrou a poesia da reconstrução francesa do pós-guerra.

Mostra comemorativa do centenário do fotógrafo francês traz ao Brasil 152 imagens que mostram que a vida é bem mais interessante para quem sabe, como ele, olhar e apreender o encantamento presente no lugar-comum do dia a dia.

Este ano, grandes mostras de mestres enchem de alegria o amante da arte fotográfica: Edward Steichen, André Kertesz, Antanas Sutkus, Brassai e Simplesmente Doisneau – o litógrafo que, influenciado por outros fotógrafos de sua geração, como Henry Cartier-Bresson, soube como ninguém captar o dia a dia dos parisienses. A vinda da exposição ao Brasil (em cartaz do Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro) é uma iniciativa da Aliança Francesa, com o apoio da montadora Peugeot, em comemoração ao centenário de nascimento do fotógrafo francês.

Simplesmente Doisneau é muito mais do que o célebre Le baiser de l´Hôtel de Ville, de 1950 – beijo encenado por dois atores para um editorial publicitário. Doisneau fotografou gente famosa, como Picasso, Jacques Prevert, Cesar Baldaccini, Georges Braque e Maurice Baquet.
Suas fotos mostram uma Paris romântica, sim, mas também a cidade comezinha, de cavalos que caem no chão, do dia a dia de uma cidade ocupada pelos alemães na Segunda Guerra, de crianças que contam nos dedos e olham, ansiosamente, o relógio andar devagar em direção à hora do recreio. Algumas coisas não mudam.

Dividida em 12 tópicos, a exposição com 152 imagens traz imagens inéditas e tiragens originais retratando a França ocupada e o pós-guerra. Segundo a curadora Agnès de Gouvion Saint-Cyr, a grande atração da mostra é o registro da reconstrução de uma França abalada por anos de ocupação nazista – um fotógrafo a registrar o momento de transformação de uma Paris de periferia destruída. Doisneau deixou um legado que mostra a reconstrução da cidade e a vida de seus cidadãos depois dos bombardeios alemães – principalmente dos habitantes dos subúrbios, onde não havia prédios históricos nem museus a serem preservados das bombas, fossem elas alemãs ou aliadas.

Robert Doisneau nasceu em Gentilly no período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial (1912). A influência que Henri Cartier-Bresson (um mestre em fotografar, agarrado à sua Leica, pessoas vivendo suas vidas), Eugène Atget (que tinha predileção por registrar o vazio das ruas parisienses e objetos inusitados) e André Kertész (que passeou entre a reportagem e a experimentação, patente em seu projeto Distorções) determinaram sua marca registrada: fotografar a vida enquanto ela acontecia na Paris em transformação física e social de Paris.

Originalmente formado em litografia, Robert Doisneau era autodidata – assim como Kertész, começou sua carreira em meados dos anos 1920. Entre registros feitos durantes passeios à capital francesa, ingressou oficialmente na profissão em 1934, numa fábrica da Renault em Billancourt – era fotógrafo industrial e de publicidade. Doisneau queria, na verdade, ser fotojornalista, mas o mergulho da França na Segunda Guerra Mundial empurrou-o para as fileiras, onde serviu ao exército francês em 1940. Até o fim da guerra, trabalhou para a Resistência, sem largar jamais a máquina fotográfica – fazia postais para sobreviver. Com a França em reconstrução acelerada, Doisneau ingressa nos quadros editoriais da Vogue, revista que publicou seus trabalhos até 1952, quando se tornou fotógrafo independente.

O registro das ruas, a despeito de seu trabalho em publicidade e moda, foi o tema que marcou sua carreira: o casal de namorados a trocar carícias entre arame farpado em Amour et barbelés – L’amour sous l’Occupation, Jardin des Tuileries, Paris (1944); os olhares disfarçada e tortuosamente atraídos por um nu, pendurado numa vitrine na hilariante série In regard oblique (1948); o toque indiscreto e desatento de trabalhadores erguendo uma estátua em Vénus prise à la gorge (1964) ou o amor não correspondido de uma estátua pela outra no Jardim do Palácio de Versalhes em Prisonnier barbare et Vénus callipyge (1966).

Conhecer o trabalho de Doisneau, morto em 1994, é um passeio inesquecível. O fotógrafo Claudio Edinger (tema da seção Notícias de desta edição) comentou, em entrevista à Dasartes, referindo-se ao trabalho do fotojornalista (categoria onde se incluem, em início de carreira, tanto Doisneau como Kertézs e Brassai): “Alguns assim chamados fotojornalistas são na verdade artistas procurando uma forma de pagar as contas. Estes produzem arte. Seu trabalho transcende a informação pura e simples. O artista está interessado em imagens que vão além dos fatos, imagens que revelam um universo misterioso, que é o íntimo de cada um. […] Se olho um trabalho e nele reconheço seu autor e uma preocupação mais profunda, que se relaciona com quem somos, porque estamos aqui, este é um trabalho que perdura.” As imagens de Doisneau ainda são atuais, passados mais de 50 anos de sua execução. Seu trabalho está registrado em mais de 20 livros e nove filmes. entre eles o curta-metragem Le Paris de Robert Doisneau (1973) e Bonjour Monsieur Doisneau (1992). Mais do que um beijo em frente à Prefeitura de Paris, a obra de Robert Doisneau foi um dos pilares da corrente humanista na fotografia francesa, mostrando que, independentemente do momento em que se vive, a vida continua.

Simplesmente Doisneau

Até 17 de junho
Centro Cultural da Justiça Federal
Avenida Rio Branco 241 – Cinelândia
21 3261 2550

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