© Celso Oliveira

Silvio Frota me recebeu no escritório dele de paredes cobertas por fotografias que inspiram qualquer rotina de trabalho. Frota tem o prazer de detalhar cada aquisição e artistas, comprovando porque é um dos mais importantes colecionadores de arte brasileira e internacional fora do eixo Rio-São Paulo. Morador de Fortaleza, transita por feiras do mundo inteiro. Suas escolhas de aquisição são pensadas a partir de temas que considera importantes para se entender a História da Arte e do mundo. Estão presentes artistas como Rosângela Renó, Miguel Rio Branco, Cindy Sherman, Wesley Duke Lee, Mira Shendel e Adriana Varejão.

 

Como começou sua coleção?

Tenho duas coleções: uma de 250 obras do Modernismo à arte contemporânea; e outra de fotografia, que envolve fotojornalismo e artistas contemporâneos. Comecei em 1980, com uma pintura de OrlandoTeruz. É a única obra que minha mulher não deixa eu tirar de casa por essa ligação emocional. Há cinco anos, passei a colecionar fotografia, tenho mais de duas mil. Vi uma exposição do Steve McCurry e me apaixonei pela foto Afghan girl. Comecei a estudar sobre fotografia e me apaixonei. Mas eu não queria colecionar por investimento; pensei no que queria ter, qual rumo daria para esse acervo. Então comprei fotos da ditadura militar no Brasil, que passou a ser a base da minha coleção e do pensamento para sua formação, os Conflitos no Mundo. Estou continuando no tema com fotos da Primavera Árabe e das recentes manifestações no Brasil.

 

Que destino você imagina pra sua coleção?

Quero que as pessoas tenham acesso. Tenho um instituto em fase de aprovação. Minha ideia é montar um museu, por isso pensei numa coleção que contasse uma história do mundo. Também tenho um site com mais de quatro mil imagens para serem disponibilizadas pela internet. Só não foi ao ar por questões de direitos de imagens. Na minha visão, deveriam ser liberadas pelo menos para pesquisa. Essa limitação é um absurdo. E não é nem o artista, é a família. O artista normalmente disponibiliza sem problemas.

 

Como se deu seu encontro com a arte?

Comecei a gostar muito novo, fazia exposições de artistas nos anos 1970. Quando ninguém sonhava com isso, eu fazia vernissage de amigos sem cobrar coisa alguma. Começou daí, sem intenção, e, em 1980, comprei minha primeira obra.

 

Como seleciona as obras que vai adquirir?

Ela é toda pensada para ser colocada num museu. Uma premissa básica é comprar sempre uma série que possa contar uma história e mostrar a proposta do artista, numa só foto não dá pra assimilar seu processo de trabalho. Com cinco fotos, vão ver que não é um mero clique, tem um pensamento por trás. Recebo gente do mundo todo pra ver a coleção e o que mais respeitam é que ela foi planejada num conceito. Sei tudo sobre o que estou comprando, compro porque é instigante, pode suscitar leituras, não a arte pela arte.

 

Ou porque é valioso.

Jamais faria isso. Compro porque pesquiso, sei a história. Não tem nada na minha coleção de que eu não goste.

 

Você procura conversar com o artista?

Sim, quem sabe o que faz é o artista. Uma obra pode não me dizer coisa alguma, mas me provoca. Quando converso com o artista, tenho uma visão muitas vezes diferente da que tinha antes.

 

Sua coleçnao de fotografia foi iniciada recentemente e já tem duas mil obras, como foi esse processo de aquisição?

Há cinco anos, parei de adquirir obras. Quando voltei a comprar, o mercado tinha subido bastante. Não quero cometer esse erro com a fotografia, por isso acumulei esse acervo rapidamente. A fotografia não é mais um subproduto, está em todas as galerias no mesmo status de uma pintura ou objeto. Há uma tendência de que os preços se equipararão.

 

Que dicas você da pra quem quer começar a colecionar arte?

É preciso comprar uma obra de que se goste e, cada vez que olhar para ela, vai querer comprar mais. Você tem que se apaixonar pelo que vai ver diariamente. Nunca compre uma obra só como investimento.

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